
Por Alexei Barros
Enfim no dia 27 de janeiro se encerrou a jornada de quatro anos de expectativa pela trilha sonora de Final Fantasy XIII. Lá vem o clichê: parece que foi ontem que me extasiava com as músicas de FFXII em 2006, como a Symphonic Poem “Hope”, quando já na E3 daquele ano o primeiro trailer do jogo veio a público com um tema que se sustentava em um solo de violino arrebatador. A notícia era de que Masashi Hamauzu, nome em ascensão à época por suas colaborações em FFX (o que dizer de “People of the North Pole” e “Decisive Battle”?) e por todo o trabalho em Unlimited SaGa e Dirge of Cerberus: Final Fantasy VII, seria o compositor principal, no momento em que, Nobuo Uematsu, à moda do que aconteceu com FFXII, faria o habitual tema J-pop.
Eventos vêm, mais trailers surgem, chega a demo. A primeira impressão é das melhores. Na E3 2009, o sucessor Final Fantasy XIV é revelado junto com a notícia de que Uematsu retomaria a incumbência da composição. Meses depois ficaria comprovado que isso o levou a abdicar da canção para deixar todas as faixas sob os cuidados de Hamauzu. Em setembro de 2009, na Final Fantasy XIII Premiere Party, um miniconcerto com a performance da jovem cantora Sayuri Sugawara, apresentou o tema principal e outras músicas orquestradas. Paulatinamente mais amostras eram liberadas no site oficial quando a Square Enix adotou uma iniciativa que pode ser classificada como repugnante: a canção-tema na versão ocidental seria substituída por uma música licenciada da cantora inglesa Leona Lewis, o hit “My Hands”. Mais detalhes como a orquestra utilizada e os arranjadores envolvidos vieram à baila e então a uma semana do lançamento da trilha sonora foi confirmada a saída de Masashi Hamauzu da Square Enix.
Na primeira escutada das 85 faixas que totalizam 4 horas e 3 minutos, o meu êxtase foi tal que ainda não tenho dúvidas se não é a melhor trilha musical da série desde Final Fantasy VI, que considero o ápice da inspiração de Nobuo Uematsu por conta do trio de ferro “The Dream Oath ‘Maria and Draco’”, “Dancing Mad” e “Ending Theme” (e aqui já conto todos os geniais temas de personagens). Vi muitos compartilharem da minha empolgação, e outros nem tanto. Normal, afinal todos têm diferentes percepções e preferências.
Mas o que queria destacar são dois pontos: a ousadia e a versatilidade, e para tanto é inevitável fazer as comparações. Com ele mesmo, Nobuo Uematsu. Primeiro as trilhas mais recentes do Blue Dragon e Lost Odyssey. Não sei se por imposição do amigo bigode Hironobu Sakaguchi, nesses dois jogos Uematsu teceu belas músicas, mas não se arriscou a escapar dos padrões consagrados. Baladas pop, músicas orquestradas de energia parecida e, o que já vem até cansando, temas finais de combate que combinam rock e coral em latim. Saindo do terreno dos RPGs, em Anata wo Yurusanai ensaiou muito timidamente um flerte com bossa nova e no Lord of Vermilion apresentou um hard rock que a mim soou sem vida, sem inspiração (comparar com BlazBlue é pecado). Não entendo como a trilha foi tão elogiada, falando francamente. Mencionar do Uematsu me parece apropriado porque ele voltará no FFXIV. O que quero dizer com tudo isso: estou para ver se o Uematsu fará uma trilha melhor do que a do FFXIII.
Além das músicas eletrônicas, orquestradas e das faixas enfatizando piano e violino que estamos acostumados com os trabalhos do Masashi Hamauzu, o compositor alemão enveredou por vias que realmente não esperava. Blues. Jazz fusion. Bossa nova. Mais impressionante, Hamauzu mostrou uma desenvoltura como criasse composições há anos no estilo. Uma diversidade digna de Yuzo Koshiro ou Yoko Kanno. Mais arrojada ainda foi a decisão de ignorar, não sei se por indicação dos produtores, as tradicionais “Prelude”, “Final Fantasy” e “Fanfare”, que foram usadas até pelo Hitoshi Sakimoto no FFXII, jogo da série que mais derrubou convenções. Só sobrou o “Chocobo!”, que foi reinventada completamente.
O processo de composição levou cerca de um ano, e parte da trilha foi gravada no Japão, parte na Polônia. Nas primeiras não foi usada uma orquestra completa e já consolidada. Foram contratados grupos de instrumentistas, como não é raro acontecer. Dentre os musicistas é preciso ressaltar o baterista, Tappy Iwase. Tappy, como ficou conhecido, trabalhou na Konami durante quase toda a década de 1990 e nesse meio tempo se consagrou ao compor o “Metal Gear Solid Main Theme”, uma das mais conhecidas músicas de games. Se ele plagiou ou não aí é outra história. Jogos importantes como Contra III: Alien Wars e Suikoden também constam no seu currículo. Nessa época Tappy já tocava bateria na banda Kukeiha Club liderada por Motoaki Furukawa, e depois que deixou a produtora virou um dos mais requisitados bateristas de jazz e jazz fusion no Japão.
Falando brevemente das vocalistas – a Sayuri Sugawara não foi a única –, ainda há as cantoras Mina, a esposa e filha do próprio compositor, Matsue Hamauzu e Aya Hamauzu, e Frances Maya, outra ligada à Konami, com uma participação na trilha do GuitarFreaksV6 & DrumManiaV6 BLAZING!!!! e no show THE GITADO LIVE, só com músicas de GuitarFreaks e Drummania. Em relação à outra parte, esta sim usou uma orquestra inteira, como disse antes, a Warsaw Philharmonic Orchestra, que possui cerca de 100 integrantes, com a gravação feita na própria Polônia. Por quê? Em entrevista concedida a uma revista chinesa (infelizmente, não descobri o nome da publicação) e gentilmente traduzida pelo Ovelia no fórum do SEMO, o próprio Hamauzu considerou as suas composições fortes nas harmonias e ricas em mudanças sutis, características que combinam com o estilo predominante da região, além da integração entre piano e orquestra em uma mesma música que a orquestra está habituada.
Agora não há mais nomes fictícios para as faixas, tampouco diversas traduções porque a Square Enix forneceu a lista oficial. Apesar de já ter mencionado algumas, me senti no dever de revisitá-las. Não falarei de todas, somente as que mais me agradaram (que não são poucas) ou as que julguei que possuem algo interessante para comentar. Espero não ter esquecido nenhuma crucial. Caso isso aconteça me prontifico a adicionar se necessário.
Continue lendo ‘Final Fantasy XIII Original Soundtrack: pompa, ecletismo e inspiração’
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