Piano Opera music from Final Fantasy 2016: Bravo! A incrível passagem de Nobuo Uematsu pelo Brasil

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Um piano, um telão e muitas lembranças

Por Alexei Barros

Apesar do imenso potencial para receber espetáculos oficiais de game music, o Brasil ainda tem uma tradição bastante limitada nesse cenário. Um dos mais importantes capítulos dessa humilde trajetória aconteceu no dia 2 de março, com a realização do Piano Opera music from Final Fantasy no Teatro Gamaro em São Paulo.

O principal motivo para isso foi a presença de Nobuo Uematsu em território nacional – algo que eu julgava quase impossível uns anos atrás – nessa performance de piano do Hiroyuki Nakayama das músicas de Final Fantasy de I a IX. Em 2014, o pianista já havia se apresentado no Grande Auditório do MASP em São Paulo e prometeu na ocasião que traria o compositor para o País.

A demanda para esse tipo de espetáculo por aqui é notória, considerando a rapidez com que os mais de 750 ingressos foram esgotados, dos quais 150 eram VIP e garantiam o chamado “Meet & Greet” com Uematsu e Nakayama após o recital – uma foto com os dois japoneses e o direito de ter itens de coleção autografados, além de uma cópia do CD promocional Final Fantasy Music Sampler CD -Limited Edition-. Um desses itens inclusive podia ser adquirido no próprio local: o Piano Opera Final Fantasy I-IX Piano Arrangement Album, que foi vendido por R$ 220. Não é um valor absurdo se considerarmos que se trata de um álbum triplo, que abrange todas as músicas executadas no dia e tantas outras da série.

Se a localização do Teatro Gamaro não é das melhores para quem mora perto do centro de São Paulo, havia estações de metrô próximas que garantiam a facilidade de acesso. Do interior da casa de espetáculo eu tenho muitos elogios: é um lugar perfeito para uma apresentação mais intimista. A acústica do ambiente também garantia que a performance no piano, que teve o som amplificado com microfones, fosse plenamente apreciada. A arquitetura do Teatro Gamaro permitia uma visualização perfeita do palco e, mesmo sentado no segundo mezanino, pude ver o teclado do piano sem esforçar a vista. Minha única queixa do local é a ausência de luzes nas escadas. As pessoas que entraram depois, já no escuro, ficavam perdidas, com dificuldade de encontrar os assentos certos.

Marcada para as 20 horas, a apresentação atrasou alguns minutos e, com as luzes meio apagadas, um certo senhor bigodudo de rabo de cabalo vestido de branco entrou rapidamente no palco, acompanhado da tradutora. Era, enfim, Nobuo Uematsu, saudando o público em português.

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Com muita simpatia, a tradutora transmitiu todo o bom humor de Nobuo Uematsu

Foi com surpresa e certa ponta de decepção que ouvi da boca dele o estímulo para a plateia se manifestar a qualquer momento que desse vontade, sem precisar esperar a música acabar. Os gritos até eram de certo modo “organizados”: Uematsu distribuiu botons para algumas pessoas aleatórias, que deveriam bradar “Bravo!” no meio do espetáculo. Com seu tradicional bom humor, ele falou que mesmo quem não tivesse recebido também podia berrar.

O público brasileiro, claro, toma esse tipo de incentivo como uma ordem. Na maioria das vezes, as pessoas não esperavam nem a música começar para gritar “Bravo!”. O maior paradoxo de tudo isso é que os gritos nitidamente desconcertavam Nakayama.

Por várias vezes, ele aproximava as mãos do piano, mas hesitava em começar a tocar a cada grito de “Bravo!” que tirava sua concentração. Em certos momentos, o próprio Nakayama pediu que a plateia se acalmasse, dando a impressão que a fala de Uematsu no início parecia mais uma trollada com o instrumentista. Felizmente, durante as músicas, com a performance já em andamento, os gritos em passagens virtuosísticas ou em cenas que eram projetadas no telão (falarei mais adiante sobre isso) não atrapalharam o talentoso pianista.

Além disso, conforme os jogos se repetiam no programa, as pessoas já ficavam mais anestesiadas de ver os logos de seus episódios favoritos e pareciam se dar conta de que não valia a pena ficar gritando tanto. É bom que se diga que, quando aconteciam, os gritos não eram tão prolongados e não interferiam tanto na apreciação da performance. Em nenhum momento eu me perguntei: “O que eu estou fazendo aqui se não dá para ouvir nada?”.

Devo confessar que considero o telão dispensável, mas já que a apresentação se propõe a ter as cenas de jogos, eu me sinto à vontade para comentar. Alguns vídeos, especialmente nos jogos 8-bit, estavam com uma taxa de quadros muito baixa, quase parando. Em uma época em que há vídeos 1080p de jogos antigos aos montes no YouTube, esperava que eles estivessem em melhor qualidade. Também seria interessante se os vídeos identificassem os nomes das músicas, pois algumas faixas tocadas não são tão conhecidas. Ao menos, os trechos de gameplay eram intercalados com a câmera que focava o teclado do piano, algo muito mais válido, apesar do pequeno delay entre a performance e a imagem projetada. Sei que estou soando muito chato reclamando desses detalhes, mas nessas horas eu digo: quem mandou ter telão?

Falando enfim do que realmente interessa, que são as músicas, o programa foi em sua maior parte baseado no Piano Opera Final Fantasy VII/VIII/IX, terceiro álbum da coleção que não havia sido lançado na apresentação de 2014. Do total de 12 faixas do disco, apenas três ficaram de fora: “Fight On” (FFVII), “Liberi Fatali” (FFVIII) e “Roses of May” (FFIX). A omissão das duas primeiras é curiosa, já que estão entre as mais famosas composições de Nobuo Uematsu. Eu que sou intolerante com a repetição de algumas músicas, não seria louco reclamar de ouvi-las ao vivo, considerando o ineditismo da ocasião.

O set list foi complementado com a “Prelude ~ Opening” (FF) e “Town Medley” (FF I, II e III) do Piano Opera Final Fantasy I/II/III, além de “Kefka” e “Dancing Mad” (FFVI), “Troian Beauty” (FFIV) e “Clash on the Big Bridge” (FFV) do Piano Opera Final Fantasy IV/V/VI. Curiosamente, todos esses segmentos dos dois primeiros álbuns são reprises da apresentação de 2014. Por que não tocar músicas diferentes, como “Battle Medley” e “Red Wings ~ Kingdom Baron”?

De qualquer forma, eu reclamo de boca cheia, porque “Festival of the Hunt” (FFIX), “The Man with the Machine Gun” (FFVIII), “Clash on the Big Bridge” (FFV) e especialmente a magnânima “Dancing Mad” (FFVI) estão entre as minhas músicas favoritas do Uematsu e me provocaram arrepios de nostalgia – reforçando o que falei acima, esse sentimento foi proporcionado pelas melodias, não pelas imagens do telão. Na parte do bis, deu para ouvir na plateia pedidos de “One-Winged Angel” (FFVII) e “At Zanarkand” (FFX), mas vale lembrar que todo o repertório é baseado nos arranjos que o próprio Nakayama fez para os três álbuns Piano Opera e ambas as músicas não aparecem na coleção – FFX então nem sequer está representado nesses CDs.

Em um dos intervalos das músicas, foram ditas algumas informações bacanas sobre composições da série, enquanto Nakayama tocava de fundo a “Theme of Love” (FFIV). Por exemplo, o fato de a equipe de produção de FFVII achar a “One-Winged Angel” uma música tensa demais para entrar no jogo, embora isso não tenha sido muito bem explicado na hora. Outro acontecimento curioso é que a “Prelude” foi feita às pressas. Uematsu disse ironicamente que se soubesse que Final Fantasy ia durar tanto tempo teria feito algo melhor. Talvez a curiosidade mais interessante é que a letra da “The Dream Oath ‘Maria and Draco'” de FFVI foi escrita por Yoshinori Kitase como uma declaração para a sua namorada, que depois se tornou sua esposa. Nesse bloco também foi citada a premiada canção “Eyes on Me” (FFVIII), que Uematsu chegou a cantarolar brevemente. Só o final do espetáculo foi meio estranho, já que não tinha ficado claro se haveria mais alguma música a ser executada, deixando o público indeciso e com gosto de quero mais. Quem comprou o ingresso normal demorou um pouco para ir embora.

A noite do dia 2 de março vai ficar para sempre na memória dos presentes e, o melhor de tudo, o sentimento muito promissor no ar da realização de novas apresentações no futuro, tomara que contemplando outras cidades do País. E digo mais: depois do que presenciei naquela quarta-feira, sonhar com o Distant Worlds no Brasil já não me parece uma loucura.

A passagem de Nobuo Uematsu por São Paulo foi rápida como um cometa e sem espaço para entrevistas, mas mesmo assim, o comparsa Claudio Prandoni conseguiu arrancar dele a informação de que ele se motivou a fazer a “Samba de Chocobo!” (FFIV) pela paixão pelo samba brasileiro, tema que ainda merece ser aprofundado.

Set list:

Ato I

01. “Prelude ~ Opening” (Final Fantasy)
02. “Ami” (Final Fantasy VIII)
03. “Festival of the Hunt” (Final Fantasy IX)
04. “Words Drowned by Fireworks” (Final Fantasy VII)
05. “Town Medley” (Final Fantasy I, II e III)
06. “Not Alone” (Final Fantasy IX)
07. “Cosmo Canyon” (Final Fantasy VII)
08. “The Man with the Machine Gun” (Final Fantasy VIII)

Ato II

09. “Opening ~ Bombing Mission” (Final Fantasy VII)
10. “Kefka” (Final Fantasy VI)
11. “Troian Beauty” (Final Fantasy IV)
12. “Melodies of Life” (Final Fantasy IX)
13. “Dancing Mad” (Final Fantasy VI)

Bis

14. “Force Your Way” (Final Fantasy VIII)
15. “Clash on the Big Bridge” (Final Fantasy V)

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Uma cena que dificilmente se imaginaria acontecer no Brasil

Grato ao Fabão, que tirou uma foto com o Hiroyuki Nakayama e o Nobuo Uematsu, e ao report do Final Fantasy Brasil: ambos me ajudaram a lembrar das ordens das músicas do set list (por que eu não levei uma caneta?).

Fotos: Claudio Prandoni

11 Responses to “Piano Opera music from Final Fantasy 2016: Bravo! A incrível passagem de Nobuo Uematsu pelo Brasil”


  1. 1 falberto 06/03/2016 às 11:56 am

    Sensacional, esse tipo de experiencia deve ser única, quem sabe um dia ela venha no RJ e eu não possa aproveitar esse espetáculo? rsrs

    Parabéns pelo ótimo blog, sem interessante e produtivo, já comprei muitos CDs por sua indicação aqui nos posts rs

    Uma pergunta, esse collection, PIANO OPERA FINAL FANTASY I-IX PIANO ARRANGEMENT ALBUM, tem onde comprar? será que acho uma versão digital, pelo itunes talvez?

    Obrigado.

  2. 2 Alexei Barros 06/03/2016 às 2:58 pm

    Valeu pelos comentários! Eu realmente espero que esse tipo de apresentação aconteça em outras cidades brasileiras, porque nas principais capitais eu acho que os ingressos facilmente ficariam esgotados, dada a popularidade de Final Fantasy.

    Em relação à compra, você pode encontrar os três álbuns que compõem essa coletânea no iTunes.

    https://itunes.apple.com/us/album/piano-opera-final-fantasy/id509991484
    https://itunes.apple.com/us/album/piano-opera-final-fantasy/id526002330
    https://itunes.apple.com/us/album/piano-opera-final-fantasy/id859684854

  3. 3 jejepinheiro 06/03/2016 às 7:20 pm

    Hahahaha! Eu ACABEI de escrever meu texto e vim aqui dar uma olhada se você já tinha postado o seu. xD
    Imaginei que você reclamaria mais da barulheira da galera durante as músicas, muito embora eu tenha que concordar que isso não atrapalhou em nada. Achei o público bem comportado viu (e sendo sincera, ate na VGL povo ta mais sossegado, o que é bom…)
    Enfim, ótimas impressões! Vou acabar ate utilizando uma info do seu texto no meu, caso não se importe – é sobre os microfones no piano, pois eu realmente não havia me atentado a isso… Ou estou só ficando cada vez mais cega mesmo. :P

    Beijo! <3

  4. 4 jejepinheiro 06/03/2016 às 7:20 pm

    PS.: Foi muito bom te conhecer pessoalmente. Finalmente! \o/

  5. 5 Alexei Barros 06/03/2016 às 8:18 pm

    Que isso, Jejé! O prazer foi o meu!

    Tranquilo sobre a informação dos microfones. Pode usar à vontade… Na verdade, eu fiquei na dúvida se foi um ou mais de um, mas em uma foto do FF Brasil dá para ver pelo menos dois pedestais.

    Eu fiz de tudo para não mencionar o VGL no post, mas estou vendo que não tem jeito de fugir nos comentários…XD

    Se o VGL tivesse a mesma quantidade de gritos do Piano Opera, eu realmente não ia reclamar tanto. Para ser sincero, nas apresentações de 2006 e 2007 os gritos eram muito moderados. A partir de 2009 que eu acho que o negócio ficou incontrolável…

    Beijão!

  6. 7 David Saraiva 12/03/2016 às 11:35 am

    Excelente cobertura, não poderia esperar menos de você Alexei.

    Quanto ao concerto sinto um triste pesar, me preparei muito e não pude ir, a demora na liberação da compra dos ingressos e o momento que surgiram não me foi propício.

    Pelo o que vi nos vídeos do youtube de alguns que estiveram presentes, a apresentação foi continuamente repleta de gritos e outros efeitos sonoros da platéia ao longo do concerto, normalmente procuro não me incomodar, mas não tem como não ficar indiferente quanto a isso, realmente eu não gostaria de ter realizado todo o esforço e gasto para passar dessa maneira pela experiência, oportunidade única em alguns momentos quase não ouvia o piano, ainda assim penso ter sido mágico.

    O Setlist achei que seria, honestamente, mais variado e concordo faltou repetir menos do que já veio em 2014 com o Nakayama. Fica aqui aquela vontade forte disso crescer para os demais países desse continente chamado Brasil, mais uma vez obrigado pela cobertura, não queria ter lido sobre em outro lugar, você é muito honesto nessas coberturas.

    • 8 Alexei Barros 12/03/2016 às 1:04 pm

      Valeu pelos comentários e pela republicação, David!

      Acho que os gritos não atrapalharam tanto assim a apreciação das músicas, especialmente por não serem contínuos. Além disso, o piano microfonado tem uma presença muito maior na acústica do Teatro do que seria com outros instrumentos menos potentes, como uma flauta ou um violino.

      Também torço para a expansão dessa turnê para as demais cidades. Só não sei se haverá muitas outras oportunidades, visto que esse espetáculo foi realizado para promover o lançamento do terceiro álbum da série Piano Opera.

  7. 9 David Saraiva 12/03/2016 às 12:26 pm

    Republicou isso em O Blog do Seu Saraivae comentado:
    Pena não ter ido, mas fica aqui o relato de um apreciador de alto nível da game music.

  8. 10 Felipe 29/03/2016 às 11:24 pm

    E eu preso aqui neste canto obscuro da galáxia… A única apresentação de game music que assisti pessoalmente foi o VGL, lá atrás em 2006. Ao menos sua descrição do evento, Alexei, me transportou um pouco até lá. E vou torcer para que você aumente a inspiração ainda mais nesses textos e escreva coisas do tipo “Uma fresca brisa corria tranquila pela sombra noturna que envolvia as ruas da capital paulista, quando adentrei o belo edifício do Teatro Gamaro…”. Aí sim, será como se eu estivesse lá! Hehehe, brincadeira hem maestro!

    Mas fiquei curioso quanto aos microfones no piano. Acho que em apresentações de música clássica isso não é muito comum, certo? É por causa do tamanho do teatro?

    • 11 Alexei Barros 31/03/2016 às 3:03 pm

      Hahahaha! Essa foi boa! Mas não teria tamanha inspiração. =P

      Mesmo com todas as restrições que eu tenho atualmente ao VGL, ainda acho aquela apresentação de 2006 simplesmente histórica, porque na época concertos de games era uma novidade no Ocidente (o primeiro aconteceu em 2003, o First SGMC na Alemanha, como já comentei várias vezes aqui).

      A respeito dos microfones, você tem razão. Porém, nos concertos eruditos, como as produções do Thomas na Alemanha, além do tratamento acústico, o piano é sempre de cauda inteira, o que favorece a projeção do som, evidentemente. A acústica do Teatro Gamaro era ótima, mas o piano era de meia cauda. Não sei dizer se com um piano de cauda inteira naquele mesmo lugar os microfones seriam necessários. De qualquer forma, não acho que a “perda” de um piano microfonado para um piano com som natural seja tão grande assim perto de outros instrumentos ou mesmo de uma orquestra inteira.

      Lembrando que tudo o que falei é baseado no que li/ouvi, não tenho nenhum estudo ou conhecimento para confirmar isso.

      Ah, também recomendo o report da Jejé no New Game Plus, que ficou mais detalhado do que o meu texto.
      http://newgameplus.com.br/uma-opera-para-a-muitos-reunir-uma-opera-para-a-todos-conquistar/


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