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Seis anos depois de hiato, o inacreditável retorno do Casiopea – com direito a novo DVD

Casiopea
Por Alexei Barros

Uma estatística baseada no puro achismo: se oito em cada dez compositores japoneses de game music foram influenciados pela Yellow Magic Orchestra, os dois restantes tem a banda Casiopea como principal fonte de inspiração. O pioneirismo da YMO ainda está à frente pelo lançamento do álbum homônimo com duas faixas de game music, mas o Casiopea tem a sua importância na história com um jazz fusion altamente melódico e envolvente, hits e medleys de mais de 20 minutos. A rica trajetória da banda que debutou em 1979 foi misteriosamente interrompida em agosto de 2006, passando em branco (a não ser pelo site especial) da comemoração dos 30 anos em 2009.

Quando muitos já tinham perdido as esperanças e se conformavam apenas com as inúmeras coletâneas e os álbuns solo dos seus integrantes, surpreendentemente foi anunciado o retorno em abril de 2012 (é, eu demorei um pouco para fazer o post), com direito a diversos shows e ao DVD, que saiu dia 26 de dezembro. Antes dos detalhes do regresso, os motivos para tanta alegria.

Justamente no ano de 2006 foi quando eu passei a procurar com mais veemência por álbuns de game music oficiais (em 2005 já me interessava mais pelo assunto), praticamente abandonando os poucos arranjos que me agradavam no OverClocked ReMix. Em meio a tantas descobertas, notei que possuía uma predileção pelo gênero jazz fusion, mesmo sem entender a razão. Entre um álbum e outro, acabei conhecendo as bandas Kukeiha Club, da Konami, e S.S.T. Band, da Sega, e todas as histórias ocultas envolvendo o Game Music Festival que já não são mais tão obscuras assim.

Foi então que nesse tópico do Slightly Dark recomendaram a fonte de inspiração delas: T-Square e Casiopea. O T-Square eu já conhecia de nome ao pesquisar a origem de Masahiro Andoh, o guitarrista, por gostar das trilhas de Gran Turismo, mas que nunca tinha conseguido ouvir. As duas bandas tinham feito um show de nome Casiopea Vs The Square não muito tempo antes, lançado em DVD em 2004. Por sorte, havia breves amostras em sample do DVD das faixas “Omens of Love” e “Tokimeki”, entre outras. Bastaram poucos segundos para eu ficar completamente estupefato e virar instantaneamente fã das duas. Então eu mendiguei para um canadense do fórum GamingForce Interactive que havia conseguido todas as faixas do show em um serviço obscuro de compartilhamento de músicas. Escutando tudo, novo choque. Uma música melhor e mais bem tocada que a outra por instrumentistas talentosíssimos. A “Mid-Manhattan” é uma das minhas favoritas até hoje, misturando integrantes do Casiopea e do T-Square. Afinal, duas baterias (e ainda sincronizadas!) só podem ser melhores do que uma…

O Casiopea também sempre me chamou a atenção pela duração de algumas músicas. Alguns medleys passam dos 30 minutos! A respeito de músicas avulsas, a maior de todas é a transcendental “Universe”, do álbum Marble (2004), com 25 minutos.

De maneira voraz, corri atrás das discografias de ambas as bandas, dos álbuns solo dos instrumentistas dessas bandas, das bandas formadas pelos dissidentes e ainda dos projetos paralelos dos músicos dessas bandas (como Trix, Pyramid, Ottottrio e Synchronized DNA que misturam integrantes e ex-integrantes). Haja banda, haja música! O YouTube ainda não era tão popular, e mal conhecia pessoas que ao menos tivessem ouvido falar do Casiopea e do T-Square. Hoje, felizmente, a história é totalmente diferente. Mas, enquanto o T-Square continuava ano após ano na ativa – até hoje –, alimentando em mim certa dose de ansiedade a cada álbum lançado, eu nunca cheguei a ter o mesmo sentimento com o Casiopea.

Nesse meio tempo, não me dei por feliz e procurei pesquisar mais detalhes sobre o Casiopea e, para minha completa surpresa, descobri no site do baixista Tetsuo Sakurai que a banda fez uma turnê brasileira em 1987, visitando as cidades de São Paulo, Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre (veja a propaganda ao lado).

Vasculhando o excepcional Acervo da Folha, encontrei uma reportagem do dia 9 de abril de 1987 sobre a primeira vinda deles, informando que o Gilberto Gil foi o responsável por trazê-los para o Brasil. Tem até uma entrevista (apesar de creditada como se todos os integrantes fossem uma coisa só):

O jazz rock japonês do Casiopea estreia sábado em São Paulo

Trazido ao país por inicativa de Gilberto Gil, o grupo japonês Casiopea chegou ontem de manhã a São Paulo, onde inicia uma turnê por seis cidades brasileiras, com produção do Projeto SP. A estreia, que estava marcada para amanhã foi transferida para o sábado, às 21h, no auditório Elis Regina do Palácio das Covenções do Anhembi. Depois o grupo segue para Salvador (onde se apresenta dia 14), Recife (dia 15), Rio de Janeiro (dias 20 e 21), Curitiba (dia 22) e Porto Alegre (dia 24).

A ideia de promover a vinda do grupo surgiu em 85, na Alemanha, quando Gilberto Gil ouviu pela primeira vez o jazz-rock do Casiopea. A Gege Produções Artísticas promete para breve o lançamento do primeiro disco do grupo no país, Halle, através do selo Geleia Gera, que editou o recente LP de Gil, Em Concerto. No domingo, às 14h, também no Anhembi, o grupo trocará improvisos com músico brasileiros, numa “jam session” que poderá assistida apenas por convidados e pela imprensa. Já estão confirmados os nomes de Nelson Ayres (teclados), Nico Assunção (baixo), Cláudio Celso (guitarra), Lino Simão (sax) e Duda Neves (bateria).

O Casiopea foi formado há dez anos pelos ainda estudantes Issei Noro (guitarra, arranjos e letras), Tetsuo Sakurai (baixo) e Minoru Mukaiya (teclados) que se reuniam para “jam sessions” informais. O comprometimento com o grupo foi crescendo e em 79 gravaram seu primeiro disco, Casiopea. A base da atual formação foi completada no ano seguinte com o ingresso do baterista Akira Jimbo, que também é especializado em sintetizadores.

Em 82, o grupo já era sucesso nacional, fazendo turnês pelo Japão que incluíam mais de cinquenta cidades. O primeiro passo para o lançamento do Casiopea no exterior foi dado em Londres, no ano seguinte, e, em 84, acontecia uma significativa apresentação no Festival de Jazz de Montreux, na Suiça, logo após o show de Miles Davis. As turnês se sucederam: Holanda no North Sea Jazz Festival, em Suécia, Dimanarca, Indonésia e EUA. Além do aval de Gil, a agência de serviços do grupo inclui gravações ao lado de conhecidos músicos norte-americanos como o guitarrista Lee Ritenour e o baterista Harvey Mason, ou mesmo do saxofonista japonês Sadao Watanabe.

Muito interesse pela música brasileira

O Casiopea concedeu uma entrevista exclusiva à Folha, no último fim de semana, pouco antes de deixar o Japão. O “manager” do grupo, Masato Arai, transmitiu as seguintes perguntas ao quinteto japonês:

Folha – Vocês conhecem a música brasileira?
Casiopea  Sim, conhecemos bastante a música brasileira e estamos muito interessados nela. Ouvimos Djavan, Gilberto Gil, Airto Moreira, Milton Nascimento e outros, sempre que conseguimos discos importados no Japão. Na verdade, a seção rítmica do Casiopea está ansiosa por adotar sons brasileiros em nossas composições e arranjos.

Folha – Quais são as influências musicais do grupo?
Casiopea  Todos os ambientes que nos cercam, nossas vidas diárias e as experiências individuais de cada integrante – somos influenciados por tudo isso. Especialmente pelos contatos que fazemos nos lugares que visitamos, já que estamos sempre viajando ou gravando em algum lugar do Japão ou do mundo. Somos influenciados pelas coisas que vemos, pelas coisas que ouvimos. Nesses lugares, às vezes escrevemos uma canção baseada nas comunicações que fazemos com pessoas do local.

Folha – Há elementos tradicionais japoneses na música do Casiopea?
Casiopea  Não estamos particularmente preocupados com isso. De fato somos todos japoneses com características inatas japonesas. Há momentos em que notamos alguns elementos “japoneses” em nossas canções depois de escrevê-las.

Folha – Por que os recursos eletrônicos predominam no trabalho do grupo? Vocês têm algum preconceito contra instrumentos acústicos?
Casiopea  Não temos preconceito contra instrumentos acústicos, ou que quer que seja. Temos interesse em vários instrumentos folclóricos que ouvimos em várias partes do mundo. Estamos simplesmente usando o que está disponível ao nosso redor. Embora utilizemos um método eletrônico, não queremos soar mecânicos e buscamos sempre capturar ou atingir o coração das pessoas. Na realidade, somos seres humanos com corpos vivos, ou seja, existências acústicas, para começar…

Nos dias 17 e 18 de janeiro do ano seguinte, a extinta TV Manchete chegou a exibir o programa “Casiopea Especial”, que mostrava um show gravado no Japão. E, então, em 1988, eles voltaram como parte da turnê mundial, desta vez tocando em São Paulo, Londrina, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Duas músicas apresentadas em São Paulo, “Taiyo-Fu” e “Red Zone”, estão registradas no álbum World Live ’88. Além dessas, a “Palco”, do Gilberto Gil, foi cantada por ele na companhia do Pepeu Gomes  na guitarra, Oswaldinho do Acordeon e do Casiopea, conforme mostra o vídeo. Ao descobrir tudo isso tantos anos depois, me sinto um fã completamente tardio, juvenil e amador, como já havia muitos fãs brasileiros antes de mim (vide o comparsa Eric “Cosmonal” Fraga, do Cosmic Effect).

Nessa segunda visita, a Folha fez outra reportagem no dia 24/06/1988:

Casiopea faz show acompanhando Gil

Um brasileiro influi nos rumos de um grupo japonês. É o que os integrantes do grupo de jazz-rock Casiopea deram a entender ao falar sobre seu último LP, na coletiva que concederam ontem à tarde no Ginásio do Ibirapuera. O grupo está no Brasil para fazer sua segunda turnê pelo país. A estreia da temporada, hoje no mesmo local, contará com a participação do compositor, cantor e candidato à prefeitura de Salvador, Gilberto Gil. O show em São Paulo integra a Expo Brasil/Japão, que prossegue até 3 de julho.

Foi Gil, ausente da coletiva, o responsável pela primeira vinda do grupo, em 87. E foi também o baiano que sugeriu a orientação que o grupo tomou em seu último LP, Euphony, lançado no Japão em abril e o 16º em 11 anos de existência da banda. Segundo o tecladista Minoru Mukaiya, Gil teria aconselhado o grupo a tentar transmitir mais da cultura japonesa contemporânea, para diferenciar o som da banda. Tal feito eles fazem ter alcançado no uso de sons de instrumentos típicos japoneses nos muitos teclados e sintetizadores de última geração que utilizavam. Nos dias 13 e 14 de julho, deverão estar no Rio para a gravação de duas faixas do próximo disco do cantor, com lançamento previsto para outubro.

Sem definição

Atrasados pelo voo, os quatro integrantes do Casiopea (além de Mukaiya, Issei Noro, guitarra, Tetsuo Sakurai, baixo e Akira Jimbo, bateria) só deram respostas gerais às perguntas dos jornalistas. Não definiram quais ou quantas músicas tocarão com Gil, dizendo que a decisão final ficaria para o ensaio de hoje à tarde. Só adiantaram que iriam submeter à aprovação do cantor alguns arranjos, querendo “respeitar as características” de Gil. O repertório da excursão pelo Brasil vai ser só de música instrumental, se concentrando em “Euphony”, e incluindo uma seleção das principais músicas de outros dicos, como Halle, único lançado no Brasil.

Gil não é o único contato dos quatro nipônicos com a música brasileira. Revelam gosto eclético ao desfilarem nomes como Tom Jobim, Milton Nascimento, Gal Costa, Joyce, Djavan e Sergio Mendes. Alguns eles conheceram pessoalmente quando se apresentaram no Rio, ano passado.

Nascidos e criados em Tóquio, os músicos do Casiopea dizem ter recebido influências musicais muito variadas. Antes de formar o grupo, todos tinham preferência por pop e rock. Afirmam ser um dos poucos grupos no Japão atual a insistir na música instrumental e contribuir para impor uma imagem positiva do gênero, quando a maioria se dedica a acompanhar cantores. Também acham que investem na evolução musical ao não se debruçarem sobre as raízes da música de seu país.

Como podemos ver abaixo, a vinda do Casiopea em 1988 atraiu bastante atenção não só da Folha, como de toda a mídia brasileira. Uma façanha, dada a obscuridade de artistas japoneses – o que dirá japoneses de música instrumental!

Para completar, há músicas do Casiopea em português (“Samba Mania”, “Teatro Saudade” e outras) e até o Djavan participou da música “Me Espere” do álbum Platinum (1987). Com toda essa proximidade com o Brasil – isso que não vou me aprofundar nas histórias e participações dos álbuns solo Vida do Issei Noro e Cartas do Brasil do Tetsuo Sakurai –, foi incrível perceber que todos os seus integrantes estavam relacionados de alguma forma com game music. Muitas dessas participações eram em performances de álbuns e, naquela época, não existia o VGMdb, então tentar compilar informações do tipo exigia buscar várias fontes japonesas. Hoje, dá uma alegria ver tudo organizado, reunindo as discografias de cada instrumentista, e saber: que o baterista Akira Jimbo e o baixista Tetsuo Sakurai tocaram em álbuns como Kukeiha Club, Rockman X Alph-Lyla with Toshiaki Ohtsubo e The King of Fighters ’96 Arrange Sound Trax. Ou então que o baixista Yoshihiro Naruse participou do Sorcerian Super Arrange Version. Melhor, que o guitarrista Issei Noro arranjou e tocou a “Rush a Difficulty” no álbum Super Sonic Team -G.S.M. Sega 3- da S.S.T. Band, arranjando músicas nos CDs seguintes e ainda participando como convidado em shows da banda. Como uma espécie de homenagem, a “Galactic Funk” inclusive foi tocada no bis no Game Music Festival 1992.

E, para completar, o tecladista Minoru Mukaiya, que efetivamente compôs trilhas para games, colaborando para Koei para jogos como Romance of the Three Kingdoms III e Romance of the Three Kingdoms II, cujo “Main Theme” inclusive foi tocado no Orchestral Game Concert. Mais do que isso, Mukaiya é o CEO do estúdio Ongakukan, que produz simuladores de trem para videogames. O mundo é pequeno mesmo. Aliás, o bônus de um desses títulos (não me pergunte qual) traz como bônus a performance de uma música do Casiopea (exclusiva do jogo):

Se tamanha contribuição por si só não fosse suficiente, enfim chego ao terreno das influências. Pesquisando a respeito e muitas vezes trombando sem querer com esse detalhe, sei que nomes como Ayako Saso, Motoaki Furukawa, Shoji Meguro, Hiroyuki Iwatsuki e nada menos do que Koji Kondo assumidamente se inspiraram no Casiopea ao longo de suas carreiras.

Dito tudo isso, entre várias novas apresentações, o show do dia 19 de outubro rendeu um DVD, de nome Casiopea 3rd Live Liftoff 2012. Quem achou que a banda voltaria em peso pode se decepcionar um pouco, já que Minoru Mukaiya, o primeiro tecladista da fase profissional da banda (na era amadora, teve antes o Hidehiko Koike, que chegou a participar do show 20th, de 20 anos de aniversário) deixou o Casiopea. Em seu lugar, entrou a Kiyomi Otaka, a primeira mulher do grupo. Fica a torcida para que ele participe dos shows comemorativos de aniversário, como aconteceu com ex-membros em outras ocasiões (como o Tetsuo Sakurai) para tocar algumas de suas composições. Minha sugestão: a “Lucky Stars” do álbum Material (1999), o meu preferido.

Inicia-se, portanto, a terceira fase do Casiopea – daí o “3rd” no nome –, sendo a segunda etapa a iniciada em 1990, quando, na ocasião, Tetsuo Sakurai e Akira Jimbo deram lugar a Yoshihiro Naruse e Masaaki Hiyama para formar a dupla Jimsaku.

Meu único desapontamento é com a falta de novidades do set list do DVD. Aliás, isso eu até esperava, como o último álbum, Signal, é de 2005. Mas o problema é a obviedade das seleções musicais, pegando mais as famosonas, embora eles mereçam um desconto por não tocarem essas músicas juntos há vários anos.

Metade do espetáculo pode ser conferido abaixo, como o show foi transmitido na TV japonesa (inveja? Magina…). Os cabelos do guitarrista Issei Noro deram uma boa esbranquiçada, caso você não o tenha visto durante esses seis anos. Dá para ver que o Yoshihiro Naruse no baixo e o Akira Jimbo na bateria também estão tão bons quanto antes – o que é óbvio. Com a entrada da Otaka, a sonoridade da banda mudou bastante, causando um certo estranhamento, confesso – pudera, depois de 27 anos de Mukaiya não tinha como ser diferente. A maior diferença, além das preferências de timbres, é que a Otaka gosta de centrar as atenções no órgão Hammond e aparentemente ela não se arrisca no vocoder. Todavia, ela já mostrou um grande entrosamento com o restante da banda.

No mais, já na expectativa pelo provável próximo álbum em 2013, inclusive para ver melhor como a nova tecladista vai se sair.

Seja bem-vindo de volta, Casiopea!

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