Entrevista com Thomas Boecker, produtor de concertos de games na Alemanha (parte 2 de 2)

e03afec4b50d36e9e2d69091107993cfPor Alexei Barros

Enfim chegou o dia! Hoje acontece o lançamento digital mundial do Final Symphony no iTunes. O álbum contém 94 minutos de música de Final Fantasy VI, VII e X gravadas no Abbey Road Studios com performance da London Symphony Orchestra e arranjos de Jonne Valtonen, Roger Wanamo e Masashi Hamauzu.

Surpreendentemente, a track list possui algumas novidades em relação ao set list da primeira apresentação feita na Alemanha em 2013. Essas e outras questões foram esclarecidas pelo produtor Thomas Boecker na segunda parte da entrevista para o Hadouken, que também traz mais curiosidades e discute a viabilidade de outros concertos (incluindo até um espetáculo com músicas do Yuzo Koshiro!).

Track list:

01 Fantasy Overture (Circle within a Circle within a Circle)
02 Final Fantasy VI (Symphonic Poem: Born with the Gift of Magic)
03 Final Fantasy X (Piano Concerto)
04 Encore: Final Fantasy X (Suteki Da Ne)
05 Final Fantasy VII (Symphony in Three Movements)
06 Encore: Final Fantasy VII (Continue?)
07 Encore: Final Fantasy Series (Fight, Fight, Fight!)

Não deixe de conferir a primeira parte da entrevista.

Hadouken: A retrospectiva de 2014 no site da Spielemusikkonzerte dizia que a gravação do Final Symphony no Abbey Road Studios foi o melhor momento do seu time desde que você começou a produzir concertos em 2003. Como foi essa experiência? O que o Abbey Road Studios tem de diferente comparado aos outros estúdios?

Thomas Boecker: O Abbey Road Studios é o lugar histórico da música: The Beatles, Pink Floyd, Elton John – todos eles gravaram ali e são heróis musicais de Nobuo Uematsu. Para mim, Abbey Road Studios me remete a Star Wars, Indiana Jones e Harry Potter; trilhas sonoras compostas por John Williams, o qual tenho grande respeito. Em resumo, posso afirmar com segurança que, para cada integrante de nosso time, ao menos um de nossos álbuns ou trilhas sonoras favoritas foram gravados ali.

Tudo ficou perfeito em dezembro de 2014 quando o grande Nobuo Uematsu se juntou a nós no Abbey Road Studios, juntamente com uma das minhas orquestras favoritas do mundo, a London Symphony Orchestra, para gravar arranjos da nossa equipe; Jonne Valtonen, Roger Wanamo e Masashi Hamauzu. A acústica do Abbey Road Studios é formidável, simplesmente perfeita, especialmente para o som que queríamos para o nosso álbum: preciso, vivo e rico.

Percorremos um longo caminho desde que começamos, mas o Final Symphony foi uma produção totalmente nossa – e devo dizer que estou muito orgulhoso da realização do meu time!

Hadouken: Alguns artistas britânicos que influenciaram o Nobuo Uematsu gravaram muitas canções no Abbey Road Studios. Como o Uematsu se sentiu apenas por estar naquele lugar? Na supervisão, o Nobuo Uematsu geralmente dá total liberdade ou ele faz pedidos muito específicos?

Thomas: Na minha opinião, sempre foi um sonho dele ir a Abbey Road. Na verdade, você pode gostar desse episódio – quando nos encontramos em sua casa em Tóquio em outubro de 2014, eu entreguei a ele um presente; um livro sobre o Abbey Road Studios, que estava cheio de fotos de pessoas que foram para lá gravar. Ele ficou maravilhado. Quando eu disse a ele então sobre nossos planos para o Final Symphony, você podia ver a felicidade em seu rosto! E mesmo que sua agenda estivesse cheia – obviamente ele é uma pessoa muito ocupada – ele ainda conseguiu tirar um tempo para ir até Londres.

Não quero interpretar muito isso, mas minha sensação era que você podia ver em seus olhos o quão feliz e emocionalmente tocado ele ficou no momento em que finalmente entrou no estúdio.

Quando ele veio para a gravação, pelo menos no nosso caso, Uematsu-san nos deu toda liberdade que precisávamos. Ele estava ali principalmente para desfrutar da experiência, mas, quando Jonne e Roger tinham dúvidas ele imediatamente foi capaz de dar sua opinião. Após a gravação, ele continuou ouvindo a mixagem e nos dava sua opinião enquanto trabalhávamos no álbum. Ele nunca forçou nada, no entanto. O ambiente era perfeito.


Hadouken: Recentemente, o site da Royal Stockholm Philharmonic Orchestra publicou uma gravação muito bem produzida do concerto Final Symphony. Na entrevista para o site RPGFan, você já havia compartilhado o desejo de que um dos seus concertos fosse lançado em DVD (hoje, o mais apropriado seria um Blu-ray). Há planos de lançar a gravação em vídeo do Final Symphony ou apenas o álbum?

Thomas: Infelizmente, não. Não há planos neste momento de lançar uma gravação em vídeo do Final Symphony. Ainda assim, acho que seria fantástico ter, então estou constantemente de olho nas oportunidades de isso acontecer.

Hadouken: Os álbuns do Symphonic Shades, Fantasies e Odysseys foram gravados ao vivo. Por que desta vez você preferiu gravar o álbum do Final Symphony em estúdio? Os arranjos executados pela London Symphony Orchestra no CD são os mesmos tocados nas apresentações da Alemanha, Inglaterra, Japão, Dinamarca, Suécia e Finlândia?

Thomas: Os arranjos são diferentes das partituras executadas na Alemanha e Inglaterra porque nós os revisamos para as apresentações em Tóquio. Muito parecido com o que fizemos com o Symphonic Fantasies Tokyo, adicionamos um monte de detalhes às partituras e, em alguns casos, implementamos novos temas, como a “Farplane Sending”, que foi acrescentada no Final “Fantasy X (Piano Concerto)”. Há também um solo de piano totalmente novo agora, que foi o bis no concerto em Tampere: “Suteki Da Ne” do Final Fantasy X.

Sempre pensei muito sobre ir ao Abbey Road Studios, apesar de ser um investimento arriscado para mim. Como disse, sempre foi um sonho meu – e eu imaginei que o Final Symphony seria a oportunidade perfeita. Para mim, era o momento certo, já que o Final Symphony tem sido nosso melhor e mais bem sucedido trabalho até agora. Tudo se resumia à questão: se não for agora com o Final Symphony, quando então?

Falando honestamente, acho que toda a produção tem um monte de semelhanças com o Final Fantasy original de muitos anos atrás, quando a Squaresoft apostou todas as suas fichas no jogo.

Hadouken: Outra diferença em relação aos outros álbuns é que o lançamento do Final Symphony será digital. Por que você preferiu esse tipo de lançamento em vez da versão física? Há planos de lançar o álbum do Final Symphony em CD?

Thomas: Uma vantagem é que nós podemos lançar o álbum em todo o mundo simultaneamente, e as pessoas não têm de se preocupar em importar e esperar muito. Não vou mentir, também é porque essa é a forma com que as pessoas escutam e apreciam música nos dias de hoje. Eles estão comprando suas músicas digitalmente.

Também vale mencionar que o Final Symphony foi masterizado para o iTunes, então o álbum proporciona a qualidade de som mais alta possível que você pode encontrar na loja virtual.

No entanto, dito isso, eu sou das antigas; ainda gosto de colecionar álbuns físicos. Por isso, posso confirmar que posteriormente haverá um lançamento físico além do digital. Não posso dar nenhuma data por enquanto, mas vamos anunciar quando isso estiver perto de acontecer.

Por enquanto, nosso foco é definitivamente a versão digital e nenhum fã deve perdê-lo!

Hadouken: Algumas reprises de segmentos dos seus concertos tiveram as partituras modificadas, como, por exemplo, The Legend of Zelda Symphonic Poem (Symphonic Legends, LEGENDS e Symphonic Legends – Featuring music from The Legend of Zelda series). Isso é caro e trabalhoso, já que é necessário reimprimir todas as partituras da orquestra. Por que essas alterações são feitas? As opiniões do público ou da imprensa são levadas em conta para fazer essas modificações ou é apenas um desejo seu e dos arranjadores de aprimorar os arranjos?

Thomas: Verdade, é principalmente por conta do que nós mesmos achamos. Somos totais perfeccionistas e, se alguma coisa está nos incomodando, nós vamos querer revisar e melhorar o trabalho. Muitas vezes são pequenos detalhes, mas não é segredo que pequenas mudanças podem fazer grande diferença. Por exemplo, pode deixar os ensaios mais rápidos ou fáceis se partes desnecessariamente difíceis foram modificadas. Isso não é nada incomum no mundo da música erudita.

Hadouken: Depois que os arranjos são finalizados, todas as produtoras exigem aprovação das partituras? Que tipo de restrição as produtoras fazem na divulgação dos concertos?

Thomas: Com o tempo, o processo de aprovação mudou um pouco para a nossa empresa. No começo, algumas companhias faziam um pedido para verificar as partituras, mas hoje eles acreditam em nosso trabalho devido à nossa longa experiência no ramo. De um ponto de vista totalmente pessoal, fico pensando se algumas de nossas partituras são tão complexas que levaria muito tempo e esforço para encontrar uma pessoa capaz de conferi-las! Mas, sim, dada a confiança em nosso trabalho, suponho que a maioria das produtoras não sente a necessidade de se envolver muito.

No entanto, tendo dito isso, nós absolutamente ainda temos equipes do Japão que assistem aos ensaios e concertos, fazendo anotações e relatórios para suas diretorias. Embora nunca tenhamos tido quaisquer pedidos para mudanças, as produtoras de fato conferem o trabalho para garantir que tudo é de seu agrado e que nada vá contra suas políticas. Algo que é totalmente compreensível – afinal, estamos usando importantes IPs deles.

Hadouken: O Yuzo Koshiro é um compositor extremamente popular no Brasil. Ele ficou famoso porque o nome dele apareceu nas telas-título do The Revenge of Shinobi e Streets of Rage, mas aqui os jogos da Sega são especialmente famosos graças ao excelente trabalho da Tectoy, que lançou os produtos da empresa neste país. Você conhece o Koshiro há muito tempo e ele já fez vários arranjos para os seus concertos: The Revenge of Shinobi, Sonic the Hedgehog (quando você era produtor executivo do Play), Actraiser, New Super Mario Bros. e Jim Power in Mutant Planet. Fale um pouco como o conheceu e como foi a experiência de trabalhar com uma das maiores lendas da game music.

Chris Huelsbeck e Yuzo Koshiro

Thomas: Para mim, provavelmente o conheci de uma maneira muito parecida como foi para vocês: definitivamente foi uma novidade quando o nome de um compositor apareceu na tela-título anos atrás. Isso ajudou a popularizar o nome do Yuzo Koshiro. E, assim como Chris Huelsbeck, o nome dele começou a ser mencionado nas análises das revistas de games alemãs. Ter uma trilha sonora do Yuzo Koshiro ou Chris Huelsbeck significava qualidade. Isso colaborou para que muitas pessoas conhecessem game music em geral.

Eu gostava da música do Yuzo Koshiro desde a tenra idade e sempre foi meu objetivo trabalhar com ele um dia. Quando nós começamos o projeto Merregnon, sabia que teria de entrar em contato com ele. Eu tive sorte: não apenas o Yuzo Koshiro é uma pessoa muito simpática e de mente aberta, como ele também fala inglês. Cerca de 15 anos atrás, eu escrevi para o Koshiro, e ele entendeu a importância de os japoneses se envolverem em projetos internacionais, algo que pode ser normal hoje, mas não era tanto naquela época.

A última vez que tive a oportunidade de trabalhar com ele foi na Turrican Soundtrack Anthology do Chris Huelsbeck, a qual eu coordenei a contribuição dele para o disco de vinil. Acho que o Yuzo Koshiro é um dos compositores mais versáteis por aí. Eu realmente o respeito.

Hadouken: Em entrevista para o site VGM Lounge, você comentou o desejo de um dia produzir, entre outros compositores, um concerto em tributo à carreira do Yuzo Koshiro, apesar de muitas trilhas sonoras dele serem de jogos obscuros para o público mainstream ocidental. Você acha que um dia ainda será possível realizar um concerto com músicas orquestradas de jogos como Actraiser, Beyond Oasis, Etrian Odyssey e Streets of Rage?

Thomas: Absolutamente, e isso ainda está na minha lista. Por mais que eu goste de projetos de grande escala como o Final Symphony, também aprecio – de uma forma – abordagens menores, como nós fizemos com o Symphonic Shades, apesar de termos usado orquestras e corais grandes. Voltar para locais menores, escolher talvez trilhas sonoras menos conhecidas, mas com composições maravilhosas, é algo que estou planejando. Quero sempre renovar os concertos e mantê-los surpreendentes.

Hadouken: Os seus concertos costumam ter jogos que se não são totalmente obscuros, não são muito populares na Europa, como SaGa Frontier II, Unlimited SaGa, Final Fantasy Legend, Final Fantasy Legend II e King’s Knight. Qual jogo você considera o mais obscuro entre os títulos que já foram tocados em seus concertos? Em sua opinião, qual o limite de jogos obscuros de um programa voltado para o público europeu?

Thomas: Eu diria que King’s Knight foi um dos jogos mais obscuros; até o próprio Nobuo Uematsu brincou que ele não conhecia o jogo! Acredito que, ao adicionar esses arranjos para programas mais mainstream, basicamente você pode ir tão longe quanto quiser; não há limites. No melhor caso, as pessoas vão conhecer sobre pérolas musicais que eles nem sabiam que existiam. É isso que procurei fazer no Symphonic Odysseys. Apesar de sabermos que Final Fantasy é – é claro – a série que os fãs queriam ouvir as músicas, ainda queríamos apresentar jogos menos conhecidos.

Hadouken: Você já produziu dois concertos no Japão: o Symphonic Fantasies (2012) e o Final Symphony (2014). Ambos os concertos foram originalmente apresentados na Europa, com algumas diferenças no programa, como “Encore: Final Boss Suite” do Symphonic Fantasies, que foi modificado para a apresentação em Tóquio. Você pensa em algum dia produzir um concerto ou pelo menos adicionar segmentos exclusivos planejados especificamente para o público japonês, que é muito mais receptivo para jogos obscuros e permitiria escolhas mais exóticas de repertório, como vemos com tanta frequência na série Press Start?

Thomas: Absolutamente! Isso é algo que definitivamente posso imaginar. Infelizmente, tão chato quanto parece, você ainda precisa manter o aspecto econômico em mente. É impossível ter equilíbrio financeiro quando você toca um concerto uma ou duas vezes, por isso sempre precisamos encontrar o melhor ponto de equilíbrio. Por isso, fazer um concerto – e certamente a forma que os criamos – para o Japão pode ser apenas um pouco complicado financeiramente, mas criar segmentos específicos pode ser uma opção.

Hadouken: Além de Final Fantasy e Dragon Quest, poucas séries tiveram concertos dedicados e a maioria deles aconteceu no Japão: Resident Evil, Ace Attorney, Monster Hunter, The Legend of Zelda, Phantasy Star e Nobunaga’s Ambition. Uma das suas produções mais recentes foi com as músicas da série Zelda. Você acredita ser possível a produção de mais concertos enfocados em séries no Ocidente no futuro, como Chrono, Mario, Sonic, Castlevania, Mega Man e Metal Gear? Ou você acredita que somente no Japão há público para esse tipo de concerto mais específico?

Thomas: É difícil dizer se você produzir uma turnê inteira de concertos para alguns dos jogos mencionados, mas certamente você pode trabalhar com algumas performances.

Hadouken: A “Theme of Laura” (Silent Hill 2) foi tocada pela primeira vez no Third Symphonic Game Music Concert (2005). Naquela ocasião, você chamou a banda -123min para tocar a música com a orquestra. No entanto, os últimos concertos que você produziu não têm instrumentos de banda como bateria, guitarra e baixo elétrico. Por que você prefere não utilizar esses instrumentos em suas produções ao vivo? O que você acha dessa mistura?

Thomas: Mais uma vez, isso é completamente subjetivo, mas, para mim, esses instrumentos não se misturam muito bem e vão contra meu gosto estético pessoal. Particularmente a bateria, que muitas vezes parece ser usada se os arranjadores estão sem ideias. Pode ser que um dia eu me convença do contrário, mas sempre achei que criativo o uso de instrumentos que já estão ali – por exemplo, a percussão nos arranjos do Jonne – você obtém um nível de qualidade muito mais convincente, com muito mais impacto.

Hadouken: Qual é a importância de a orquestra tocar em um anfiteatro em vez de uma casa de espetáculos convencional? Qual é o anfiteatro que você considera ter a acústica ideal entre os concertos que você produziu?

Tampere Hall

Thomas: Eu gosto bastante do Philharmonic Hall em Colônia, mas o melhor provavelmente foi o Tampere Hall na Finlândia, onde foi capaz de obter todas as nuances da performance, todos os mínimos detalhes, onde você pode escutar claramente todos os instrumentos separados se você quiser, em vez de apenas uma grande mistura de sons.

Os músicos têm de ouvir bem uns aos outros no palco e isso pode ser difícil em salas de concerto que não foram feitas para performances orquestrais em mente. Pessoalmente, não sou fã de amplificação – não importa o quão bem feito seja, soa artificial para mim. Quanto maior for o ambiente, o mais provável é que você não pode evitar de usar um sistema de som.

Certamente sou um purista quando se trata de som orquestral, por isso, quando procuramos hoje orquestras para nossos concertos, uma sala de concerto com acústica natural é definitivamente um requisito para trabalharmos.

Hadouken: A tetralogia de concertos tributo Symphonic com a WDR Radio Orchestra Cologne teve uma imensa repercussão graças às transmissões ao vivo em vídeo ou rádio da WDR. Depois disso, você também foi consultor dos concertos Soundtrack Cologne – East meets West (2012) e Symphonic Selections (2013) e ajudou na produção do Music in Motion (2014). Há planos de voltar a trabalhar com a WDR ou a parceria só foi durante 2008 a 2014?

Thomas: Isso é difícil de responder porque depende de uma série de fatores. Como disse muitas vezes, gerentes de orquestra são pessoas chave para tais produções. Quando conheci o Winfried Fechner em 2007, foi um momento muito importante na minha vida, porque eles estavam procurando por novos e empolgantes projetos para a WDR Radio Orchestra Cologne. Ele se aposentou vários anos atrás e o último projeto que fizemos juntos foi o Symphonic Odysseys. Agora estou em contato com o terceiro gerente da orquestra de lá, e se essa pessoa vê vantagem em fazer um concerto inteiramente novo, vai acontecer.

Dito isso, estamos em uma posição privilegiada agora em que podemos fazer nossos próprios projetos, como o Final Symphony – que se provou ser nosso concerto mais bem sucedido até hoje, com performances na Alemanha, Reino Unido, Japão, Dinamarca, Suécia e Finlândia – e vem mais por aí.

Hadouken: Dos concertos mais recentes que você produziu, somente o Symphonic Legends, o LEGENDS e o Symphonic Legends – Featuring music from The Legend of Zelda series não tiveram lançamento em CD. Todos esses concertos estão relacionados à Nintendo. Que restrição a Nintendo faz ao lançamento desses CDs? Por que você acredita que a Nintendo permitia lançamentos como o do Orchestral Game Concert no passado e atualmente não permite o lançamento desse tipo de álbum?

Thomas: Acredito que na época da série OGC, as regras não eram tão rigorosas como são agora. Talvez tenha sido uma ideia tão nova e inesperada que ficou fácil convencer a Nintendo a permitir esses lançamentos em CD – além do fato de os concertos acontecerem no Japão pode ter ajudado.

Hadouken: Você já foi consultor do Play! A Video Game Symphony e Distant Worlds e, apesar de não estar mais envolvido em ambos os projetos, você sabe de todas as dificuldades de produzir uma turnê mundial. Desde 2006, há apresentações do Video Games Live em diferentes cidades do Brasil, mas nunca aconteceu por aqui um concerto mais tradicional de uma produção estrangeira com uma ampla orquestra (de 80 a 100 pessoas) tocando em um anfiteatro. A turnê Distant Worlds já se apresentou na América do Sul, em países como Argentina e Chile. No seu ponto de vista, o que falta para um país como o Brasil receber concertos dessas e outras turnês mundiais?

Thomas: Falando sinceramente, tudo se resume a alguém estar disposto a arriscar e dar uma chance – não importa o país. Desnecessário dizer que tais produções custam muito dinheiro e pode ser um investimento arriscado para os patrocinadores. No momento em que alguém ver potencial, a situação pode mudar imediatamente, e o Brasil pode ter esse tipo de produção que você mencionou.

Hadouken: A maioria das suas produções acontece na Europa e eventualmente no Japão. Você pensa em algum dia produzir concertos em outros continentes?

Thomas: Adoro viajar, então sim – absolutamente. Gostaria muito de ver a game music se espalhando por todo o mundo, especialmente com arranjos de alta qualidade como os produzidos por Jonne e Roger. Eu continuo trabalhando nisso e, com o apoio dos nossos agentes, acho que há uma boa chance. Já sei que iremos para lugares que não fomos antes em 2015 e também em 2016 em diante.

Hadouken: Eu já publiquei no blog inúmeras performances de diversas produções que eventualmente você pode ter acompanhado. Você se lembra de ter ficado particularmente impressionado por alguma dos vídeos? Por exemplo, você já comentou comigo um tempo atrás que gostava da série holandesa de concertos Games in Concert.

Thomas: Sim, eu me lembro dessa série holandesa, e eu gostei porque teve alguns arranjos diferentes das outras turnês de concertos que estavam por aí. Era na época do Play!, Distant Worlds e Video Games Live, e eu gostei do fato e alguém tentar adicionar um tempero diferente para o prato, por assim dizer. Precisamos de mais produtores como esse.

Hadouken: Qual é o seu instrumento preferido? Em entrevista para o site da Distant Worlds, você afirmou não tocar nenhum instrumento profissionalmente, mas você tem vontade de aprender algum dia ou nem considera mais isso?

Thomas: Acho que eu realmente deveria – e eu sei que isso é uma desculpa ruim –, mas nunca tive tempo para fazer adequadamente. Suponho que preciso me esforçar um pouco mais!

Realmente não tenho mais um instrumento preferido. Alguns anos atrás seria mais fácil de responder. Quanto mais eu assisto aos ensaios, concertos e gravações, mais difícil se torna de escolher um. A paleta de sons da orquestra é incrível e um grande solista pode fazer uma enorme diferença.

Hadouken: Que tipo de música você escuta além de game music? Você já cogitou produzir concertos com outros tipos de música, como de animes, filmes ou até mesmo música erudita?

Thomas: No momento, eu não tenho planos para isso, mas certamente pode acontecer – não há dúvida sobre isso.

Eu ouço todos os tipos de música, mas o foco é música orquestrada, no entanto. Sergei Prokofiev, Dmitri Shostakovich e Igor Stravinsky na música erudita; John Williams, James Newton Howard e Elliot Goldenthal para trilhas de filmes. Tome essa escolha como uma pequena amostra, entretanto; ela muda frequentemente. Estou constantemente buscando encontrar inspiração.

Hadouken: Qual foi o melhor concerto que você produziu? E qual foi o melhor concerto de games sem o seu envolvimento que você já viu?

Thomas: Obviamente foi o Final Symphony. Artisticamente foi o mais desenvolvido e também é o concerto mais bem sucedido, tendo-nos levado para muitos países diferentes. Tenho fortes ligações afetivas com a tetralogia da WDR.

Em relação ao concerto sem o meu envolvimento, seria a performance em Tóquio do Tour de Japon, em 2004. Tive o privilégio de ser convidado pelo Nobuo Uematsu e Square Enix. O concerto me motivou e inspirou bastante para minhas próprias produções.

Hadouken: Qual você considera a maior conquista da sua carreira após mais de uma década produzindo concertos de games? Você considera o Symphonic Fantasies o momento decisivo?

Thomas: Eu acho que realmente é o Final Symphony por vários motivos. Por ser a primeira produção inteiramente feita pela Merregnon Studios sem qualquer suporte financeiro exterior; por ser a primeira performance ao vivo de game music da London Symphony Orchestra; por receber aplausos de pé pela primeira vez em um concerto de games no Japão; por acontecer performances em muitos países diferentes; por gravar o álbum com a London Symphony Orchestra no Abbey Road Studios e assim por adiante…

Se falarmos dos três concertos mais influentes de minha carreira até agora, eu diria o Final Symphony, Symphonic Fantasies e Symphonic Shades. O Symphonic Fantasies teve a grande mudança de peças curtas para suítes que contam histórias – e, é claro, as performances no Japão –, enquanto o Symphonic Shades proporcionou novas oportunidades artísticas que nunca tive antes.

Hadouken: Você pode ter certeza que muitas pessoas daqui acompanharam as transmissões ao vivo em vídeo ou áudio dos concertos produzidos por você na Alemanha. Por favor mande um recado para os fãs brasileiros das suas apresentações.

Thomas: Muito obrigado pelo seu frequente interesse em minhas produções! Eu viajei para o Brasil uma vez em minha vida, e eu realmente espero que possa fazer isso de novo, talvez até mesmo para apresentar um concerto de games em seu país! Até lá, espero que vocês desfrutem das transmissões ao vivo de nossas performances, e sem prometer muito posso dizer que estou trabalhando em futuras oportunidades para que isso aconteça.

Gostaria de agradecer ao Thomas por gentilmente responder as diversas perguntas dessa extensa entrevista e pelas respostas esclarecedoras sobre o seu trabalho.

3 Responses to “Entrevista com Thomas Boecker, produtor de concertos de games na Alemanha (parte 2 de 2)”


  1. 1 Felipe 01/04/2015 às 3:21 pm

    Absolutamente fantástica entrevista! É tão bom ver o alto nível de respeito que a game music conquistou, chegando ao ponto de entrar pelo campo da música erudita sem perder a ligação com o público. Legal também ver o Thomas Boecker deixando a modéstia à parte e falando abertamente: “De um ponto de vista totalmente pessoal, fico pensando se algumas de nossas partituras são tão complexas que levaria muito tempo e esforço para encontrar uma pessoa capaz de conferi-las!”; um belo tapa na cara dos tallaricos…

    Muito obrigado, maestro!

    PS: Alexei, imagino que você mal tenha tempo pra dormir, mas vou continuar te enchendo o saco pra você escrever um post sobre trilhas ocidentais (como The Last of Us e Beyond: Two Souls), com sua visão sobre os prós e contras desse estilo comparado ao oriental, o impacto da experiência para o jogador e filosofias mil!

    • 2 Alexei Barros 01/04/2015 às 11:39 pm

      Feliz que tenha gostado da entrevista, Felipe! O Thomas não disse especificamente nessa entrevista, mas havia já comentado comigo por e-mail que as orquestras europeias sempre têm muito interesse em tocar game music porque é um tipo de música que atrai o público jovem, uma vez que nos concertos de música erudita a maioria da plateia é de gente mais experiente. Até devo ter falado isso por aqui.

      Sobre as partituras, realmente os arranjos do Valtonen e Wanamo atingiram um nível que nenhum outro concerto de games chegou até hoje. Claro que em termos de estilo vai de cada um, mas, em se tratando de complexidade e refinamento, não tem igual. Não é à toa que muitos arranjos mais comuns, como as releituras do Level 3 do VGL, eu ouço uma vez e já me dou por satisfeito. Nos arranjos do Valtonen e Wanamo que gosto ficou com vontade de escutar várias vezes e volta meia descubro coisas novas.

      P.S.: Eu acho que até já trabalhei mais, embora esteja com pouco tempo livre como dá para perceber pela escassez de posts. Pelo menos o sono estou conseguindo manter. E que encher o saco que nada! Fiquei devendo esses posts mesmo. No caso do The Last of Us, é um incentivo a mais porque terminei o jogo no começo deste ano (a versão de PS3 mesmo, não a Remastered), mas vou me abster de tecer comentários para guardar a discussão para o vindouro post – espero não demorar muito mais.


  1. 1 Entrevista com Thomas Boecker, produtor de concertos de games na Alemanha (parte 1 de 2) | Hadouken Trackback em 23/02/2015 às 7:51 pm

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