Finalistas do Indie Game Challenge: The Dream Machine

Por Gustavo Hitzschky

Eu não tenho o direito de escrever sobre videogames. Admito. Possuo um vão na minha formação gamística que muitos de vocês considerarão imperdoável, e talvez não lhes tire a razão: jamais cheguei a terminar um adventure clássico point & click – concluí alguns capítulos das incursões mais recentes de Sam & Max, o que pelo menos ameniza um pouco (um pouco) a constatação.

Tudo bem, ainda não foi dessa vez que encarei The Dig, Full Throttle ou Maniac Mansion, mas pelo menos é um point & click. Prosseguindo com as críticas dos jogos finalistas do Indie Game Challenge, me aventurei pelos três capítulos lançados até aqui de The Dream Machine. Vamos lá.

The Dream Machine começa de um modo absolutamente prosaico. Ou nem tanto assim. Você está em uma pequena ilha com poucos recursos à disposição. Depois de saciar a fome ao pescar um peixe e assá-lo, qual não é a sua surpresa ao encontrar um mapa dentro da própria comida. Ao cavar o local indicado, você se vê diante de um despertador. É hora de acordar e retornar à vida real. A verdade é que Victor Neff e sua esposa Alicia acabaram de se mudar para um novo apartamento e nós nos encontramos em meio à balbúrdia, com caixas espalhadas e uma boa dose de dor de cabeça com sofás que não passam pela porta de entrada. É preciso conhecer os vizinhos e o síndico, ajudar a esposa, que está grávida, com o café da manhã e ainda lidar com vários detalhes que envolvem a mudança. Como disse, tudo absolutamente normal, simples, e você passa até a duvidar que alguma trama interessante e intrincada possa surgir a partir disso. E felizmente nós nos enganamos com essa aparente (ou patente e proposital?) ausência de conflito.

Infelizmente agora serei obrigado a soltar alguns pequenos spoilers sobre o enredo. Você acaba descobrindo que o responsável pelo prédio, Mr. Morton, faz parte de uma família que há quatro gerações estuda os sonhos. Para aprofundar essas análises, foi criada uma máquina que, através do tempo, passou a adquirir um certo tipo de inteligência, porém relativamente primitiva. Para evitar que o aparelho cause mais estragos do que acontece entre o fim do segundo capítulo e o início do terceiro, é preciso destrui-lo e, para tanto, devemos cortar a raiz dessa espécie de monstro dentro dos sonhos dos moradores do edifício. A começar por Alicia, sua mulher.

Parece-me que o que faz de um point & click um jogo digno e louvável é o casamento entre uma bela estória e puzzles desafiantes. Impossível julgar a trama sem tê-la visto em sua totalidade, mas posso afirmar com segurança que a premissa é boa e os três primeiros capítulos foram muito bem escritos. Com relação aos quebra-cabeças, uma certeza: eles estão lá, não são poucos e possivelmente muitos vão perder uns bons minutos para resolver parte deles – vocês devem conhecer a minha predileção por puzzles, e foi bem difícil deixar de estampar um sorriso sincero e espontâneo depois de resolver um quebra-cabeça que me tenha tomado meia hora. “Tomado” pode trazer consigo uma carga pejorativa, e talvez fosse melhor escrever “um quebra-cabeça no qual investi meia hora”. Como é bom quando o jogo nos faz avançar por meio do raciocínio sem que tenhamos de manter o dedo pressionado em um gatilho incessantemente… Mas divago. Só para citar um exemplo de puzzle, no capítulo 3 você tem acesso a três pedaços de papel que parecem uma espécie de mapa. Alguns elementos se repetem nas folhas, e é preciso encaixá-las de modo a tornar mais nítida a imagem. É necessário também colocar esses desenhos contra a luz a fim de encontrar o local exato. Mas parece que nunca a luz é forte o bastante…

Um fator interessante de The Dream Machine é a forma como cenários e personagens foram criados. A ideia dos suecos Anders Gustafsson e Erik Zaring era fazer um jogo cujos elementos fossem desenvolvidos à mão. Em um primeiro momento, eles queriam somente uma demo conceitual. Porém, ao contar com a ajuda de Mikael Lindblom, amigo de Erik, e de seu estúdio de stop motion, os rapazes optaram por gerar de uma vez um produto completo. Enquanto Anders trabalhava no roteiro, Erik e Mikael se encarregavam dos ambientes. Os personagens surgiram a partir de pequenas figuras de barro, fotografadas, iluminadas e animadas posteriormente. Por sua vez, os cenários, além de barro, eram erguidos com papelão – três paredes e o chão, sem um teto, pois dessa maneira seria mais difícil trabalhar com a iluminação do jogo. E como de qualquer modo nós não veríamos o teto, a equipe decidiu limá-lo por completo.

(Devo confessar que as figuras de The Dream Machine me assustam um pouco. E também me fazem lembrar dos desenhos da TV Cultura – talvez Pingo e outros que pareciam feitos a partir da popular super massa.)

Anders destaca muitas etapas da produção em um blog com bastante informação interessante. Gostaria de agradecê-lo pela gentileza nas respostas dos e-mails e pelos links que me passou – um sobre a construção dos personagens e outro acerca da montagem dos cenários, recheados de fotos batutas e dos quais extraí alguns detalhes para esse post. Como escrevi antes, até o momento The Dream Machine conta com três capítulos disponíveis, sendo o primeiro gratuito, e há mais dois programados. Não é necessário ou possível fazer download, e você deve jogar no próprio browser e, evidentemente, estar online – como explicou Anders, isso contribuiu para um menor tempo de carregamento. Além disso, há um esquema bem bacana em ação. Cito o site. “Temos um sistema rodando discretamente ao fundo que registra estatísticas sobre quantos jogadores conseguiram resolver um quebra-cabeça no jogo. Se notamos uma queda significativa em algum lugar, podemos adicionar pistas ou repensar o problema inteiramente. Queremos que o jogo seja desafiante, mas se perdemos 30% dos jogadores em um puzzle, temos que fazer algo a esse respeito”.

É isso. Lembrando que o resultado do Indie Game Challenge será anunciado no dia 10 de fevereiro durante a D.I.C.E. Summit. O vencedor será escolhido por meio de votação popular. Eis a lista dos indicados.

* Atom Zombie Smasher – Blendo Games
* Closure – Eyebrow Interactive
* Demolition, Inc. – Zeroscale
* Nitronic Rush – Team Nitronic
* Paradox Shift – Paradox Shift
* Symphony – Empty Clip Studios, Inc.
* The Bridge – Ty Talor e Mario Castaneda
* The Dream Machine – Team Dream
* The Fourth Wall – The Fourth Wall Team
* The Swapper – Facepalm Games

Honestamente, até o momento eu não teria a menor ideia do meu escolhido, o que parece deixar claro o alto nível das produções. Joguei quatro deles e vi o vídeo de mais alguns. Mais textos (assim espero) nos próximos dias.

1 Response to “Finalistas do Indie Game Challenge: The Dream Machine”



  1. 1 Closure é o grande vencedor do Indie Game Challenge « Hadouken Trackback em 16/02/2012 às 6:30 am

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