Benyamin Nuss Plays Uematsu: quando o prodígio encontra o mestre


Por Alexei Barros

É raro um pianista atuar simultaneamente em orquestras e bandas de jazz. Ainda por cima tão jovem. Quanto mais gamer! Benyamin Nuss é tudo isso com somente 21 anos de idade e logo em seu álbum de estreia homenageia um dos mais afamados compositores de jogos com a missão ambiciosa de introduzir game music aos apreciadores de música erudita.

Filho do trombonista Ludwig Nuss e irmão do pianista Hubert Nuss, ambos compositores e jazzistas internacionalmente conhecidos, Benyamin iniciou o aprendizado de piano com seis anos de idade, e a partir de então iniciou uma trajetória de sucesso sendo agraciado com diversos prêmios, ao mesmo tempo em que buscava se inspirar na técnica e interpretação de pianistas clássicos, como Sviatoslav Richter e Vladimir Horowitz, e na capacidade de improvisação de pianistas jazzísticos, como Chick Corea e Herbie Hancock.

Até aí pouca relação com jogos eletrônicos na música, ainda que tivesse crescido jogando videogames. Foi então que o administrador da WDR Radio Orchestra, Winfried Fechner, conversou com ele sobre o concerto Symphonic Shades, e Benyamin compartilhou a admiração por game music. Dias depois recebeu uma ligação para gravar a “Turrican 3 – Payment Day (Piano Suite)”, na versão que acabou registrada no CD por se aproximar do intento original do compositor Chris Huelsbeck. Tratava-se de uma interpretação mais incisiva que a versão suave da “Turrican 3 – Payment Day (Piano Suite)” tocada pelo Jari Salmela na apresentação.

Mais famoso entre os fãs de game music Benyamin ficou no sucessor Symphonic Fantasies em 2009, desta vez participando do espetáculo ao vivo, na suíte de 15 minutos “Fantasy I: Kingdom Hearts”, em que o piano ganhou um destaque especial no arranjo de Jonne Valtonen. Em 2010, no Symphonic Legends, demonstrou incrível entrosamento com o violinista Juraj Cizmarovic na “Donkey Kong Country (Aquatic Ambiance)” arranjada por Masashi Hamauzu, e também tocou no bis “Encore (Currendo. Saltando. Ludendo)”.

A notoriedade na Alemanha também em breve se estenderá ao Japão. Em 30 de outubro o pianista participará do evento Shinzo Kukaigi 5 e nos dias 6 e 7 de novembro do Distant Worlds music from Final Fantasy Returning Home, todos a acontecer em Tóquio, também para promover o lançamento japonês do disco, que se dará dia 27 de outubro. Isso que de setembro a novembro Benyamin Nuss excursiona por diversas cidades da Alemanha e Luxemburgo com performances do álbum de debute.

Publicado pela renomada Deutsche Grammophon (Universal Music), o disco Benyamin Nuss plays Uematsu foi produzido por Thilo Berg, baterista alemão, líder de big bands e administrador do pianista, com consultoria de Thomas Boecker, produtor executivo dos concertos Shades, Fantasies e Legends. São 15 faixas no total, gravadas nos dias 1, 2 e 4 de maio de 2010 no SWR Studio na cidade de Kaiserslautern. A seleção visitou Final Fantasy, Blue Dragon e Lost Odyssey, e contou com arranjadores de renome na game music e fora dela.

Shiro Hamaguchi é o arranjador da Piano Collections Final Fantasy VII, Piano Collections Final Fantasy VIII e Piano Collections Final Fantasy IX, e ficou encarregado de Lost Odyssey. Jonne Valtonen, autor do supramencionado arranjo de Turrican 3, de Blue Dragon. E Final Fantasy foi divido entre os menos versados em game music: Bill Dobbins, jazzista americano que dirigiu a WDR Big Band de 1994 a 2002, Torsten Rasch, alemão modernista que arranjou a ousada “Super Metroid (Suite: Samus Aran – Galactic Warrior)” do Symphonic Legends, e o russo Alexander Rosenblatt, compositor de piano. Para completar, Benyamin Nuss escreveu uma faixa em homenagem a Nobuo Uematsu e vice-versa. O encarte do álbum merece ser elogiado. Traz um breve comentário de Uematsu de cada uma das 15 faixas em japonês, alemão e inglês. Serviço completo.

Uma pena que o “Rad Racer Medley” de 10 minutos e meio de duração não coube no CD, que possui 68 minutos, e está disponível exclusivamente em formato digital na iTunes. Como é um jogo de corrida, proporcionaria variedade à supremacia de RPGs. O sample é promissor, ainda mais sabendo que o medley é arranjado por Francesco Tristano Schlimé, pianista luxemburguês que gosta de experimentações. Não bastasse a restrição, por enquanto, aos residentes na Alemanha por conta da limitação da loja virtual da Apple, o medley não pode ser comprado separadamente. Ou seja, quem adquiriu o álbum físico e quiser comprar a “Rad Racer Medley”, é obrigado a pagar os 9,99 dólares por todas as músicas.

Diante de tudo isso, finalmente os comentários faixa por faixa depois do Hadouken.

01 – “Prologue (Lost Odyssey)

Original: “Prologue”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Shiro Hamaguchi

O tema de abertura essencialmente emotivo ganhou um minuto a mais na versão de solo de piano com floreios que concedem grandiosidade à faixa. Os respiros, dois para ser preciso, são essenciais para dar um tom dramático de uma jornada iniciada há pouco que tem tudo para ser sofrida.

02 – “A Sign of Hope (Lost Odyssey)
Original: “A Sign of Hope”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Shiro Hamaguchi

Na original, simplesmente encantadora, o piano apresenta papel importante no começo e mais para o meio da música, e são os violoncelos que sobressaem. No solo ainda permanece o fascínio, mas com um clima mais alegre. De novo os silêncios mostram a bela interpretação do pianista.

03 – “A Mighty Enemy Appears! (Lost Odyssey)
Original: “A Mighty Enemy Appears!”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Shiro Hamaguchi

O tema de combate nervoso e um bocado repetitivo não cansa pela grande variedade de instrumentos da orquestra. Somente no piano, a tensão foi preservada com doses de pura imponência, e de maneira alguma causa enfado. Uma desacelerada próxima do fim antes do desfecho lépido é a grande responsável por isso.

04 – “Terra’s Theme (Final Fantasy VI)
Original: “Terra’s Theme”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Bill Dobbins

A meu ver, a inclusão de uma faixa amplamente difundida no álbum, e que estava presente na Piano Collections Final Fantasy VI se justifica somente se a nova versão superar a antiga. Felizmente é o que aconteceu. A “Terra” tocada pela Reiko Nomura, embora excelente, era mais simples e literal. O arranjo de Dobbins inseriu uma carga profunda de emoção em trechos mais tranquilos, ao mesmo tempo em que apresenta um bem-vindo frescor de jovialidade.

05 – “Liberi Fatali (Final Fantasy VIII)
Original: “Liberi Fatali”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Bill Dobbins

O tema de abertura faustoso que esteve ausente da Piano Collections VIII foi arranjada e tocada por tantos pianistas amadores no YouTube e afins. Finalmente recebeu uma versão 100% profissional. A grandiloquência de orquestra e coral foi preservada em um arranjo instrumental intenso e poderoso. O único pesar que faço são os 15 segundos iniciais, que destoam da magnitude da música, e faz até imaginar que é uma faixa diferente.

06 – “Where I Belong (Final Fantasy VIII)
Original: “Where I Belong”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Bill Dobbins

Outra faixa difícil de compreender a omissão na Piano Collections VIII porque simula praticamente um solo de piano e remete diretamente à atmosfera de FFVIII. O comovente arranjo explora o sentimento de saudade ou despedida magistralmente, que o diga o desfecho singelo.

07 – “The Serpent Trench (Final Fantasy VI)
Original: “The Serpent Trench”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Bill Dobbins

Para tapar lacunas do passado, uma faixa obscura e ausente da Piano Collections Final Fantasy VI foi pinçada inusitadamente. No encarte, Uematsu se mostrou surpreso com a escolha e o resultado, a ponto de achar o arranjo muito melhor que a composição original. E não discordo: a música foi reinventada, isso sem perder as suas virtudes, com direito a um desfecho estupendo de pura virtuosidade.

08 – “Nobuo’s Theme – Dedicated to Nobuo Uematsu”

Composição: Benyamin Nuss
Arranjo: Bill Dobbins

Pianista excepcional já se sabia que Benyamin era; espantoso foi vê-lo criar uma música em homenagem a Nobuo Uematsu tão precocemente. A faixa abre de forma tocante e paulatinamente fica mais animada, e esse ciclo se repete sem quebrar a continuidade da performance. Uma música surpreendente.

09 – “A Place to Call Home (Final Fantasy IX)”
Original: “A Place to Call Home”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Torsten Rasch

Também traduzida como “The Place I’ll Return to Someday”, uma das mais conhecidas músicas de FFIX esteve na Piano Collections Final Fantasy IX em arranjo de Shiro Hamaguchi e interpretação de Louis Leerink. A antiga “The Place I’ll Return to Someday” começa fiel à original e depois dá uma guinada, transformando-se em uma peça alegre. A versão do Torsten Rasch é muito mais complexa, arrojada e variada, proporcionando diversos prismas da bela melodia, com contornos dramáticos inimagináveis a princípio dado o viés da composição.

10 – “Themes of Final Fantasy VII
Originais: “Prelude” ~ “J-E-N-O-V-A” ~ “Aerith’s Theme” ~ “Opening ~ Bombing Mission” ~ “FF VII Main Theme”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Alexander Rosenblatt

O número de maior duração do CD com 9 minutos e meio de duração parece preso às músicas mais conhecidas dos fãs, mas dá um alento perceber que é possível homenagear FFVII sem esbarrar necessariamente em “One-Winged Angel”. Além disso, “Prelude” e “Opening ~ Bombing Mission” não foram lembradas na Piano Collections Final Fantasy VII. Pouco importa também, já que Rosenblatt concedeu um novo panorama.

Logo de cara “Prelude” abre a miscelânea de forma muito mais veloz que estamos acostumados. Em contraste, logo após a transição e a pausa, “J-E-N-O-V-A” (1:59) chega lentamente, acompanhada de uma melancolia que causa certo estranhamento, já que os demais arranjos sempre buscaram passar a tensão da batalha. Sensação que se acostuma e oferece a passagem ideal para a terna “Aerith’s Theme” (3:09), reproduzida com toda a delicadeza que tem direito. A partir de 4:04 o tema ganha uma nova vibração, mais frenética, que não se imaginaria à primeira vista. Nesse cenário, a “Opening ~ Bombing Mission” (5:00) conflui espontaneamente no excerto mais agitado. As coisas se aquietam com a beleza de “FF VII Main Theme” (6:44), fechando de forma comedida.

11 – “Main Theme (Blue Dragon)
Original: “Blue Dragon Main Theme”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Jonne Valtonen

O pomposo tema orquestrado ganhou um novo sentido no piano, com o tema reproduzido em diferentes vibrações. A técnica de Benyamin Nuss impressiona no momento em que a música acelera, e sua interpretação quando, logo em sequência, volta quase que desaparecendo, sendo retomado aos poucos. O mesmo recurso é repetido mais adiante de maneira exuberante.

12 – “Waterside (Blue Dragon)”
Original: “Waterside”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Jonne Valtonen

Por já ser um solo de piano na original, o arranjo para uma coletânea como esta ficaria parecido, o que seria redundante, ou totalmente diferente. A releitura segue pela segunda via, indo além, rumo ao desconhecido – em vagos momentos, fazendo força, se reconhece a melodia. Transformou uma música simples em uma sucessão de floreadas que atinge o clímax mais perto do final.

13 – “My Tears and the Sky (Blue Dragon)
Original: “My Tears and the Sky”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Jonne Valtonen

Canções costumam resultar em belos arranjos em piano, ressaltando as melodias ricas das músicas cantadas, fazendo parecer a voz, antes protagonista, um mero suporte. Sobretudo quando a original possui um vocal enjoado, como ficou o da Ayako Kawasumi nesta música. Depois de uma abertura centrada nas notas agudas, um pouco antes da metade a peça se engrandece de forma que a original não fazia, recuperando a sobriedade no final.

14 – “Release the Seal (Blue Dragon)
Original: “Release the Seal”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Jonne Valtonen

A correspondente da “Advent One-Winged Angel” no Blue Dragon mistura mais uma vez coral com uma banda de rock (sem orquestra, todavia), e para ficar atraente no piano basta manter a agitação que um tema como esses possui. O resultado é perfeito, conseguindo surpreender com uma pausa súbita, com a retomada da música na continuidade.

15 – “Years & Years – Dedicated to Benyamin Nuss”

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo: Bill Dobbins

Faixas como “At Zanarkand” (FFX) e “LIFE ~in memory of KEITEN~” (The Black Mages III Darkness and Starlight) mostram o apreço de Uematsu para composições diretamente pensadas como piano, e aqui o compositor criou uma música dedicada ao intérprete que fecha o álbum de maneira idônea, transmitindo a ideia de passagem dos tempos com ares de tristeza, mas deixando um tom esperançoso.

Estreia invejável de um alvissareiro pianista gamer

Benyamin Nuss Plays Uematsu é o tipo de álbum feito sob medida para os admiradores das coletâneas de piano Final Fantasy, já que somente duas foram arranjadas anteriormente, e ainda por cima receberam nova roupagem. Blue Dragon e Lost Odyssey então jamais tiveram arranjos similares. A seleção traz uma mescla interessante de músicas badaladas e obscuras. Desta segunda safra saiu provavelmente a melhor do disco, “The Serpent Trench (Final Fantasy VI)”. Duas faixas com certeza exigem do ouvinte uma mente mais aberta pela experimentação, trazendo uma sensação diferente das originais: “A Place to Call Home (Final Fantasy IX)” e especialmente “Waterside (Blue Dragon)”.

De modo geral, é elogiável a iniciativa de trazer arranjadores de pouca relação com games para quebrar barreiras entre a game music e a música erudita, ostentando o selo da Deutsche Grammophon. Ainda mais com composições de Nobuo Uematsu e a performance exemplar de um pianista jovem e talentoso como Benyamin Nuss. É um álbum de estreia promissor, cujo conceito definitivamente poderia ser expandido para um segundo volume ou para um outro compositor.

Muito grato ao Thomas Boecker pelo suporte.

Disponível em:
Amazon

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