Symphonic Fantasies: as fantasias reais eternizadas em um CD imaculado

Por Alexei Barros

Seis meses de arranjo e orquestração. Catorze dias de ensaios. Para pouco mais de 1 hora e 20 minutos de apresentação. Compensa tanto tempo e labor? Respondo com um decisivo sim (sem esquecer o processo de seleção de faixas, a parte burocrática de licenciamento e a fadiga dos instrumentistas e envolvidos). Vale não apenas pela experiência musical ímpar que se vivencia naquela hora – inesquecível para os 2000 espectadores in loco; memorável para tantos outros mundo afora –, como também porque agora o resultado do processo esmeroso ficou imortalizado em um disco para infindáveis apreciações.

Falo evidentemente do Symphonic Fantasies, concerto em homenagem à Square Enix que foi aclamado em diversas partes do planeta graças à inédita transmissão em streaming de vídeo, a ponto de ser elogiado pelos responsáveis de outras produções, como Tommy Tallarico, do Video Games Live, e Hiroaki Yura, do A Night in Fantasia. A fórmula inovadora delineada pelo produtor Thomas Boecker e idealizada pelo arranjador Jonne Valtonen de coadunar temas das mesmas séries em suítes longas de alto valor artístico se mostrou muito mais acessível do que se poderia imaginar para um público acostumado com arranjos presos aos temas originais, que é o que os concertos de games, em sua imensa maioria, costumam oferecer.

Tudo aconteceu no dia 12 de setembro de 2009, no suntuoso Philharmonic Cologne Hall na cidade de Colônia, Alemanha, com a performance da WDR Radio Orchestra Cologne, com aproximadamente 80 integrantes, e do WDR Radio Choir Cologne, formado por 40 coristas, sob a regência de Arnie Roth. Na plateia, estavam Yoko Shimomura, representando a série Kingdom Hearts; Hiroki Kikuta, Secret of Mana; Yasunori Mitsuda, Chrono Trigger e Chrono Cross; e, finalmente, Nobuo Uematsu, a série Final Fantasy.

Depois de rumores esparsos, o disco foi anunciado pelo administrador da WDR Orchestra, Winfried Fechner, em entrevista ao SEMO realizada em março de 2010. A data de lançamento foi veiculada pelo site da Amazon alemã inicialmente para dia 21 de maio com publicação da Sony Classical Germany. Todavia, tratava-se de um equívoco da loja virtual, que alterou a data para 31 de dezembro. Posteriormente ocorreu a revelação oficial para setembro, desta vez com o selo da Decca (Universal Music). Em seguida, o lançamento alemão foi precisado para o dia 24 e, numa decisão rara, adiantado para uma semana antes, 17 de setembro, pouco mais de um ano depois da realização do concerto. Dois dias antes, a Square Enix publicou o álbum no Japão com número de catálogo SQEX-10202.

O conteúdo musical é o mesmo, a diferença é o encarte. A edição germânica possui na capa um estiloso controle-violino de madeira, ao passo que a japonesa possui a imagem da lateral de uma espécie de enciclopédia com os nomes dos compositores em destaque. No livreto há perfis dos principais envolvidos, mas infelizmente a compreensão do texto é limitada aos entendedores dos dois idiomas locais. Um detalhe que poderia ser acrescentado são as letras em latim e tradução das suítes de Secret of Mana e Final Fantasy como foram escritas especialmente para o concerto de acordo com os universos dos respectivos jogos e séries. Cada suíte tem quatro faixas detalhadas (exatamente as anunciadas antes do concerto), e não seria muito pedir que fossem arroladas todas as músicas homenageadas – a ordem é impossível, eu sei, pelo menos a lista completa, ainda que na maioria dos álbuns a informação não seja divulgada oficialmente.

Apesar de planejado para ser executado ao vivo, o conceito do Symphonic Fantasies está muito mais de acordo com um álbum. Explico. Exceção à suíte de Final Fantasy, que segue formato mais simples de medley, ou seja, faixa A + faixa B + faixa C e assim por diante com devidas transições, as outras três suítes são quebra-cabeças, com idas e vindas, variações, sobreposições de melodias e alusões sutis. É impossível absorver tudo de primeira, por isso é um imperativo novas audições. Por que então ouvir o CD se as gravações estão no YouTube e afins?

Primeiro porque é muito mais recompensador possuir uma recordação material de um espetáculo histórico e caprichado como o Symphonic Fantasies, e outro porque a qualidade está ainda melhor, acredite você, como se não bastasse a perfeição da transmissão ao vivo. Editada e mixada no WDR Radio Studios, a gravação passou pelo crivo do arranjador e dos quatro compositores e foi masterizada no Abbey Road Studios. Parece gravado em estúdio pela nitidez de som estonteante, e só se percebe que é ao vivo pelos aplausos no final de cada um dos cinco números e pelos risos ao fundo acompanhado de um “woow!” de um infeliz da plateia quando é tocado o tema dos Chocobos.

Falei cinco números. O sexto, “Encore (Symphonic Fantasies)”, que era um medley convencional de oito minutos com quatro temas de batalha contra chefe, acabou não cabendo no CD e está somente disponível na versão digital. Embora preferisse dois discos para que fosse registrada a experiência do concerto em sua plenitude, não é uma ausência vital. Não deixa de ser uma decisão ousada, visto que a miscelânea acabava com a “One-Winged Angel”, e não é todo dia que sai um álbum de um concerto relacionado com Final Fantasy sem o tema considerado muitas vezes pelos fãs casuais como obrigatório.

Posto isso tudo, revisitei a abertura e as quatro suítes com o perdão da sua paciência porque há muitos detalhes que vieram à tona com a mixagem do CD. Não mencionei novamente as músicas que senti falta ou então comparei com outros arranjos. Seria redundante, sem falar que um ano depois, passo a compreender a ausência de algumas, porque cada segmento possui a própria vibração e complementa o outro no contexto do concerto, em uma escala gradativa. Foi tudo planejado e equilibrado para não enfastiar ou cansar os ouvidos no decorrer das suítes e na récita como um todo.

Depois do Hadouken você também pode conferir no Goear as suítes nas versões do álbum, mas fica o aviso: nada se compara ao CD, que está superior evidentemente. Um concerto com semelhante perfeição de performance suplica para ser apreciado na melhor qualidade possível.

01 – “Fanfare Overture”

Composição, arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

A fanfarra introdutória composta para a ocasião ganhou no álbum um brilho especial, em especial os metais à John Williams, para nos fazer voltar ao Cologne Philharmonic Hall. Retornar como se não estive lá? Com a transmissão é como se fosse. A composição cumpre exatamente a função que se imagina da música neste caso: chamar a atenção do público para anunciar o início da apresentação, não de trazer uma melodia marcante ou uma característica auditiva que remeta à Square Enix.

02 – “Fantasy I: Kingdom Hearts”

Originais: “Dearly Beloved” (Kingdom Hearts) ~ “Sora” (Kingdom Hearts II) ~ “Hand in Hand” (Kingdom Hearts) ~ “Sora” (Kingdom Hearts II) ~ “Hand in Hand” (Kingdom Hearts) ~ “Kairi” ~ “Sora” (Kingdom Hearts II) ~ “The Other Promise” ~ “Happy Holidays!” (Kingdom Hearts II Final Mix +) ~ “Dearly Beloved” (Kingdom Hearts) ~ “Sora” ~ “A Fight to the Death” ~ “Sora” ~ “A Fight to the Death” ~ “Sora” (Kingdom Hearts II) ~ “Hand in Hand – Reprise -” (Kingdom Hearts)

Composição: Yoko Shimomura
Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Piano e Kingdom Hearts foram feitos um para o outro, e a mais curta das suítes (15 minutos de duração), contou com o solo de piano de Benyamin Nuss no seu debute ao vivo nos concertos de game music. No CD ficou mais cristalino do que nunca o som do Steinway de cauda inteira tocado maravilhosamente pelo jovem alemão.

A melancolia de “Dearly Beloved” que inaugura a suíte não se completa e é invadida pela esperança de “Sora”, tema de maior recorrência, e o destaque fica divido entre o piano límpido e o violino. Mais grandiosa é a “Hand in Hand”, que abre espaço para enfeites virtuosísticos do solista. A mesma sequência “Sora” e “Hand in Hand” se repete brevemente para dar boas-vindas à delicadeza de “Kairi”, com o piano aparecendo em momentos de pura contemplação. “Sora” aparece nas trompas para transitar ao drama de “The Other Promise” expresso pela bela participação das flautas.

Cordas anunciam o júbilo de “Happy Holidays!”, uma música que se enriqueceu com o piano em destaque. “Dearly Beloved” dá o ar de sua tristeza em versão integral graças aos violinos e mais tarde com os metais. Rapidamente a flauta entoa “Sora” e a promissora “A Fight to the Death” acabou perdendo a virtuosidade do piano no arranjo, parecendo mais uma marcha. Os metais passam rapidamente pela “Sora” e “Hand in Hand – Reprise -” confere um final admirável à suíte, com as últimas notas singelas. A despeito de não captar a alma sonora de Kingdom Hearts por inteiro, o que na verdade é meio impossível pela mistura de universos e personagens e quantidade de compositores, dá uma amostra da parte amena das músicas muito condizente com o momento do concerto e que costumava ficar acobertada pelas canções da Hikaru Utada.

03 – “Fantasy II: Secret of Mana”

Originais: “Angel’s Fear” ~ “Into the Thick of It” ~ “Eternal Recurrence” ~ “Angel’s Fear” ~ “Prophecy” ~ “Angel’s Fear” ~ “The Oracle” ~ “Phantom and a Rose” ~ “Angel’s Fear”

Composição: Hiroki Kikuta
Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Thomas Boecker e Jonne Valtonen ficaram orgulhosos com o resultado da suíte considerada por muitos como a favorita, incluindo os que não se simpatizavam com a trilha original. Uma homenagem que duvido que Hiroki Kikuta acreditou que receberia 16 anos depois do lançamento do jogo e que deixou Nobuo Uematsu com inveja: “Definitivamente amaria ouvir uma abordagem mais experimental das músicas de Final Fantasy similar ao arranjo de Secret of Mana no concerto”, em entrevista ao SEMO. Possivelmente é a que mais melhorou na versão do CD. Como faz o uso de muitos recursos de sonoridade baixa (assobios, estalos, páginas das partituras em movimento, mãos friccionadas), dá para compreender muito melhor o efeito almejado.

O som de baleia da introdução da “Angel’s Fear” ficou mais encorpado e misterioso, e os efeitos aquáticos do coral mais audíveis. O solo de violino sublime executa pela primeira vez a melodia do tema de abertura que pontua a suíte, no momento em que parece haver uma tempestade para anunciar a entrada magnânima do WDR Radio Choir Cologne. Avassalador! Primeiro apenas orquestra e depois com o coral cantando em latim.

Após a explosão da abertura, a bucólica faixa de exploração “Into the Thick of It” é lembrada na harpa para imitar o violão da original. Antes reclamava do momento em que o violino e a flauta tocavam as mesmas notas em determinado trecho, porque para mim soou estridente a combinação. Pois bem. Na mixagem do CD a flauta foi deixada em primeiro plano (4:40 a 4:52). Não tenho mais do que me queixar. Depois das encantadoras alternâncias de violino, flautas, trompetes com surdina e coral, a suíte ganha em dramaticidade no solo de flauta, e em seguida nas cordas em “Eternal Recurrence”. O coral vem para nos derrubar com uma nova lembrança de “Angel’s Fear”.

Tudo para e o silêncio predomina. A percussão, imitando o som do Flammie Drum, item que chamava o Flammie Dragon, parece bater na sua frente tamanha a presença. E com uma novidade que até então não se escutou na transmissão. O encostar dos dedos (não com o arco como é de costume numa orquestra) nas cordas dos contrabaixos, o que cria um efeito estupendo na “Prophecy”, em que o coral realiza a participação mais soberba. E “Angel’s Fear” aparece em interpretação de proporção ainda maior.

O clima se aquieta, e a bizarra “The Oracle”, quem diria, fica espetacular, mais densa com ecoar dos contrabaixos. Acalmado os ânimos, no momento em que a harpa inicia a emocional “Phantom and a Rose”, a participação do coral é uma maravilha (o “hmmm” ficou especialmente visceral pela forte presença dos graves). O mesmo que disse sobre o trecho concomitante de violino e flauta vale aqui (13:32 a 13:43). Para fechar, “Angel’s Fear” novamente, desta vez ainda mais épica com outra chuva para colocar o ponto final em tal obra-prima. Na totalidade do concerto, a suíte ficou perfeita com uma predominância etérea norteada pelo tema principal, mas não abordou a empolgação de tantas músicas energéticas e animadas do jogo.

04 – “Fantasy III: Chrono Trigger/Chrono Cross”

Originais: “A Premonition” (Chrono Trigger) ~ “Scars of Time” (Chrono Cross) ~ “Chrono Trigger” ~ “Battle with Magus” (Chrono Trigger) ~ “Scars of Time” (Chrono Cross) ~ “Peaceful Days” ~ “The Royal Trial” (Chrono Trigger)  ~ “Gale” ~ “The Brink of Death” ~ “Gale” (Chrono Cross) ~ “Battle with Magus” (Chrono Trigger) ~ “Prisoners of Fate” (Chrono Cross)  ~ “To Far Away Times” “A Premonition” (Chrono Trigger)  ~ “Scars of Time” (Chrono Cross) ~ “Battle with Magus” ~ “Frog’s Theme” (Chrono Trigger)  ~ “Scars of Time” (Chrono Cross)/“Chrono Trigger” (Chrono Trigger)

Composição: Yasunori Mitsuda
Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen e Roger Wanamo

A suíte que elegi como predileta na ocasião do concerto e melhor da série Chrono é a mais complexa, com temas emaranhados e sobrepostos de maneira engenhosa. Hoje, depois do Symphonic Legends, tenho certeza que isso se deve ao envolvimento de Roger Wanamo, arranjador finlandês em ascensão. A melhora em relação ao CD não é tão patente como nos números com coral, mas evidentemente ficou superior pela vivacidade da orquestra e da percussão de Ronny Barrak, que, aliás, considerou esta a performance mais difícil da carreira.

Logo no começo “A Premonition” se fundiu com a “Scars of Time”, que mesmo sem os instrumentos elétricos e exóticos ganhou um novo requinte com o diálogo de flauta e flautim. A transição para o tema principal “Chrono Trigger” acontece de forma tão natural que nem o Yasunori Mitsuda poderia prever, com a darbuka em destaque. “Battle with Magus”, numa aparição sutil, é usada para retardar o ritmo e emendar na “Scars of Time”, mais pausada, mais lenta, como se estivesse parando no tempo.

O dia nasce ensolarado com a alegria de “Peaceful Days”, mas logo despenca a noite com o pavor de “The Royal Trial”, que cresce de uma maneira assustadora. Depois o silêncio é quebrado pelo solo de violino de Juraj Cizmarovic no tema de combate celta “Gale”, por sua vez entremeado pelo tema de batalha contra chefes “The Brink of Death”, com a surpreendente participação dos percussionistas emitindo os gritos. A mescla se sucede de forma inacreditavelmente natural.

Em novo solo, Cizmarovic evoca “Battle with Magus” brevemente para confluir na “Prisoners of Fate”, que, com a pungência das cordas, atinge uma sublimidade que a original foi incapaz de atingir por ser sintetizada. O arranjo faz proveito de uma peculiaridade que no meio da faixa há o fim e o recomeço (1:40) – semelhante pausa inexiste na grande maioria dos temas de batalha que seguem em looping até a luta se findar. Quando volta, regressa mais forte e ainda seguida das reminiscências de “To Far Away Times” em um momento verdadeiramente emocionante. “A Premonition” e “Scars of Time” em alusões rápidas nos guiam até a “Battle with Magus”, que finalmente aparece em versão integral, e a memorável “Frog’s Theme”, com ênfase nas cordas e nos trompetes. O final é absolutamente genial, com a interpolação de “Chrono Trigger” e “Scars of Time”. Prevalece como a minha favorita: além de se enquadrar na proposta do concerto, a suíte captou com precisão a alma sonora da série.

05 – “Fantasy IV: Final Fantasy”

Originais: “Prelude” (Final Fantasy) ~ “Those Who Fight” ~ “One-Winged Angel” (Final Fantasy VII) ~ “Chocobo!” (Final Fantasy II) ~ “The Mystic Forest” (Final Fantasy VI) ~ “Clash on the Big Bridge” (Final Fantasy V) ~ “Final Fantasy” (Final Fantasy) ~ “Chocobo!” (Final Fantasy II) ~ “Bombing Mission” (Final Fantasy VII) ~ “Final Fantasy” (Final Fantasy)

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Não fosse o suficiente o desafio de selecionar algumas das mais representativas faixas dentre as 500 músicas à disposição de tantos estilos diferentes, ainda por cima vagava o fantasma do principal arranjador dos concertos de Final Fantasy. “Os maravilhosos arranjos de Shiro Hamaguchi deve ser mencionados aqui também – arranjos que colocam muita pressão em outro arranjador que tente trabalhar com a série”, afirma Thomas Boecker ao SEMO.

A icônica “Prelude” começa na harpa como não se poderia imaginar diferente com a sagrada presença do coral. É de causar espasmo como surge a “Those Who Fight”, muito porque não foi anunciada previamente: a pompa em latim da “One-Winged Angel” foi transferida para o tema convencional de batalha. Além disso, a harmonia dos naipes de vozes do WDR Radio Choir Cologne pode ser contemplada muito melhor, graças aos tenores e baixos colocados em relevo na mixagem do CD.

Disse que a “One-Winged Angel” não aparecia. A música é tão persistente que acabou sendo lembrada em alguns segundos, o que felizmente não passou de uma piada para combinar com a diversão provocada por “Chocobo!”. Na sequência, vem a misteriosa “The Mystic Forest” que difere das selecionadas, fugindo da preponderância de temas grandiosos. Novamente o coral rouba a cena, e não me canso de salientar o quão incrível ficou o contrabaixo ao fundo.

A melodia alucinante de “Clash on the Big Bridge”, que a torna uma faixa difícil de ser traduzida pela orquestra (o que talvez explique a demora para tal acontecimento), foi reproduzida de maneira muito fiel, embora evidentemente não tão rápida, com a ajuda mais uma vez do coro. O tema principal “Final Fantasy” é invocado em grande escala, mas o tema dos Chocobos, pelo menos aqui, conseguiu superar a persistência da “One-Winged Angel”, para aparecer pela segunda oportunidade. Repetição dispensável, mesmo que breve, já que a “Chocobo!”, apesar de icônica, cansa em pouco tempo e não fez o papel de faixa de transição como “Sora” ou “Battle With Magus” nas suítes anteriores.

“Bombing Mission” então é evocada na mais faustosa versão já arranjada, graças à combinação indefectível FFVII mais coral em latim. Breve parêntesis: ouvindo o CD reparei em um segredo que não mencionei antes – em 12:52 as trombas fazem uma sutil referência ao tema dos Chocobos (de novo, pois é). Para concluir a suíte e o concerto (ao menos no CD), “Final Fantasy” enfim surge em toda a magnitude com o aditivo do coral, encerrando com exaltação máxima ao utilizar as mesmas notas do começo da “Fanfare Overture”, dando a ideia de uma obra cíclica e contínua – seria uma referência à vontade de ouvir tudo de novo?

Embora o conceito de suíte não tenha funcionado com o mesmo êxito dos demais números, acredito que pela diversidade de estilos e variedade de jogos de Final Fantasy (isso que a seleção se limitou do FFI ao FFVII e pulou FFIII e FFIV), possui transições finas e excertos fantásticos, dentre as quais jamais esquecerei do chofre causado pela “Those Who Fight”, e pode servir como um protótipo para futuras experiências. “Podemos tentar uma abordagem mais experimental, no caso de arranjarmos as músicas de Final Fantasy de novo”, comentou Thomas Boecker ao SEMO. Suponho que uma dessas ocasiões seja o Symphonic Odysseys que homenageará a carreira de Nobuo Uematsu, e Final Fantasy é uma parte considerável dela. Acredito que funcionaria melhor se a suíte fosse enfocada em um jogo da série, e de cara penso em FFIV.

Sinfonia suprema

Por ocasião do concerto escrevi: “Apesar de todas as músicas já estarem à disposição, o lançamento de CD (…) é muito bem-vindo”. Um ano depois é lançado o registro em áudio mais do que perfeito para consagrar uma longa jornada que tem tudo para também fazer sucesso no Japão com uma gravação impecável que demonstra o apuro da produção. Mais do que celebrar quatro afamadas séries da Square Enix de forma previsível, que seria selecionar apenas as favoritas do público com arranjos baseados nas originais, apresentou um novo formato ambicioso pouco aproveitado pelos concertos de game music. As suítes duradouras não cansam mesmo após sucessivas vezes, e partir em busca de segredos e outras minúcias nos fazem reviver com satisfação os momentos inesquecíveis das adoráveis fantasias.

Agradecido ao Thomas Boecker pela atenção e suporte.

Disponível em:
Edição alemã: Maz Sound, Amazon.
Edição japonesa: CD Japan, Play-Asia.

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11 Responses to “Symphonic Fantasies: as fantasias reais eternizadas em um CD imaculado”


  1. 1 DGC 29/09/2010 às 7:59 pm

    Caro Alexei, ficou (na falta de uma palavra melhor) verdadeiramente sublime agora!
    Nem há comparação.

    E isso ainda escutando pelo goear, majestoso!

  2. 2 Erika 01/10/2010 às 2:28 pm

    Esse concerto é maravilhoso! De todos o melhor que ja vi para esse tema! Esse CD é um Must Have! Definitivamente!

  3. 3 Alexei Barros 01/10/2010 às 9:04 pm

    @ DGC

    É bem patente a melhora da versão do álbum. Eu pensei que não fosse ser tão grande a diferença, já que o CD do Symphonic Shades é superior à transmissão do rádio mas não tanto como aqui. Não tem mais por onde melhorar.

    @ Erika

    Fico feliz que você tenha se animado a comprar o CD antes mesmo deste review, Erika, ainda quando falei sobre o concerto. :D

  4. 4 Radical Dreamer 02/10/2010 às 11:38 am

    Excelente post, Alexei! Muito bem detalhado e excelente para qualquer um que não tenha conhecimento de game music.

    Quando você diz que a “A Fight to the Death” “acabou perdendo a virtuosidade do piano no arranjo, parecendo mais uma marcha”, tive que concordar. Não sei se para você isso foi bom ou ruim, mas para mim foi a única decepção em termos de qualidade de arranjo. Ainda em relação à suíte do Kingdom Hearts, foi dito que ela não captou por inteiro a alma da série graças ao grande número de compositores. Aqui há referência a que compositores?

    Nossa, é mesmo o som do Flammie Drum! Só joguei o Secret of Mana uma vez, e já faz um tempo, então nem lembrava desse detalhe. Se a Secret of Mana já era a minha favorita pela criatividade e capacidade de contar uma história, com o Flammie Drum e a “Prophecy” logo em seguida acredito ainda mais que essa vai continuar sendo minha opinião.

    Quem sabe um dia teremos uma suíte de Final Fantasy mais experimental como as outras três? Eu tinha pensado que, já que cada Final Fantasy conta uma história própria com personagens próprios, é meio complicado intercalar, por exemplo, a “Bombing Mission” com a “The Mystic Forest” como se houvesse alguma relação entre elas, da mesma forma como há com os temas principais dos Chronos e com “Sora” e “Hand in Hand”. Concordo que uma suíte de um Final Fantasy antigo, como o IV ou o VI, seria demais, além de ser uma das vontades do Nobuo Uematsu. Viajando um pouco, quem sabe teremos um Poema Sinfônico de um desses Final Fantasies no Symphonic Odysseys? Ah, e duas vezes o tema dos Chocobos é desperdício de tempo e oportunidade, dava até para colocar outra música no meio; já que é uma suíte mais convencional mesmo, caberia quase qualquer música.

    • 5 Alexei Barros 02/10/2010 às 12:43 pm

      Valeu, Radical Dreamer!

      Acredito que a “A Fight to the Death” acabou ficando descaracterizada porque, aquela parte virtuosística do piano (que a torna tão fantástica, aliás) acabaria ficando muito pesada para uma suíte de abertura, em que se imagina algo mais suave. Por exemplo, não daria para ter a “Destati” logo de cara, porque é o tipo de música que se imagina mais comumente para o final. Ah, sim, quando me referi à grande quantidade de compositores, pensei nos autores das trilhas animações da Disney, como Hans Zimmer, Danny Elfman e toda aquela galera – não que quiséssemos ouvir músicas deles em performances de Kingdom Hearts, claro. Mas acho que os temas da Hikaru Utada, seja cantados ou nas maravilhosas versões do Kaoru Wada, são muito marcantes, e é difícil escapar deles quando se quer fazer um arranjo da série – veja pelo PLAY! e pelo Press Start 2007.

      Quem me chamou a atenção desse detalhe da Flammie Drum foi justamente o Thomas na ocasião do concerto. Eu terminei o Secret of Mana em 2005 se não me engano, mas também não lembrei disso na hora. Todavia, a “Prophecy” é o segundo tema de voo se não me falhe a memória. O primeiro é o “Flight Into the Unknown”, que acho uma das melhores faixas do jogo e se enquadra na categoria de músicas mais animadas que acabaram sendo omitidas.

      “Ah, e duas vezes o tema dos Chocobos é desperdício de tempo e oportunidade, dava até para colocar outra música no meio; já que é uma suíte mais convencional mesmo, caberia quase qualquer música.”

      Confesso que, apesar de não ter escrito, eu pensei exatamente a mesma coisa! Acredito que a ideia inicial não era fazer um medley comum, mas uma suíte, só que acabou não se desenvolvendo como eles imaginavam. Tanta música (mais de 500, afinal de contas) que podia colocar ali em vez do tema da série e da segunda repetição o tema dos Chocobos. Perfeito o que você falou sobre a relação de faixas, muito difícil de estabelecer a relação entre elas.

      Com certeza no Symphonic Odysseys veremos Final Fantasy mais experimental pelo que se viu nas declarações do Thomas Boecker e do Nobuo Uematsu. Se não um Poema Sinfônico, o que seria bastante ousado, uma suíte com certeza. Ainda que o FFVI tenha a minha trilha favorita, acredito que daria para fazer uma bela suíte com FFIV – já começo a imaginar a “Red Wings” com coral…

  5. 6 Radical Dreamer 02/10/2010 às 2:02 pm

    Se essa idéia de abrir o concerto de forma mais leve foi a responsável por essa versão descaracterizada da “A Fight to the Death”, então é realmente uma pena, pois na verdade ela está na final da suíte e não faria mal algum levá-la ao nível épico da original.

    Ah, agora entendi a menção aos compositores. No começo tinha pensado neles, mas achei que não era porque na verdade são poucos os arranjos nas trilhas originais (apenas cinco no primeiro e sete no segundo jogo), de forma que toda vez que me recordo do universo musical de Kingdom Hearts, lembro quase sempre apenas das composições de Yoko Shimomura. São tantas as músicas dela (ainda mais agora com a trilha excelente do Birth by Sleep) que não me incomodaria nem um pouco se fizessem um segundo movimento para o Concerto para Piano do Kingdom Hearts…

    E “Red Wings” com “The Dreadful Fight” no coral seria para matar qualquer um.

    • 7 Alexei Barros 02/10/2010 às 6:27 pm

      Apenas uma suposição do que li e acompanhei do concerto, nem tanto pela “A Fight to Death” ser lembrada mais próxima do final do segmento, mas sim porque a suíte do Kingdom Hearts está no começo do concerto. Por exemplo, se a suíte do KH fosse a terceira ou a quarta, comparando com o que tivemos de Chrono e Final Fantasy, consigo imaginar mais facilmente um concerto para piano.

      Valeu pelos detalhes da quantidade de faixas, não sabia. Até pensei que fossem mais músicas. Concordo com o que você disse também. A principal responsável pela identidade musical da série é a Yoko Shimomura, por mais que sejam icônicos os temas da Hikari Utada.

      “E “Red Wings” com “The Dreadful Fight” no coral seria para matar qualquer um.” (2)

  6. 8 Radical Dreamer 13/11/2010 às 10:09 am

    Só de curiosidade, a página do Facebook dos concertos de Thomas Boecker foi atualizada com uma artwork de Yasunori Mitsuda, Yoko Shimomura, Hiroki Kikuta e Nobuo Uematsu em uma floresta do mundo de Secret of Mana. Ficou muito legal, como sempre acho quando os compositores estão juntos.

    Agora só falta um RPG à la Final Fantasy com os quatro como protagonistas. O especial de Shimomura tem que se chamar “Dearly Beloved” e o de Uematsu “One Winged Angel” XD

    • 9 Alexei Barros 13/11/2010 às 10:46 am

      Vi agora… sensacional a artwork! Valeu pela dica.

      E o especial do Kikuta “Angel’s Fear”, claro, só na dúvida pelo ataque do Mitsuda, provavelmente “Scars of Time”. =P


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