O fim dos Black Mages


Por Alexei Barros

Há alguns anos me decepcionei quando conheci a maioria das bandas das produtoras, como Kukeiha Club, S.S.T. Band, Gamadelic, Zuntata, Alph Lyra e outras, ao saber que nem existiam mais, e começaram e terminaram sem que soubesse na época. Com The Black Mages foi diferente, porque deu para acompanhar atentamente boa parte da trajetória que se encerra em 2010.

Isso mesmo, em recente entrevista ao programa de rádio NHK FM Housou’s Kyou ha Ichinici Game Ongaku Zanmai, Nobuo Uematsu comunicou o término das atividades da banda. O motivo para o encerramento ainda carece de confirmação, mas desde a gravação do terceiro álbum, The Black Mages III Darkness and Starlight, estava evidente a dificuldade de reunir os integrantes, tanto que as reuniões começavam à noite. Além das atividades normais de cada membro, complicou a mudança de Tsuyoshi Sekito para Osaka e os compromissos acadêmicos de Kenichiro Fukui – os dois são os principais cérebros dos Black Mages.

Todavia, não pense que Uematsu desistiu da ideia de tocar hard rock ao vivo. A banda Earthbound Papas, que estreou na versão da “Dancing Mad” no Distant Worlds II: more music from Final Fantasy foi formada como sucessora espiritual dos Black Mages, tal qual a [H.] é para a S.S.T. Band, ou a jdk Band para a J.D.K. Band. Só gostaria de saber quem são, afinal, os integrantes, porque até o momento não foram revelados.

Momento apropriado para relembrar a história e os principais trabalhos dos sete anos da banda que representa ao lado de OCRemix, Video Games Live e mais alguma coisa o supra-sumo da game music casual. Ou seja, alguém com o mínimo interesse por músicas de jogos conhece pelo menos de nome. É o poder de Final Fantasy. É o poder do rock. Quando os dois se misturam então…

O guitarrista Tsuyoshi Sekito começou a adaptar temas de batalha da série em 2002 para o rock com o auxílio de Kenichiro Fukui. Como o resultado ficou interessante, decidiram mostrar para o próprio Uematsu, que na época ainda ensaiava uma predileção por composições voltadas para o estilo, como “Those Who Fight Further” (FFVII) e principalmente “Otherworld” (FFX). Uma faceta que hoje é muito mais evidente pelas faixas pesadas de Blue Dragon, Lost Odyssey e Lord of Vermilion. O diretor de publicidade da Square, Michio Okamiya, que tocava guitarra por hobby, também gostou, facilitando a realização do álbum de debute intitulado simplesmente The Black Mages, em alusão à classe de personagens. As analogias à cerveja de cada álbum foram feitas por Uematsu em entrevista ao extinto site Music 4 Games, portanto não estranhe.

The Black Mages (2003): “Cerveja feita em casa.”

Na gravação do disco a banda não estava completa. Somente Sekito e Fukui, que arranjaram as faixas, tocaram instrumentos – o primeiro guitarra e o outro teclado e sintetizador. Baixo e bateria eram simulados. Como todas as escolhidas eram temas de combate, o álbum abre e fecha com a uma vibração parecida ao longo da seleção de dez músicas, que inclui hits como “Clash on the Big Bridge”, “Those Who Fight Further” e “Dancing Mad” em versão arrebatadora de 12 minutos.

A banda não queria ser apenas de estúdio, e realizou shows em 26 e 27 abril de 2003, no Shibuya-AX, Tóquio, introduzindo quatro instrumentistas à dupla na formação que resistiria até o final: Okamiya assumiu a segunda guitarra, o diretor de publicidade e propaganda do PlayOnline, Arata Hanyuda, ficou na bateria, o operador de sintetizador, Keiji Kawamori, no baixo, e finalmente o compositor das músicas, Nobuo Uematsu, no órgão. O conteúdo das duas apresentações daquele mês então originou o The Black Mages Live DVD, que, além da dez faixas do primeiro CD, adiantava a “Matoya’s Cave” do próximo disco.

Antes, porém, a banda fez o primeiro e infelizmente o único arranjo não relacionado com Final Fantasy, a “Demon of Flames Monster Guiltoni” do álbum Dark Chronicle Premium Arrange, com releituras de grandes nomes da game music, como Yasunori Mitsuda, Yoko Shimomura e Motoi Sakuraba do Dark Cloud 2. Já era um trabalho mais maturado.

The Black Mages II The Skies Above (2004): “Deixar que meus amigos tomem a minha cerveja caseira.”

Agora com todos os integrantes, os Black Mages ousaram mais, abrindo o leque para músicas que não temas de batalha. A supracitada “Matoya’s Cave” é testemunho disso por apresentar, pelo menos no início, a veia acústica graças ao uso do violão. Além disso, havia duas faixas cantadas. “Otherworld”, é praticamente idêntica à original, se não fosse pela substituição de Bill Muir pela Kazuko Hamano (a KAZCO), tornando a canção bem menos áspera e mais agradável de ouvir por conta do vocal feminino. Em compensação, a outra, a faixa-título, “The Skies Above”, ficou uma das coisas mais asquerosas com a atuação de Tomoaki “mr. goo” Watanabe. Também estreou uma composição original, a empolgante “Blue Blast – Winning the Rainbow”, que é o tema do lutador de luta-livre Takehiro Murahama. Nos arranjos, além de Sekito e Fukui, Okamiya adaptou duas faixas: a mencionada “Otherworld” e a “Maybe I’m a Lion”. Embora nem sempre elogiado pelos sites de game music, é o meu CD preferido da trilogia, e acredito que a primeira (e única) aparição das músicas de FFIV é a principal responsável dentre o total de 11.

A banda passou a ser mais frequente nas apresentações ao vivo com o set list baseado nos dois álbuns, sendo que os shows nos dias 22 e 23 de janeiro de 2005 no Club City em Kanagawa foram publicados no DVD The Black Mages Live “Above the Sky”. Há de se lamentar pelo espetáculo feito dia 28 do mesmo mês no Namba Hatch em Osaka que não foi registrado. Naquela ocasião, um convidado tocou violão na “Matoya’s Cave”: ninguém menos do que Motoaki Furukawa, o guitarrista da Kukeiha Club que conhecia Fukui e Sekito dos tempos de Konami.

O repertório ainda recebeu um reforço, praticamente uma praga. Mentira, uma maldição. Ainda que somente três integrantes tenham participado da gravação da “Advent: One-Winged Angel” para o Final Fantasy VII Advent Children – Kawamori, Sekito e Fukui, o arranjador –, a música foi adotada pelos Black Mages, e executada na companhia de diferentes orquestras em concertos como o More Friends (2005), Voices (2006) e Press Start 2007 (em Yokohama). Depois disso, na Final Fantasy III Original Soundtrack a banda enxertou como bônus a “The Final Battle -The Black Mages Ver.-”.

The Black Mages III Darkness and Starlight (2008): “Finalmente nós começamos a vender a nossa cerveja caseira em lojas.”

Uematsu anunciou o terceiro álbum para o final de 2006, e prometia mostrar mais ambição que o anterior, pois seria duplo, o primeiro com os arranjos de Final Fantasy e o outro com a representação de antigos contos folclóricos em termos de música, como dito por ele em entrevista ao site g-wie-gorilla.de. Dois anos depois, em março de 2008, o terceiro álbum finalmente saiu, mas sem o segundo disco. Desta vez, todos os integrantes, menos Uematsu, participaram dos arranjos, contando com as estreias de Kawamori e Hanyuda na função. A seleção de faixas não foi das mais felizes, problema que se agravou pelas releituras desinteressantes e pouco inspiradas. Uma das exceções é a “Distant Worlds”, em encantador arranjo instrumental, que é uma bem-vinda tranquilidade em meio à violência das guitarras.

Entretanto, a faixa-título “Darkness and Starlight”, de 15 minutos, foi o trabalho mais arrojado da banda, incluindo um excerto inédito, que nem sequer esteve presente no Final Fantasy VI. O trio de cantores Etsuyo Ota, Tomoaki Watanabe e Tetsuya Odagawa interpretaram a magnânima ópera que contou até com a participação de integrantes dos Black Mages como coristas. Seria perfeita se não fosse pela narração…

A bem da verdade, o álbum possui oito faixas, não dez. A “KURAYAMINOKUMO” nada mais é que a “The Final Battle -The Black Mages Ver.-” renomeada, e a “LIFE ~ in memory of KEITEN ~”, é um solo de piano de um minuto e meio feito em homenagem a Yoshitaka Tagawa (em kanji, o seu nome pode ser lido como Keiten), fã de Uematsu e Final Fantasy que morreu de leucemia aos 22 anos de idade.

O último produto relacionado à banda foi lançado em 31 de março de 2009, o DVD The Black Mages III Darkness and Starlight Live, que trazia a gravação do show feito em 9 de agosto no Yokohama Blitz e contou até com a encenação da ópera. E os Black Mages findaram sem que arranjassem músicas como “The Fierce Battle” (FFVI),  “Those Who Fight” (FFVII), “Liberi Fatali” (FFVIII) e “Messenger of Destruction” (FFIX). Na expectativa pelo Earthbound Papas.

Para terminar, compilei a relação de arranjos por jogo ladeada pela lista de originais, visto que muitas tiveram novos títulos. Ainda tento compreender toda a fascinação por FFVIII, o único a aparecer nos três álbuns. Curioso o FFVI e IX também terem terminado na frente do FFVII, levando em conta a popularidade assustadora do sétimo capítulo.

Final Fantasy VIII: 5
“Force Your Way” (BM) – “Force Your Way”
“The Man with the Machine Gun” (BM II) – “The Man with the Machine Gun”
“Maybe I’m a Lion” (BM II) – “Maybe I’m a Lion”
“The Extreme” (BM III) – “The Extreme”
“Premonition” (BM III) – “Premonition”

Final Fantasy VI: 4

“The Decisive Battle” (BM) – “The Decisive Battle”
“Battle Theme” (BM) – “Battle Theme”
“Dancing Mad” (BM) – “Dancing Mad”
“Darkness and Starlight” (BM III) –  “Overture” ~ “Aria Di Mezzo Carattere” ~ “The Wedding Waltz ~Duel” ~ “Aria Di Mezzo Carattere”

Final Fantasy IX: 4
“Vamo’ Alla Flamenco” (BM II) – “Vamo’ Alla Flamenco”
“Hunter’s Chance” (BM II) – “Hunter Chance”
“Assault of the Silver Dragons” (BM III) – “Assault of the Silver Dragons”
“Grand Cross” (BM III) – “The Final Battle”

Final Fantasy VII: 3
“J-E-N-O-V-A” (BM) – “J-E-N-O-V-A”
“Those Who Fight Further” (BM) – “Those Who Fight Further”
“Opening ~ Bombing Mission” (BM III) – “Opening ~ Bombing Mission”

Final Fantasy X: 3
“Fight With Seymour” (BM) – “Seymour Battle”
“Otherworld” (BM II) – “Otherworld”
“The Skies Above” (BM II) – “At Zanarkand”

Final Fantasy: 2
–  “Battle Scene” (BM) – “Battle Scene”
“Matoya’s Cave” (BM II) – “Matoya’s Cave”

Final Fantasy III: 2
“The Rocking Grounds” (BM II) – “Battle 1”
“KURAYAMINOKUMO” (BM III) – “This is the Last Battle”

Final Fantasy IV: 2
“Zeromus” (BM II) – “The Final Battle”
“Battle with the Four Fiends” (BM II) – “The Dreadful Fight”

Final Fantasy V: 2
“Clash on the Big Bridge” (BM) – “Clash on the Big Bridge”
“Neo EXDEATH” (BM III) –  “The Last Battle”

Final Fantasy II: 1
–  “Battle Scene II” (BM) – “Battle Scene 2”

Final Fantasy XI: 1
“Distant Worlds” (BM III) – “Distant Worlds”

Composição original:
“Blue Blast – Winning the Rainbow” (BM II)

[via SEMO]

17 Responses to “O fim dos Black Mages”


  1. 1 aglio 10/08/2010 às 5:19 pm

    Triste. Por mais que eles mudem o nome do grupo, não há nada mais legal do que espalhar por aí que está ouvindo “Black Mages”. No mais, aguardo ansiosamente Liberi Fatali e alguns temas de Overworld.

  2. 2 Orakio "O Gagá" Rob 10/08/2010 às 5:30 pm

    Alexei, meu velho, se eu tivesse grana eu juro que PAGAVA para você fazer esses posts… show de bola, foi um ótimo resumo da carreira da banda.

  3. 3 Radical Dreamer 10/08/2010 às 6:15 pm

    “Curioso o FFVII e IX também terem terminado na frente do FFVII”. Só tem um errinho aí…

    Excelente post! Fiquei triste com o fim da banda. Aguardava um Black Mages IV ou qualquer coisa do tipo. O terceiro é simplesmente maravilhoso, uma obra de arte. Músicas como “Darkness and Starlight”, “Distant Worlds” e “The Extreme” são tão poderosas que espero que o Earthbound Papas consiga capturar a mesma magia.

  4. 4 Alexei Barros 10/08/2010 às 6:53 pm

    @ aglio

    Ah, sim, mas a mudança não deve ser só de nomes, como de integrantes também. Suspeito que o Michio Okamiya participe do Earthbound Papas, visto que ele tocou guitarra na trilha do Lord of Vermilion sob o pseudônimo Kimio Itoyama. E curioso terem selecionado 5 faixas do FFVIII, e nenhuma delas ser a “Liberi Fatali”.

    @ Orakio

    Não seja por isso, o meu número de conta é… =D

    Valeu, Orakio, mas fazendo justiça, grande parte das informações eu pesquisei no SEMO e no site francês The Black Mages @ SQUAREMUSIC, que é sensacional.

    @ Radical Dreamer

    Opa, valeu pelo toque. Como desculpa vou falar que estava bitolado pelo FFVII. =P

    Confesso que não vinha curtindo tanto a banda como em outros tempos, mas gostaria que fosse feito o Black Mages IV, nem que fosse para ser um álbum de despedida.

    Revelo também que ao contrário de muitos, não curti tanto o Darkness and Starlight como comentei no texto. Ainda gosto mais do primeiro do que deste, sendo o segundo o favorito. Todavia, deixo registrado o meu apreço pela “Neo EXDEATH” além das que você mencionou.

  5. 5 Orakio "O Gagá" Rob 10/08/2010 às 7:03 pm

    “Valeu, Orakio, mas fazendo justiça, grande parte das informações eu pesquisei no SEMO e no site francês The Black Mages @ SQUAREMUSIC, que é sensacional.”

    Ter boas fontes e saber organizar as informações também são grandes qualidade, meu caro…

  6. 7 Wesley Pires 17/08/2010 às 3:40 pm

    Caramba, fazia um tempo curto que não comentava aqui no Hadouken, mas depois desta noticia bombástica (Datena ” ME DÁ IBAGENS, EU QUERO IBAGENS!!!”) não tive como deixar de comentar. A banda é uma das responsaveis pelo meu apreço ao cenário rock de game music, principalmente por adaptarem musicas de uma das minhas franquias favoritas.
    Acho que aconteceu o inevitável quando não há tempo para encontros da banda, o desfalecimento da mesma. É realmente uma pena, mas espero sonceramente que continuem fazendo bons arranjos de game music, não importa o nome da banda.

  7. 8 Lia 24/08/2010 às 7:44 pm

    Não sabia que o Nobuo não tinha participado dos arranjos, mas também achei o terceiro bem ruinzinho, salvo Distant Worlds e Bombing Mission.
    No geral, a qualidade e o repertório da banda foram muito bons. Sempre tem uma ou outra escorregada.
    Que venham Earthbound Papas, espero que eles tenham uma sadia ousadia (que um dia resulte em Black Mages Village =P).

  8. 10 Thiago 27/08/2010 às 12:51 am

    Uma pena!!

    Na minha opinião eu considero o Black Mages uma banda de metal progressivo aqueles solos de teclado do Nobuo não podem ser considerados como hardrock..mas vai do julgamento de cada um.

    Grande abraço e parabéns pelo Blog!

    • 11 Alexei Barros 27/08/2010 às 2:08 am

      Valeu mais uma vez, Thiago.

      Sempre me perco entre as definições de gênero, ainda mais o rock, com todos as subdivisões. No caso dos Black Mages, eu acredito que vai de música para música, visto que é possível encontrar também ópera rock e rock sinfônico entre os gêneros que a banda utilizava nas adaptações.

  9. 12 mcs 02/09/2010 às 12:03 am

    Infelizmente conheci tarde demais todas estas bandas, e agora tenho que garimpar informações sobre elas.

    Outro grande post!

    • 13 Alexei Barros 02/09/2010 às 12:08 am

      Valeu, mcs! Como disse na introdução também lamento, mas acho que não haveria muito como acompanhar sem internet…

      Quando tomei conhecimento destas bandas, por volta de 2006, era tremendamente difícil, e hoje creio que a situação melhorou muito com o advento do VGMdb. De todas, a Alph Lyra, mesmo sendo de uma produtora famosa como a Capcom, é sem dúvidas a mais difícil de saber datas de formação e encerramento, integrantes etc.


  1. 1 Tweets that mention O fim dos Black Mages « Hadouken -- Topsy.com Trackback em 10/08/2010 às 5:00 pm
  2. 2 Shinzo Kukaigi 5: a estreia ao vivo da Earthbound Papas e mais dois pianistas « Hadouken Trackback em 23/09/2010 às 2:15 am
  3. 3 Falcom vs. jdk Band 2010 Summer: as quatro estações em um só verão « Hadouken Trackback em 25/10/2010 às 1:21 am
  4. 4 Octave Theory, o álbum de estreia da Earthbound Papas « Hadouken Trackback em 10/02/2011 às 12:33 am

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