Se é para vir que venha

Calling All Dawns
Por Alexei Barros

Muitos compositores de games não se contentam em seguir somente as ordenanças dos produtores e se libertam ao publicar álbuns solo com músicas que não precisam acompanhar as cenas de jogo. A lista é extensa dos que se aventuraram: Nobuo Uematsu, Motoi Sakuraba, Motoaki Furukawa, Hiroki Kikuta, Yoko Shimomura, Yasunori Mitsuda, Noriyuki Iwadare, Akira Yamaoka, Norihiko Hibino, Kenji Ito, Chris Huelsbeck, Takayuki Aihara… Um monte.

O próximo a engrossar a relação é o americano de ascendência chinesa Christopher Tin, também compositor de filmes e comerciais. Quem diria, ele já visitou o Hadouken para conhecer a fantástica performance com bateria e baixo elétrico da “Baba Yetu” (Civilization IV) no concerto holandês Games in Concert 3.

Precisamente o tema do menu do jogo de estratégia encabeça as 12 faixas do seu primeiro CD solo Calling All Dawns. Cada uma é cantada em um idioma diferente: suaíli, japonês, mandarim, francês, latim, irlandês, polonês, hebraico, persa (desconhecia a existência), sânscrito, maori e… português! Assim como Noriyuki Iwadare no Grandia II (“A Deus” e “Canção do povo”), Tin compôs uma música para ser cantada no idioma lusitano.

Lusitano entenda português de Portugal. A intérprete de “Se É Pra Vir Que Venha” é a cantora de fado portuguesa Dulce Pontes. Os bucólicos e libertários versos escritos pela poetisa brasileira Patrícia Magalhães que se escuta no sample: “Vou cercar meu gado / Vou deitar no pasto / Vou roubar a cena / Vou sorrir sem pena / Sem puxar as rédeas / Sem seguir as regras / Sem pesar ou ânsia / Sem errar a dança / Se é para vir que venha”.

Christopher TinAlém dela, há as participações especiais do coral Soweto Gospel Choir, do quarteto americano de vocais femininos Anonymous 4, da cantora de ópera americana Frederica von Stade, da iraniana Sussan Deyhim, da chinesa Jia Ruhan e do trio de japonesas Aoi Tada, Kaori Omura e Lia. Todas as músicas são orquestradas e foram gravadas no lendário Abbey Road Studios com performance da britânica Royal Philharmonic Orchestra, que já tocou nas trilhas de Arc the Lad, Suikoden V (“Wind of Phantom”) e Final Fantasy XII (Symphonic Poem “Hope”).

As músicas foram compostas de forma a seguir uma narrativa de três partes – dia, noite e alvorada, representando a vida, a morte e o renascimento –, para serem escutadas de maneira contínua. Cada canção, com letras que passam mensagens relacionadas com cultura e religião, flui naturalmente na outra sem interrupções e a última acaba com o mesmo acorde da primeira, representando a natureza cíclica da vida. Genial o conceito.

O álbum poliglota está à venda no site oficial do Christopher Tin por 15 dólares e será publicado no dia 1º de outubro. Quem comprou pelo sistema de pré-venda não precisa nem esperar o CD chegar pelo correio, porque receberá no dia do lançamento um e-mail com link para baixar todas as músicas.

Também na página é possível escutar os samples de todas as canções desta Torre de Babel auditiva anexadas no Soundcloud no final do post. Sei que muita gente não vai apreciar o estilo world music, achará as músicas chatas ou insípidas, mas há canções belíssimas, como a própria “Se É Pra Vir Que Venha”. Porém,  não gostei muito do sample que está aí embaixo, que é o que imagino estar no CD: o vocal é moroso e cansativo. A que apreciei é a amostra publicada no LakeHouse Sound, que não é a mesma. Cantada pela americana Jen Shyu, a voz  flui mais naturalmente, sem carregar as palavras como na outra. Mais bizarro, no verso “Sem pesar ou ânsia” da versão arrastada ouço claramente “Sem fisgar ou ansiar” na mais suave. Até coloquei no Goear o sample do “Se É Pra Vir Que Venha” para facilitar a comparação com a outra lá embaixo.

E tudo começou (e recomeçou) com a “Baba Yetu”

Track list:

Parte I: All Days Return
01 – “Baba Yetu” (suaíli)
02 – “Mado Kara Mieru” (japonês)
03 – “Dao Zai Fan Ye” (mandarim)
04 – “Se É Pra Vir Que Venha” (português)
05 – “Rassemblons-Nous” (francês)

Parte II: Against the Night
06 – “Lux Aeterna” (latim)
07 – “Caoineadh” (irlandês)
08 – “Hymn Do Trójcy Swietej” (polonês)

Parte III: Calling All Dawns
09 – “Vayehi-Or” (hebraico)
10 – “Hamsáfár” (persa)
11 – “Sukla – Irsne” (sânscrito)
12 – “Kia Hora Te Marino” (maori)

[via OSV, Christopher Tin, LakeHouse Sound]

12 Responses to “Se é para vir que venha”


  1. 1 ANTIDEUS 12/09/2009 às 3:30 am

    Que espantosa coincidência! Esses dias pensei sobre músicas de video game que não eram cantadas nem em inglês nem em japonês: na hora só lembrei das músicas do Grandia II em português, que fiquei sabendo através da EGM, e da “Dis-moi Donc que tu es à Moi” do Conker: Live and Reloaded.

    Bom, não sou mto fã de world music também, mas gostei do que ouvi. Baba Yetu já tinha ouvido no VGL e Rassemblons-Nous é uma das que mais gostei. E também prefiro a versão alternativa de “Se É Pra Vir Que Venha”.

    Mudando de assunto, a Lumi do Genki Rockets fez aniversário ontem, na famigerada data 11/9 . Conheci a banda graças a vocês (Hadoukast #02).

  2. 2 Kitsune 12/09/2009 às 5:31 am

    Bom, não conheço muitas músicas relacionadas á VG que sejam cantadas em português, seja de portugal ou não. Até porque não deve ter tantas assim.

    Fora as supracitadas do Grandia II. Só me recordo daquelas nos álbums Final Fantasy Vocal Collections I Pray (“Esperança do Amor” e “Nao Chora Menina”) e Final Fantasy Vocal Collections II Love Will Grow (“Estrelas” e “Eternal Wind”).

  3. 3 Alexei Barros 12/09/2009 às 1:28 pm

    @ Émerson

    Acho que depois do japonês e inglês, a língua mais usada é o latim, e não só as mais conhecidas “One-Winged Angel” e “Liberi Fatali” do Nobuo Uematsu, que ainda fez a “The Seal is Broken” (Blue Dragon) e a “Seth’s Theme” (Lost Odyssey). Tem também várias do Keiki Kobayashi: “Rex Tremendae”, “Megalith ~ Agnus Dei” (Ace Combat 04, “The Unsung War” (Ace Combat 5), “Zero” (Ace Combat Zero: The Belkan War) e “Chandelier” (Ace Combat 6: Fires of Liberation).

    Uma canção que foge de todos esses padrões é a “The Best Is Yet To Come” do Metal Gear Solid, cantada no idioma gaélico. Essa “Dis-moi Donc que tu es a Moi” do Conker Live & Reloaded eu confesso que não conhecia. Mais incrível, ela é cantada pela Eveline Novakovic, que participou da trilha do Donkey Kong Country (ela quem compôs a “Simian Segue”, ainda creditada com o nome de solteira Eveline Fischer).

    Nossa, até tinha me esquecido da Lumi, e espero que ela apareça de alguma forma no No More Heroes 2.

    @ Kitsune

    Coincidentemente, Kitsune, antes de escrever esse post eu lembrei dessa história, porque de maneira vergonhosa jamais havia ouvido a “Esperança Do Amor”, “Não Chora Menina”, “Eternal Wind” e “Estrelas”. Para mim fica muito clara a referência ao Brasil nessas músicas e não a Portugal, já que todas puxam, de maneira bem agradável, para a bossa nova, ritmo tipicamente nacional, e não o tradicional fado. Imagino que o letrista Claudio Ramos seja brasileiro inclusive.

  4. 4 ana 12/09/2009 às 2:07 pm

    A versão de “Se é pra vir que venha que aparece no LakeHouse Sound não é com Dulce Pontes, mas sim a cantora e compositora americana Jen Shyu. A letra da canção é de uma poeta brasileira contemporânea de nome Patrícia Magalhães.

  5. 5 Alexei Barros 12/09/2009 às 2:12 pm

    Ana, extremamente agradecido pelas informações complementares. Já fiz as correções adequadas. Bem que eu estava achando que os timbres das vozes estavam diferentes… Como disse, sou muito mais a versão interpretada pela Jen Shyu. E a pronúncia é fantástica para uma americana, e quase não se nota o sotaque apesar do “paxto” e “rêgras”.

  6. 6 unibrasilpp2011 14/09/2009 às 9:47 am

    Sugiro que só usem o “SoundCloud”. Bem melhor que o uploader de antes. Além do que, ele funcionou nos dois sistemas operacionais, o Windows e o Linux.

    Hadouken ótimo como sempre!

  7. 7 Alexei Barros 14/09/2009 às 11:54 pm

    unibrasilpp2011, antes de mais nada obrigado pelo prestígio. Sem dúvidas o SoundCloud é muito melhor do que o Goear, mas eu só anexei o player nesse post porque já existia essa tracklist pronta no site do compositor. Tem alguns problemas que impedem de adotarmos oficialmente.

    – Por mais que seja conveniente ter o player na própria página, eu cito muitas outras músicas no decorrer do texto, e ia ficar muito confuso ter vários tocadores no meio. Prefiro manter a opção de que, caso a pessoa se interesse em ouvir a música, abra uma aba para o link do Goear.

    – Atualmente estou com 1986 músicas no Goear… levaria bastante tempo para subir no SounCloud. Além de gratuito, o serviço tem um limite razoável de tamanho (no máximo 25 MB de cada arquivo). O único empecilho é que quando dá problema, fica muitoooo tempo com problema.

    – E o principal contratempo do SoundCloud: o pacote gratuito tem o máximo de uploads de cinco músicas por mês. Não é raro eu subir dez músicas no Goear em um dia. :D

    Mas agora fiquei na dúvida pelo que você falou. Quer dizer então que o Goear não funciona no Linux?

  8. 9 Andre 08/10/2009 às 10:01 am

    Somos todos irmãos… e By the way nao so temos Fado como tb temos as musicas populares do Norte desde as bandas filarmonicas e os ranchos…Nao e so fado!!!

  9. 10 aureliox 04/08/2014 às 11:44 pm

    Lembro que a Patrícia Magalhães tinha um blog com suas poesias, mas não consigo mais encontrar. Alguém poderia me ajudar? Por favor! Uma dica, o verso não é “Sem pescar ou ansiar ” e sim “sem pesar ou ânsia”.


  1. 1 Canção “Baba Yetu” é indicada ao Grammy « Hadouken Trackback em 07/12/2010 às 1:15 am

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