Press Start 2009: menos arrojado, mas ainda notável


Por Alexei Barros

Cansei de esperar pelo segundo relato no site da Famitsu do Press Start 2009 ~Symphony of Games~ – no dia posterior ao evento havia sido veiculado um mixuruca sem grandes detalhes. Pelo menos nesse meio tempo consegui confirmar minhas dúvidas nos fóruns de game music e nos reports em inglês da récita realizada no dia 2 de agosto em duas apresentações: à tarde e à noite no Tokyo Metropolitan Art Space.

Como de praxe, a quantidade de compositores convidados foi generosa: Shoji Meguro (Persona), Keiki Kobayashi (Ace Combat 4, 5, 6 e Zero), Koji Kondo (Mario e Zelda) – que compareceu apenas no primeiro espetáculo –, Masaru Shiina (Tales of Legendia) e Hiro (OutRun, After Burner, Power Drift e Fantasy Zone), além de Masaki Kondo (designer de Fantasy Zone) e Masami Yone (designer de som de Rhythm Heaven), cada um chamado para subir ao palco no momento apropriado. A apresentação foi feita pela Yasuyo Sakamoto.

Grandioso também foi o número de cantores e instrumentistas que complementaram a performance da Tokyo City Philharmonic Orchestra, confirmando a maioria das minhas especulações: Keita Egusa (piano), Oriko Takahashi (vocal), Mariko Ohtsuka (vocal), Ryoko Kihara (vocal), Hide-Hide (shamisen e shakuhachi), Haruo Kubota (guitarra e violão) e Takanori Goto (violão). Depois do set list detalhado, minhas impressões.

Ato I

01 – Persona 4: “Poem for the Souls of Everybody” ~ “Reach Out To The Truth” ~ “A Corner of Memory”
02 – Super Mario Bros.: “Overworld” ~ “Underwater” ~ “Underworld” ~ “Overworld”
03 – Otogirisou / Kamaitachi no Yoru: “Requiem” ~ “Nightmare” (Kamaitachi no Yoru) ~ “On the Way to the Mansion” ~ “Nami’s Recollections” (Otogirisou)
04 – Suikoden: “Into a World of Illusions”
05 – NES Medley
06 – Portal
: “Still Alive”

Ato II

07 – Okami: “The Beginning” ~ “Ryoshima Plains II” ~ “Reset” ~”Thank You” Version~
08 – Ace Combat Zero: The Belkan War: “Zero”
09 – Rhythm Heaven: “Ninja”
10 – Fantasy Zone: “START ~ OPA-OPA!” ~ “SHOP” ~ “KEEP ON THE BEAT” ~ “SAARI” ~ “HOT SNOW” ~ “BOSS” ~ “YA-DA-YO” ~ “MISS” ~ “VICTORY WAY”
11 – Ore no Shikabane o Koete Yuke: “Flower”
12 – Tales of Legendia: “melfes ~ Shining Blue”
13 – [Bis] Final Fantasy X: “At Zanarkand”
14 – [Bis] Kirby’s Dream Land
: “Title” ~ “Green Greens” ~ “Float Islands” ~ “Sweet Potato Shooting” ~ “King Dedede’s Theme” ~ “Ending”

- Aclamado como um dos melhores números, Persona 4 surpreendeu ao não incluir guitarra no trecho do tema de batalha “Reach Out To The Truth”, principalmente porque havia dois guitarristas à disposição no palco. Foi uma versão sem vocal, com o naipe de metais numa levada big band – o final de “The Genesis” (a partir de 6:45) dá uma ideia de como ficou o resultado, talvez com andamento mais acelerado. Isso no entremeio. A “Poem for the Souls of Everybody” abriu o medley com a voz soprano de Oriko Takahashi e a “A Corner of Memory” fechou, com Keita Ogusa ao piano. O próprio compositor Shoji Meguro não imaginava que as músicas da trilha com forte influência no hip hop e no rock encaixariam em um concerto. A seleção me pareceu muito apropriada porque são os temas eruditos da trilha (exceção à música de combate devidamente adaptada), que, por sua vez, não apareceram no show Persona Music Live, em que, aqui sim, couberam as canções de outros estilos.

- Quando foi anunciado o medley do Super Mario Bros. afirmei receoso: “Espero que não seja o mastigado “Super Mario Bros.” do OGC1, reprisado por quase todos os concertos pelo mundo”. E não é que isso acabou se confirmando? Numa boa… uma afronta completa. Claro que essa releitura do Nobuo Kurita é perfeita, mas já ficou manjada há muito tempo – sobretudo após a repetição casmurra do Video Games Live através dos anos, que tem o mesmo medley no repertório e o executará de novo quando passar pelo Japão. Pior do que tocar Mario 1, é tocar de novo com o mesmo arranjo de 18 anos atrás.

- Falando em VGL, não é que o Press Start também ficou videogameslivezado? Dessa vez também introduziram a participação do público no espetáculo por meio dos segmentos interativos de “NES Medley” e Rhythm Heaven.

- O “NES Medley” foi o único que se alterou nas duas apresentações, e como se não fosse bastante Mario 1 ter número próprio, o jogo abriu os dois medleys, ignorando Super Mario Bros. 2 e 3. O SMB2 até posso entender por ser o Super Mario USA no Japão, mas e o 3, um dos melhores jogos e mais vendidos de todos os tempos? Zelda e a melodia da BIOS do Famicom Disk System (add-on de disquete do Famicom) também foram os únicos em comum nos dois medleys.

A intenção da produção era de incentivar o público japonês, tradicionalmente frio e apático em concertos de games, a bater palmas quando reconhecesse as músicas tocadas pela orquestra, enquanto a tela-título de cada jogo aparecia pixelada por um mosaico no telão. Ao final, Masahiro Sakurai, perguntou se alguém não havia lembrado de nenhum tema, e não se viu manifestações (ainda bem, porque caso algum japonês não reconhecesse o tema do Mario no concerto este deveria ser internado). Também indagou quem rememorou todas as músicas e então muitas pessoas levantaram a mão.

Quando o segmento foi revelado no site, imaginei que o medley seria apenas de jogos da Nintendo, quando, em contrapartida, houve muitos third-party. Os games foram escolhidos a partir de uma pré-seleção de 60, que eram eliminados caso ninguém dos organizadores reconhecesse – imagino quanta coisa boa não deve ter ficado de fora nessa brincadeira. Senti falta, para falar somente de títulos da Big N, de Ice Climber, Mach Rider – ambos estavam, ao menos, no “Smash Bros. Great Medley” do Smashing… Live! – e Wrecking Crew. Também não teve Metroid e Donkey Kong, que mereciam números exclusivos.

Não obstante, fiquei satisfeito com as recordações de Clu Clu Land, Kid Icarus, Ghosts ‘n Goblins, Mappy e Balloon Fight. Fora isso, as implementações de dois jogos da Konami me soaram muito estranhas porque estão muito mais relacionados com o MSX: Metal Gear, que teve uma versão bastarda para NES, e… Yie Ar Kung-Fu, que poderia imaginar somente num medley de jogos da Konami para MSX – correrei sério risco de parada respiratória se conseguir ouvir o bootleg. Depois do segmento próprio de Spelunker no Press Start 2008 será que precisava ter Spelunker de novo? E perderam a chance de tocar Bomberman…

Enfim, as duas configurações:

Tarde

- Super Mario Bros. (Nintendo, NES, 1985)
- Spelunker (Irem, NES, 1985)
- Clu Clu Land (Nintendo, NES, 1985)
- Milon’s Secret Castle (Hudson, NES, 1988)
- Shin Onigashima (Nintendo, Famicom Disk System, 1987)
- Metal Gear (Konami, NES, 1988)
- Atlantis no Nazo (Sunsoft, Famicom, 1986)
- Ganbare Goemon! Karakuri Douchuu (Konami, Famicom, 1986)
- Kid Icarus (Nintendo, NES, 1987)
- Ghosts ‘n Goblins (Capcom, NES, 1986)
- The Legend of Zelda (Nintendo, NES, 1987)
- Disk System Theme

Noite

- Super Mario Bros. (Nintendo, NES, 1985)
- Castlevania (Konami, NES, 1987)
- Dr. Mario (Nintendo, NES, 1990)
- Mappy (Namco, Famicom, 1984)
- Fire Emblem (Nintendo, Famicom, 1990)
- Challenger (Hudson, Famicom, 1985)
- Yie Ar Kung-Fu(Konami, Famicom, 1985)
- Balloon Fight (Nintendo, NES, 1986)
- Nazo no Murasamejou (Nintendo, Famicom Disk System, 1986)
- The Legend of Zelda (Nintendo, NES, 1987)
- Disk System Theme

- No número do Rhythm Heaven a interação com o público foi ainda maior, já que o minigame Ninja foi recriado no palco.  Foram chamados dois espectadores da plateia para formar duplas com Kazushige Nojima (como ninja branco) e Nobuo Uematsu (como ninja preto). A cada pausa da música, era necessário bater nos tamborins para acompanhar o ritmo. Ao final os participantes ganharam prêmios.

- Sabendo que o arranjador da “Into a World of Illusions” foi o Kousuke Yamashita e lendo as descrições (passagens jazzísticas no piano, novamente tocado por Keita Egusa, ao lado do oboé), há fortes indícios de que foi executada a versão do álbum Genso Suikoden Music Collection Produced by Kentaro Haneda. Perfeita a decisão, afinal para que fazer outro arranjo se já existe esse fantástico? Uma pena que a compositora do tema, a mestra Miki Higashino, não estava lá para acompanhar o concerto.

- Parece que houve um consenso em todos os relatos de que a performance da versão nipônica da “Still Alive” ficou horrenda em parte pela atuação da cantora Mariko Ohtsuka, a despeito de ser, basicamente, semelhante à original, só que com versos em japonês traduzidos pelo Kazushige Nojima. Fiquei ainda mais curioso para saber o resultado dessa inclusão tão insólita de um jogo americano num concerto oriental.

- Quando foi anunciado um segmento exclusivo de Fantasy Zone, logo sonhei que fosse com a mesma instrumentação do trecho correspondente ao jogo no “Shooting Medley” do Press Start 2007. Mas continuarei sonhando, porque diferentemente de dois anos não teve baixo elétrico, somente guitarra. Uma pena. Ainda assim, deve ter ficado sensacional pelas pela inventividade das originais, que puxam para o samba. Mais músicas do Hiro deveriam ser orquestradas, aliás. After Burner e Power Drift para ontem!

- Nada muito importante a acrescentar sobre Okami (com Keita Egusa e o duo Hide-Hide), Ace Combat Zero: The Belkan War (com Oriko Takahashi, Haruo Kubota e Takanori Goto) Ore no Shikabane o Koete Yuke (com Ryoko Kihara e de novo Kubota e Goto), Otogirisou / Kamaitachi no Yoru e Tales of Legendia (ambas com Keita Egusa). Essas só ouvindo mesmo para julgar melhor.

- Nobuo Uematsu chorou ao ouvir a “At Zanarkand” (Final Fantasy X) no concerto vespertino. De fato, ele admitiu ficar bastante orgulhoso por ter feito essa composição. Curiosidade: quando o YouTube ainda estava incipiente, nos idos de 2006, subi o vídeo da “At Zanarkand” do Tour de Japon, que tem o mesmo arranjo, e até hoje pago o preço por isso pela quantidade colossal de comentários. Pelo menos um por dia. Mas, como sempre, vou destilar meu azedume: para mim, há outras músicas do Uematsu muito mais emocionantes, não que ela não seja maravilhosa, claro.

- Masahiro Sakurai fez 39 anos em 3 de agosto, um dia depois do concerto. Para homenageá-lo, foi executado no fechamento um medley do Kirby’s Dream Land, o jogo para Game Boy que marcou a estreia do Sakurai, quando  tinha 19 anos. Estava na cara que uma hora ou outra Kirby apareceria na apresentação.

- Ao final dos concertos de 2007 e 2008 foram anunciadas as reprises em Xangai na China, mas nesse ano nada não foi mencionado. Porém, no dia 13 de outubro, o Video Games Live fará uma apresentação na mesma cidade chinesa. Por que algo me diz que a suposta ausência de um e a realização de outro estão relacionados?

- O usuário do fórum do Soundtrack Central Crystal, que já fez diversos reports de concertos japoneses, reparou que havia cinco câmeras profissionais registrando a apresentação. Para comparar, em 2006 não teve nenhuma, em 2007 teve duas e em 2008 não conseguiu assistir. Não vou me iludir ao acreditar no lançamento do DVD porque tem aquele velho problema dos direitos autorais, mas não ficarei espantado se surgirem alguns samples em vídeo no futuro no site oficial.

- Falando apenas sobre a seleção de músicas, algumas escolhas de 2009 me decepcionaram por serem burocráticas demais, ignorando temas das mesmas séries escolhidas (por que Ace Combat Zero de novo e não Ace Combat 5?). Apesar disso, mais uma vez fica comprovado que o Press Start 2009 é o único concerto no mundo a olhar além das trilhas dos RPGs mais populares, e nessa edição isso se cristalizou em Persona 4, Suikoden, Tales of Legendia e Ore no Shikabane o Koete Yuke, o que reforça a minha impressão de que um dia haverá Grandia, Lunar, Front Mission, Etrian Odyssey, Eternal Sonata, Star Ocean, Valkyrie Profile, Xenogears… No fim das contas, ainda prevalece o que o Shota Nakama definiu perfeitamente no relato do OSV: “O Press Start é mais para fãs de músicas de videogame do que simplesmente fãs de videogame”. Isso faz muita diferença.

[via Famitsu, OSV, GameSetWatch e DERBLOG]

4 Responses to “Press Start 2009: menos arrojado, mas ainda notável”


  1. 1 Wesley Pires 21/08/2009 às 3:59 pm

    Mestre Alexei, de fato duvido que o Uematsu não tenha chorado aou ouvir To Zanarkand. De fato, é o ápice de suas composições. Bom, e tem muita coisa boa ai na playlist do evento, bem qe podiam vir para cá no Brasil.

  2. 2 Alexei Barros 21/08/2009 às 5:17 pm

    Wesley, o que me impressionou foi que o Uematsu se emocionou mesmo tendo ouvido tantas vezes a versão orquestrada nos concertos de Final Fantasy. Mas quando a música é boa isso não deve ser um espanto.

  3. 3 Alexo Mello 29/08/2009 às 2:21 am

    “Videogameslivezado” foi muito explicativo! rs

  4. 4 Alexei Barros 29/08/2009 às 2:29 am

    Pois é, Alexo, hehe… Para mim, pode o VGL não ser o maior exemplo de ousadia de repertório, qualidade de arranjos e de performance, mas inegavelmente os segmentos interativos foram uma grande sacada. Claro que quem aprecia um concerto mais tradicional não irá gostar. Entretanto, pelo que percebo do público em geral a recepção é positiva.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




RSS

Twitter

Procura-se

Categorias

Arquivos

Parceiros

bannerlateral_sfwebsite bannerlateral_gamehall bannerlateral_cej bannerlateral_girlsofwar bannerlateral_gamerbr bannerlateral_consolesonoro bannerlateral_zeebobrasil bannerlateral_snk-neofighters brawlalliance_banner_copy
hadoukeninenglish hadoukenenespanol hadoukenenfrancais hadoukeninitaliano hadoukenindeutscher hadoukenjapones

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.513 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: