Blogs x mídia impressa: em quem confiar?

Por Gustavo Hitzschkyliar

Se há uma coisa no jornalismo de games que me atrai bastante é escrever reviews de jogos. É bem verdade que faz muito tempo que não realizo esse tipo de trabalho para revistas e nem mesmo aqui no Hadouken, mas me encanta opinar sobre um jogo depois de ter passado tempo suficiente com ele – sempre prefiro resenhar depois de terminar para ter uma visão aprofundada do game, porém nem sempre é possível, principalmente nos casos de serviços para a mídia impressa.

Acabei de ler um artigo muito bacana no excelente Destructoid acerca da credibilidade de blogueiros comparada à de jornalistas “reais”, usando os termos do texto. A Federal Trade Commission, algo como Comissão de Comércio Federal, órgão atrelado ao governo dos Estados Unidos, passou a conclamar os blogs a revelarem sempre que algum tipo de material for enviado para eles, sejam títulos para review, sejam outros produtos relacionados ao software. O New York Times concordou com a indicação porque acredita que os blogs trabalham para agradar os patrocinadores. Assim, na medida em que os sites informam sobre o recebimento de um item, a credibilidade da opinião poderia ser mais bem avaliada pelo público – já que eles conseguiram o jogo sem nenhum custo, dificilmente falariam mal, seria o raciocínio aproximado do leitor.

Sugeriria a vocês que lessem o artigo de Jim Sterling porque ele está absolutamente correto em tudo aquilo que escreve. Com relação a patrocínio, a declaração do NYT soa tão idiota que até parece mentira. É fato que existem blogs com publicidade – o próprio Jim cita o Destructoid entre eles – mas a FTC e o NYT se referem também aos anônimos e independentes que possuem blos minúsculos. Quem responde, sim, a interesses corporativos são os grandes conglomerados de mídia, as verdadeiras baleias desse mar no qual nós, peixes pequenos, praticamente não temos voz. O que, particularmente para mim (e tenho certeza de que para os meus três amigos de Hadouken) não importa, uma vez que não temos muitos leitores, mas nos orgulhamos do nível do debate que se estabelece por meio dos comentários.

Acho que não preciso dizer isso, mas mesmo que a Capcom tivesse me enviado uma cópia de Resident Evil 4 sem custo nenhum e algum boneco do Leon ou o que quer que seja, eu jamais mudaria uma linha daquilo que escrevi. Da mesma forma que elogiaria de forma contundente Professor Layton and the Curious Village caso a Nintendo tivesse me enviado o jogo. A minha opinião não está à venda e jamais estará, e acho que é isso que os escritores (blogueiros e jornalistas, não importa) devem ter em mente. De minha parte, eu duvido, sim, de reviews que leio em sites consagrados ou nas grandes revistas, pois há certas coisas que acho muito estranho.

Gostaria de citar o exemplo que aconteceu comigo anos atrás de um review que escrevi em um trabalho de freelancer. Mas como não sei até hoje o que de fato rolou, prefiro omitir. Apenas mando mais uma vez o meu agradecimento a Renato Bueno, o único que veio demonstrar solidariedade a mim no imbróglio.

Agora, afirmar que blogueiros não são dignos de confiança e jornalistas são os arautos da justiça é de uma imbecilidade absurda. Temos gente boa em todas as esferas, assim como há os incompetentes. Será que rolam falcatruas desse tipo em blogs? Certamente. E em jornais e revistas? Não tenho a menor dúvida. É que não se pode ser maniqueísta dessa forma, não dá para preto no branco, esses são os mocinhos e aqueles os bandidos. Em absolutamente nada na vida.

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15 Responses to “Blogs x mídia impressa: em quem confiar?”


  1. 1 Eng Leonardo 18/07/2009 às 4:25 pm

    Podemos citar a nota alta que a UOL jogos deu ao jogo Prince of Persia do XBox 360 e PS3. O jogo é um lixo e os caras deram uma boa nota.

    Fora o problema com a Gamespot, onde notas baixas eram para ser dadas algum tempo depois do lançamento do jogo para não atrapalhar as vendas.

  2. 2 Alexei Barros 18/07/2009 às 4:40 pm

    “Podemos citar a nota alta que a UOL jogos deu ao jogo Prince of Persia do XBox 360 e PS3. O jogo é um lixo e os caras deram uma boa nota.”

    Essas discussões vão bem longe, Eng Leonardo, mas você não pode pegar um caso assim só porque não concordou com a nota… É um conceito totalmente subjetivo.

    • 3 Claudio Prandoni 18/07/2009 às 4:48 pm

      Faço minhas as palavras do Alexei.

      Esse caso do Prince of Persia acho, inclusive, que serve como exemplo de subjetividade e não concessão por parte de grandes veículos. O autor do texto achou o jogo bom e justifica os motivos por isso (se a argumentação é consistente ou não já é outra discussão).

      Eu pessoalmente gostei muito do Prince of Persia (aliás, quem sabe um dia talvez eu ainda faça uma análise dele aqui no blog), mas já ocorreram inúmeras vezes de eu discordar de notas dadas por grande sites, revistas ou até mesmo as opiniões dos colegas de blog aqui.

      Em relação ao texto do Destructoid que o Hitz comenta, acho impressionante como a FTC e o New York Times analisam a situação de forma tão maniqueísta, tão limitada.

  3. 4 DGC 18/07/2009 às 6:56 pm

    O maior problema da “mídia especializada” em avaliar alguma coisa desse meio é que simplesmente, eles não passam de fanboys sem credibilidade.

    Não existe tal coisa como jornalista de games, tão pouco uma opinião bem formada e imparcial destes.

    A IGN e seus jogadores pseudo hardcore metidos à jornalistas, por exemplo, (que nem formados em jornalismo são e nem sequer fazem questão) vive caindo em contradição regada a muita hipocrisia em praticamente tudo que escrevem.

    Considero um exemplo não tão ruim as vídeo análises do GameTrailers.com, pois as mesmas são num clima descontraído e que apenas falam sobre como o jogo é. Ainda assim, infelizmente, dão uma nota no final da matéria.
    Particularmente acho toda esta questão de notas algo irrelevante e sem sentido, pois não se pode avaliar o que não é necessariamente feito pra você.

    Um exemplo interessante foi o recente review de Wii Sports Resort pelo GT http://www.gametrailers.com/player/52930.html onde eles apenas avaliam no final os quesitos design, gameplay e presentation. Já que o resto simplesmente não importa no jogo.

  4. 5 Diego Paulino 18/07/2009 às 10:48 pm

    Sendo sincero, depois disso http://www.n4g.com/pc/News-243558.aspx e nos vários reviews sem noção do Sonic Unleashed eu parei de acreditar em reviews de “jornalistas”…..=/

  5. 6 geraldofigueras 19/07/2009 às 4:56 am

    Discrepâncias entre reviews só demonstram a falta de preparo da mídia especializada e a necessidade de uma reavaliação sobre como funciona um mercado: um produto x, produzido por produtora y, direcionado para o público z. Em cima disso, compreender a proposta do jogo e elucidar se a mesma foi construída com competência.

    Não entrarei no mérito da ética entre jornalistas e blogueiros, pois como em qualquer outro setor, sempre teremos os corrompíveis.

    Notas sempre serão o chamariz do povão, nada além disso. A verdadeira review está no texto escrito (ou vídeos, áudio, etc)

    Jornalistas formados ou não? Isso não diz absolutamente nada sobre ética ou competência. Diploma é uma mera formalidade. Quem quer especializar-se em qualquer área consegue a informação fora das universidades. O que não quer dizer que as mesmas não sejam capazes de formatar bons profissionais. Enfim, como em todo o resto, também é relativo.

    Por isso que sou contra formatos como o da Edge. Acho fundamental que o consumidor conheça bem quem está analisando. Simplesmente jogar no lixo, por exemplo, todo o trabalho de uma IGN, é, no mínimo, ingenuidade. Agora, saber que o Casamassina tem uma grande inclinação a designs conservadores, e que ele não consegue evitar comparações banais, significa que o leitor ganha mais uma ferramenta para compreender o texto, pois consegue extrair dali o que for necessário para a formação de sua percepção.

    Ao final, não existe imparcialidade em qualquer tipo de análise. É utopia. A subjetividade sempre estará presente, em qualquer área, e cabe ao consumidor não apenas ficar reclamando que analista tal deu nota ruim para jogo tal, e sim compreender que o sistema é e sempre será falho, mas que os riscos se reduzem quando ele próprio assume a sua responsabilidade nesta máquina.

  6. 7 Gustavo Hitzschky 19/07/2009 às 12:02 pm

    Acho que o Geraldo abordou pontos de extrema importância para a discussão toda. Com relação a notas, sempre fui contra. Acredito que é uma coisa extremamente simplista essa de reduzir o jogo a um conceito numérico. É falta de respeito com o game e com o público, e é por isso que aqui no blog jamais qualifiquei um título analisado por meio de números.

    Outra ideia bacana sobre a qual o Figueroa comentou é o lance de conhecer quem escreve determinado texto. Ao ter noção daquilo que uma pessoa gosta ou não, fica muito mais fácil compreender o porquê de determinada opinião. Se um dia Claudio falar bem de algum MMO, Alexei se encantar com algum GH ou se eu tecer loas a Resident Evil 5, certamente seria algo fora do comum para quem nos conhece. O que a gente não pode ter nunca é um pré-julgamento da obra analisada e já ir com o pensamento fixo de que um jogo é assim ou assado.

    • 8 DGC 19/07/2009 às 1:53 pm

      Quer dizer que ainda por cima eu tenho que conhecer o indivíduo que fala abobrinhas?
      Fui um leitor do site IGN por muitos anos, especialmente das análises do Matt. Mas o cara é uma piada!
      E levem em consideração que estamos na internet, assim sendo, se uma pessoa chega até a análise do cara pela primeira vez, ela tem que ter total noção do porque o indivíduo tem aquela opinião!?

      Não é ingenuidade alguma falar simplesmente que uma IGN (com games) não é boa no que faz.
      Assim como também não é o leitor que deve esforçar-se para compreender o redator pelo seu histórico de gostos pessoais.
      O texto é que deve visar ser compreendido por qualquer um.

      • 9 Gustavo Hitzschky 19/07/2009 às 3:12 pm

        Não precisa conhecer o cara a fundo, mas saber quais são os gostos dele ajuda sim a entender o que ele quer dizer. E isso não é papel do leitor, ir atrás da vida de quem escreve e formular um dossiê sobre a pessoa. O próprio redator deve deixar claro quais são as suas preferências ao falar sobre determinado jogo. Pelo menos isso é o que eu tento fazer, seja explicitando minha paixão por puzzles, seja falando sobre como me agrada o esquema clássico de RE. Assim, a pessoa tem mais informações para entender os porquês das críticas e elogios em uma análise.

      • 10 geraldofigueras 19/07/2009 às 3:26 pm

        Você nao precisa conhecer o indivíduo, mas se deve fazê-lo se não quiser ficar vulneravelmente preso na falta de informação. Aprofundar-se em uma rápida pesquisa sobre um jogo de interesse antes de desembolsar U$50 é, do meu ponto de vista, benéfico para mim (que transformo uma “aposta” de $50 em um investimento baseado em boas informações).

        Chegar na analise de um qualquer pela primera vez, fazer uma leitura dinamica do texto, olhar a nota final e comprar o jogo na hora significa que você está assumindo um risco maior. Mais uma vez, não é sua obrigação, mas não reclame depois por ter pagado caro por um jogo que não lhe agrada.

        E mais ingenuidade ainda é acreditar que existe um texto universal que pode ser compreendido da mesma maneira por qualquer indivíduo. Textos são feitos com combinações de palavras sujeitas a interpretação. Não são dados matemáticos.

  7. 11 Fabio Bracht 19/07/2009 às 1:29 pm

    Até mesmo fugindo do assunto do post, só queria fazer eco aqui ao trecho do comentário do Geraldo, com o qual concordo em gênero, número e nota de 7 a 10:

    “Por isso que sou contra formatos como o da Edge. Acho fundamental que o consumidor conheça bem quem está analisando. Simplesmente jogar no lixo, por exemplo, todo o trabalho de uma IGN, é, no mínimo, ingenuidade. Agora, saber que o Casamassina tem uma grande inclinação a designs conservadores, e que ele não consegue evitar comparações banais, significa que o leitor ganha mais uma ferramenta para compreender o texto, pois consegue extrair dali o que for necessário para a formação de sua percepção.”

    O que não quer dizer que não gosto da revista, muito pelo contrário. Achei ótima, bem acima da média atual, e recomendo a leitura para qualquer um. Só não deixo de achar que é uma besteira enorme omitir o nome do autor dos textos, particularmente no caso das análises.

  8. 12 Alexei Barros 19/07/2009 às 2:33 pm

    @ Geraldo

    “Ao final, não existe imparcialidade em qualquer tipo de análise. É utopia. A subjetividade sempre estará presente, em qualquer área, e cabe ao consumidor não apenas ficar reclamando que analista tal deu nota ruim para jogo tal, e sim compreender que o sistema é e sempre será falho, mas que os riscos se reduzem quando ele próprio assume a sua responsabilidade nesta máquina”.

    Perfeito o comentário de um tema que há muito me indigna, quando as pessoas pedem por “análises imparciais”, como se isso fosse possível.

  9. 13 geraldofigueras 19/07/2009 às 3:16 pm

    Bracht, só para esclarecer, apesar da minha crítica quanto ao formato, ainda considero a Edge a melhor publicação de games, impressa ou não, há muitos anos e em todo o mundo.

    Maestro, considero justamente o contrário. Assumir a parcialidade e justificá-la através dos argumentos certos, sabendo diferenciar o gosto pessoal da análise fria, é na verdade benéfico para o texto. É compreender que dentro da proposta de GTA4, o mundo aberto e não linearidade são executadas com maestria, e não simplesmente criticar a falta de coerência ou a dificuldade de estabelecer um caminho padrão, por exemplo.

  10. 14 Alexei Barros 20/07/2009 às 12:23 am

    @ Geraldo

    Exatamente! Concordo em tudo o que você disse. Acho que fica até mais fácil para o leitor se identificar com o autor caso os gostos pessoais se combinem.

  11. 15 Uehara 27/07/2009 às 4:32 pm

    Estamos falando de reviews aqui, mas eu cito o exemplo recente da E3 2009. Cheguei a ficar frustrado quando vi revistas grandes estamparem em suas matérias ou mesmo em suas capas coisas como “Vitória da Microsoft”, ou da Nintendo, ou da Sony, ou do SBT, tanto faz. Pra mim, isso é puro fanboyismo injustificado, já que ninguém “vence” uma feira de exposições e lançamentos como a E3.

    Opinião por opinião, eu confio que blogueiros falam aquilo que acham, enquanto publicações maiores sofrem muito mais censura.

    Você só precisa conhecer os gostos do blogueiro, mas em uma grande publicação, você precisa conhecer também o editor e, ainda por cima, saber se a matéria não foi comprada.


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