Symphonic Shades: o CD do melhor concerto que o Yuzo Koshiro já viu


Por Alexei Barros

O primeiro concerto de game music transmitido ao vivo via rádio. O primeiro concerto de game music de tributo a um compositor*. Symphonic Shades – Huelsbeck in Concert, integralmente devotado ao alemão Chris Huelsbeck, rompeu paradigmas no dia 23 de agosto de 2008. Sucesso de público e de crítica. E o que pensar quando um músico como Yuzo Koshiro disse o que disse? Quando solicitado para falar ao site oficial em uma palavra o que havia achado da apresentação, respondeu “Fantástico!”. Não se deu por feliz e emendou: “E se pudesse falar mais de uma palavra, eu adicionaria: foi o melhor concerto sinfônico que já vi!”.

A história do Symphonic Shades começa em 2007, quando o administrador da WDR Radio Orchestra Cologne, Winfried Fechner, foi convidado para assistir e ficou extasiado com a atmosfera do Fifth Symphonic Game Music Concert, quinta e derradeira edição da série produzida por Thomas Boecker, que foi produtor executivo da turnê promocional de 2006 e consultor em algumas performances de 2007, como em Sydney, Austrália, do PLAY! A Video Game Symphony, mas atualmente não está mais envolvido no projeto. Aficionado pelas músicas de Chris Huelsbeck desde o Commodore 64, a ponto de gravá-las em fitas cassete para ouvi-las a qualquer momento, Boecker exprimiu sua admiração pelo compositor ao incluir em todos os anos pelo menos uma faixa de Huelsbeck em meio aos jogos japoneses e norte-americanos, e assim foi com “Apidya Suite” (First), “Turrican Medley” (Second), “The Great Giana Sisters Suite” (Third), “Turrican 3 Piano Suite” (Fourth), “Turrican II: The Final Fight Suite”, “Commodore 64 Medley” – inclui Shades e The Great Giana Sisters – e “Amiga Medley” – finaliza com Turrican II: The Final Fight – (Fifth).

A ideia de organizar um concerto inteiro com músicas do alemão existia há um bom tempo. “Chris Huelsbeck e eu faríamos esse concerto um dia, só não sabíamos a data exata”, disse Boecker ao SEMO. O produtor sugeriu o conceito a Fechner, que logo gostou do modelo. O Symphonic Shades foi divulgado em 4 de dezembro de 2007 e teve o envolvimento de pessoas de extrema confiança, seja do PLAY!, do SGMC ou do projeto original Merregnon: o maestro Arnie Roth na batuta da WDR Radio Orchestra Cologne e do FILMharmonic Choir Prague, o percussionista libanês Rony Barrak e os arranjadores Jonne Valtonen, Adam Klemens, Takenobu Mitsuyoshi e Yuzo Koshiro para interpretações totalmente inéditas, com exceção de “Turrican 3 – Payment Day (Piano Suite)”, tocada no Fourth SGMC e presente no álbum Number Nine, que foi retrabalhada. Não é todo dia que japoneses e ocidentais, de estilos tão díspares, atuam em harmonia. As melhores músicas de Chris Huelsbeck então foram selecionadas para o repertório. Todas as composições estavam à disposição, e a única limitação era a duração do concerto.

Quando foram colocados à venda os ingressos para a apresentação às 20 horas locais no luxuoso Funkhaus Wallrafplatz – onde foi gravado o álbum drammatica -The Very Best of Yoko Shimomura- – em Colônia, Alemanha, esgotaram-se em uma semana. Devido à grande procura, uma reprise foi confirmada para as 23 horas no mesmo dia, e as vagas acabaram em pouco tempo. Diferentemente da série SGMC, que não pôde ser lançada por problemas de direitos autorais, o CD do Symphonic Shades foi anunciado e, para completar, foi apregoada a histórica transmissão ao vivo via rádio da estação WDR4, que acompanhei pela Internet. Mesmo sem entender alemão, deu para perceber o momento em que o público enviou uma saudação para todos os ouvintes espalhados pelo mundo, e quando Takenobu Mitsuyoshi e Yuzo Koshiro levantaram na plateia.

Depois de longa espera, a data de lançamento do CD foi precisada para 11 de dezembro, sofrendo um pequeno adiamento: saiu dia 17. Somente 1000 unidades foram publicadas, com demanda similar às apresentações. Não por menos. Chris Hülsbeck é celebridade em seu país, onde a cena de games foi completamente diferente da norte-americana e da brasileira, o que explica porque é relativamente pouco conhecido por essas bandas. Enquanto aqui, MSX, os clones de NES e principalmente o Master System foram populares, na Alemanha dominaram o mercado os computadores Commodore 64 e Amiga, plataformas as quais Huelsbeck se destacou. Eventualmente, as adaptações de Turrican e Jim Power para Mega Drive e Super Nintendo permitiram que escutássemos as suas composições. Porém, nem é preciso conhecer os títulos para se encantar com as músicas.

Por isso, falarei separadamente de cada uma das 15 faixas do CD (excluindo o solo de percussão de Barrak, 10 são de jogos e 4 de projetos não-gamísticos), situando os games, uma vez que muitos são obscuros para nós, com links para as músicas originais, as versões orquestradas da transmissão do rádio e vídeos do YouTube da récita – só não ligue para a câmera estática da gravação tal como no cinema primitivo – para reparar como os arranjos são magistrais. Confirmando a impressão que tive ao ouvir os samples, a qualidade que já era excepcional pelo rádio, ficou ainda mais apurada no CD, que mescla o melhor das duas apresentações, dos ensaios e do ensaio final. Além de pequenas mudanças na performance, é possível escutar os graves com maior vivacidade – os contrabaixos reverberando nos ouvidos é uma sensação inigualável. A bem da verdade, não me recordo de outro disco de game music em que pude escutar especificamente esses instrumentos de forma tão nítida. O álbum também vem com uma entrevista em alemão com Chris Huelsbeck, e é adornado por uma simpática ilustração de um maestro Turrican com batuta desenhada por Hitoshi Ariga.

Leia, ouça e veja depois do Hadouken sobre o CD do Symphonic Shades.

* Tecnicamente, o italiano Nobuo Uematsu Show (2007) precedeu o Symphonic Shades, só que, além de todos os arranjos serem reaproveitados de outros concertos, não cobriu a carreira de Uematsu na totalidade, apenas Final Fantasy, Blue Dragon e Lost Odyssey. As diversas récitas de Final Fantasy e Dragon Quest, apesar de terem músicas de um compositor, Nobuo Uematsu e Koichi Sugiyama, respectivamente, representam as séries, não os músicos.

01 – “Grand Monster Slam (Opening Fanfare)”
Original: “Opening Fanfare” [Amiga]

Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Grand Monster SlamProposta das mais esquisitas: Grand Monster Slam é um jogo de esportes com seres fantasiosos – orcs, ogros, trolls e por aí vai – que também foi lançado para Commodore 64, Atari ST e PC. Na fanfarra da tela-título os metais sintetizados denotavam a admiração de Huelsbeck por John Williams. A influência do lendário compositor cinematográfico ficou evidente na versão de Valtonen. Após o ressonar destruidor dos tímpanos, os trompetes anunciam que algo grandioso está por vir – não poderia haver música mais apropriada para abrir o concerto. Entre os tilintares dos metais, as cordas conferem colorido ao tema pomposo.

02 – “X-Out (Main Theme)”
Original: “Main Theme” [Amiga]

Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

X-OutShmup horizontal da Rainbow Arts em que se controla não uma nave: um submarino em fases subaquáticas. Recebeu versões para outras plataformas, sem o envolvimento de Huelsbeck como no Amiga. A música principal, composta para sonorizar a temática futurista, ficou simplesmente estupenda com a adição do coral FILMharmonic Choir Prague, entoando versos em latim escritos por Michael Hauser, emoldurados pelos violinos. As alternâncias dos naipes do coro são rebuscadas, e o excerto em que a música cresce paulatinamente é retumbante.

03 – “Jim Power in Mutant Planet (Main Theme)”
Original: “Main Theme” [Amiga]

Arranjo e orquestração: Yuzo Koshiro

Jim Power in Mutant PlanetContra, Ghosts ‘n Goblins e Battletoads. Adicione à lista de jogos difíceis o plataforma 2D Jim Power in Mutant Planet do Amiga, que saiu para SNES como Jim Power: Lost Dimension in 3D e para Turbografx CD simplesmente batizado de Jim Power (também haveria uma versão para Mega Drive com o nome Jim Power: The Arcade Game que acabou sendo cancelada). Não importa o nome, não importa a versão, é impossível. Foi a primeira trilha de Huelsbeck para uma empresa não-alemã, a francesa Loriciel. Orquestrar um solo de guitarra sintetizado? Migrar o estilo do rock para o impressionista sem deturpá-lo? Mais uma vez esbanjando genialidade, o mestre Yuzo Koshiro fez tudo isso com requintado arranjo de cordas, incluindo o pizzicato dos violinos. Aliás, Huelsbeck se sentiu realmente honrado por ele concordar em participar, e deve ter ficado mais ainda ao saber do comentário sobre o concerto.

04 – “Tower of Babel”
Original: “Tower of Babel (Halleluja Mix)” (Hülsbeck Vol. 1: Shades)

Arranjo: Chris Huelsbeck
Orquestração: Jonne Valtonen

Ainda que existam dois jogos com o nome Tower of Babel, o segmento não tem relação com games. Disponível no primeiro álbum do compositor, Hülsbeck Vol. 1: Shades, foi criada imaginando os créditos de um filme hollywoodiano. Curiosamente, a introdução da versão orquestrada foi modificada. De resto, segue uma vertente sombria. Idealizo como o encerramento de uma história de ficção científica – seria uma Torre de Babel futurista? No fim de tudo, quando projeto as logomarcas da produção, há um primoroso solo de trompete.

05 – “Turrican 3 – Payment Day (Piano Suite)”
Originais: “Main Theme” ~ “Credits Theme” ~ “Main Theme” [Amiga]

Arranjo: Jonne Valtonen

Turrican III - Payment DayPrimeiro lançado como Mega Turrican (Mega Drive), foi adaptado para Amiga como Turrican 3 – Payment Day, variando entre tiros e sessões de plataforma: a série da Factor 5 é um cruzamento entre Contra e Metroid. Como supracitado, a suíte no piano debutou no Fourth Symphonic Game Music Concert tocada por Daniela Kosinova, e esteve no álbum Number Nine com execução de Jari Salmela, que também participou do Symphonic Shades. No CD, entretanto, foi usada a performance de Benyamin Nuss, gravada após o concerto, porque foi a versão que mais se aproximou do intento de Huelsbeck. A interpretação exibe menos virtuosismo que na apresentação. É mais pausada, e não por isso ficou inferior. O melancólico tema do desfecho, que permeia a música principal, ganhou dramaticidade com respiros entre os acordes.

06 – “Gem’X (Main Theme)”
Original: “Main Theme” [Amiga]

Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Gem’X Jogo de estreia, um puzzle, da desenvolvedora alemã Kaiko que chamou a atenção não pela fórmula – movendo peças na esquerda, o objetivo é copiar a disposição das peças na direita –, mas pelas moçoilas em traço anime. A marimba, enfeitada pelas intervenções das flautas e madeiras, introduz um solo de violino, logo seguido pelos tímpanos, cordas e metais, quando a proporção da música recrudesce de maneira avassaladora. Talvez encaixaria também uma bateria – na original, ouve-se uma batida sintetizada –, e nem se nota a ausência pela sofisticação da peça.

07 – “Apidya II (Suite)”
Originais: “Intro Theme” ~ “Outro Theme” [Amiga]

Arranjo: Takenobu Mitsuyoshi
Orquestração: Adam Klemens

Apidya IIA jovem Yuri é picada por um enxame de abelhas transmutadas e peçonhentas. Ikuro, seu marido, vai à procura do antídoto mágico que possa curá-la. Como? Transformando-se em uma abelha gigante. Bizarro. Além da premissa curiosa, o shmup horizontal da Kaiko sobressaiu novamente pelas cenas em anime e pelos quatro katakanas “アビヂャ” na tela-título: jogo alemão com espírito nipônico. Takenobu Mitsuyoshi quis deixar a suíte fiel à original, adicionando um suntuoso coral à peça. O idioma cantado? Japonês, óbvio. O tema de abertura, rico e diversificado, composto para pontuar cada instante da cena da introdução, já é magnífico… No momento em que é emendada a música do epílogo, e o coro retorna penetrante seguindo até o final. Emocionante mesmo sem entender a letra – os versos foram escritos por Mitsuyoshi seguindo a história do jogo.

08 – “R-Type (Main Theme)”
Original: “Main Theme” [Amiga]

Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

R-TypeCertamente o mais conhecido do público brasileiro, o shmup horizontal da japonesa Irem para Arcade, que recebeu uma infinidade de versões, como a do Master System, não possui música da tela-título. A Rainbow Arts ficou encarregada das adaptações para Commodore 64 e Amiga, e Huelsbeck não se deu por satisfeito em adicionar uma faixa na tela principal: compôs uma diferente para cada edição. A grudenta “Main Theme” do C64, segundo o próprio, foi inspirada na trilha original de Masato Ishizaki. Por sua vez, a “Main Theme”do Amiga, que foi orquestrada para o concerto, tem um tom mais épico e cinematográfico, maximizado pelos trompetes no arranjo de Valtonen. A música podia acabar assim, instrumental, quando o coral majestoso cantando em grego, novamente com letra de Michael Hauser, entra em cena… Um espetáculo!

09 – “Licht am Ende des Tunnels (Suite)”
Original: “Light at the End of the Tunnel Medley” (Merregnon Soundtrack Volume 1)

Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Primeiro projeto de Boecker em parceria com Huelsbeck, Licht am Ende des Tunnels (“Luz no Fim do Túnel” em português) é um filme alemão de Stephan Hangleiter que retrata a vida de um homem em seus últimos momentos de vida. É sobre suicídio, solidão e outros temas depressivos. A suíte, que havia debutado no Merregnon Soundtrack Volume 1 como faixa bônus, é de uma tristeza ímpar. O solo de violino é dramático, o coral é intenso… Pura melancolia. E é uma das preferidas de Valtonen no concerto.

10 – “The Great Giana Sisters (Suite)”
Originais: “Main Theme” ~ “Ingame” ~ “Boss Theme” ~ “High Score”[Commodore 64]

Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

The Great Giana SistersUm dos clones mais deslavados de Super Mario Bros, The Great Giana Sisters imita o jogo da Nintendo praticamente em tudo. Ao coletar circunferências, os cabelos das irmãs Giana e Maria ficam espetados e elas podem quebrar blocos de tijolos. Goombas e Koopa Troopas têm versões genéricas, e os cenários variam entre ambientes abertos e subterrâneos. Por apreciar a “True Blue” de Madonna, o chefe da Rainbow Arts sugeriu que a trilha seguisse o estilo. Huelsbeck completou as músicas em quatro semanas.  A suíte flerta levemente com jazz – gênero que, junto com ópera, curiosamente, são os menos favoritos de Huelsbeck –, mas um jazz bem suave, sem tantos metais. A peça é bastante agradável, e foge do predomínio de faixas pomposas do CD, oferecendo uma bem-vinda variação.

11 – “Rony Barrak-Solo”
12 –
“Tunnel B1 (Suite)”
Originais: “Intro” ~ “Oceanos” ~ “Nemesis” [PlayStation e Saturn]

Arranjo: Chris Huelsbeck
Orquestração: Jonne Valtonen

Tunnel B1Dos jogos representados no concerto, é o mais recente, de 1996. Desenvolvido pela Neon, Tunnel B1, que saiu para PlayStation e Saturn, combinava sessões de tiro em primeira pessoa e corrida à la Wipeout. É um dos poucos com músicas de Huelsbeck que teve trilha sonora original lançada em álbum, Tunnel B1 Soundtrack. O solo de darbuka de Rony Barrak que precede a suíte foi separada em outra faixa, ainda que se escutadas continuamente possam ser encaradas como um único segmento, tal qual de fato aconteceu no concerto. Mesmo sintetizadas, as originais já buscavam imitar uma orquestra. Até por isso a versão do concerto é bem fiel, com as batidas da percussão e as belas passagens do piano e principalmente das cordas.

13 – “Symphonic Shades”
Original: “Shades”

Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Completa-se o tributo com uma faixa emblemática: “Shades” foi a composição com que Chris Huelsbeck, então com 18 anos, ganhou o concurso promovido pela revista alemã 64’er. A música foi feita em um Chip SID do Commodore 64, computador em que ele começou a aprender programação e fez as suas primeiras faixas inteiras.

Quando um antigo tema sintetizado é orquestrado, por consequência os blips e blops desaparecem e ficam apenas na memória. O compositor germânico, entretanto, quis a todo custo preservar o timbre característico do chiptune na versão sinfônica e, para tanto, adotou uma medida ousada: via MIDI, um teclado foi conectado ao laptop de Huelsbeck com um plugin que emulava o som do C64. O áudio do Chip SID foi recriado ao vivo, sem qualquer uso de playback, para tocar a melodia principal na companhia dos instrumentos. Velho e novo juntos na música-título do concerto. É incomum, tem uma cara sci-fi, e pode causar estranheza de início, mas cativa instantaneamente. E fica ainda melhor com o acompanhamento da bateria a partir do meio da música.

14 – “Karawane der Elefanten”

Arranjo: Chris Huelsbeck
Orquestração: Adam Klemens

Nem jogos, nem filmes: “Karawane der Elefanten” (“Caravana dos Elefantes”) foi composta por Huelsbeck especialmente para o Symphonic Shades. A inspiração provém da música de A Múmia (1999), cuja trilha é assinada pelo falecido Jerry Goldsmith. Tem insinuações egípcias, um pouco de bolero e trechos grandiosos. O coral possui participação fundamental, e é mais fácil imaginar o tema em um filme, ilustrando uma extensa epopeia pelo deserto do que propriamente alguma cena de um jogo.

15 – “Turrican II The Final Fight (Renderings: Main Theme)”
Original: “Main Theme” [Amiga]

Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Turrican II - The Final Fight Turrican II é melhor que o predecessor em todos os sentidos, incluindo a trilha sonora, mencionada como o principal fator para o sucesso. Huelsbeck explorou a máximo a capacidade do Amiga, e olha que ele tinha cerca de 400 KB de memória para as músicas. Em todos os segmentos, Valtonen enxertou novos excertos em vez de simplesmente reproduzir nota por nota. No derradeiro, os adendos ficaram mais evidentes, expondo o talento do finlandês: transformou uma memorável melodia sintetizada de abertura em um rebuscado concerto para piano que transita por traduções do tema em estilos musicais de diferentes períodos. Do romantismo ao neoclassicismo, passando por reminiscências de Beethoven e Mozart. Desde o início imponente até o desfecho magnânimo, Jari Salmela é superlativo na interpretação do piano. Bravo! Não à toa, Yuzo Koshiro elegeu como sua peça favorita do Symphonic Shades.

Sombras perfeitas

Meu interesse pelo Symphonic Shades surgiu primeiro porque me chama a atenção qualquer concerto de game music. Segundo, por conta dos arranjos de dois japoneses, Yuzo Koshiro e Takenobu Mitsuyoshi, para músicas de um compositor ocidental, algo que raramente acontece. Terceiro, porque conhecia de nome os participantes e responsáveis: Thomas Boecker, Arnie Roth, Rony Barrak, WDR Radio Orchestra etc. Mas fiquei surpreso pelo resultado dos arranjos de Jonne Valtonen, que levou seis meses para finalizar tudo. Suas releituras de “Super Mario Bros.” e “The Legend of Zelda” do PLAY! não eram, a meu ver, tão magnânimas quanto a sua participação no Symphonic Shades, com arrojadas inserções do coral em faixas originalmente sintetizadas que nem daria para imaginar a princípio, como X-Out e R-Type. Falando nelas, um detalhe: pena que o encarte do CD não tenha a transcrição das letras das músicas cantadas, porque são de idiomas incomuns (latim e grego). Não seria má ideia que constassem as traduções, principalmente as letras em japonês de Apidya II que foram escritas segundo o jogo. Evidente que estupefato fiquei pelas composições de Chris Huelsbeck. Por coincidência ou não, achei a músicas dos jogos infinitamente melhores que as outras não-gamísticas (Tower of Babel, Light at the End of the Tunnel e Karawane der Elefanten), com exceção da fascinante “Symphonic Shades”, cuja origem tem espírito gamístico.

Uma récita preparada com tanto esmero não podia se perder no tempo e, felizmente, o CD, que seleciona o supra-sumo da excelência, eternizará as performances. Não é exagero afirmar que o Symphonic Shades não apenas entra para o rol dos melhores álbuns orquestrados de game music, equiparando-se aos japoneses, como questiona os seus limites, pois transcende a função de trazer boas memórias para os conhecedores dos jogos. Qualquer apreciador de música erudita, gamer ou não, certamente se extasiará.

Muitíssimo obrigado ao Thomas Boecker por toda a atenção, suporte e informações.

11 Responses to “Symphonic Shades: o CD do melhor concerto que o Yuzo Koshiro já viu”


  1. 1 geraldofigueras 05/01/2009 às 9:15 am

    Um post que merece o cair da noite para ser desfrutado com a devida calma.

    Mas já digo que adorei a capa da disco.

  2. 2 Alexei Barros 05/01/2009 às 9:54 am

    Garanto que não se arrependerá, Geraldo. Em especial, as duas do Turrican, R-Type e o exaltado arranjo do Koshirão do Jim Power.

  3. 3 Acid 05/01/2009 às 7:28 pm

    Passei a tarde me deleitando com esse espetáculo musical (ouvindo cada música enquanto lia a resenha), vagarosamente saboreando cada música uma, duas vezes…

    Valeu, Alexei… MESMO.

  4. 4 Alexei Barros 05/01/2009 às 7:36 pm

    Fico feliz que tenha gostado como eu apreciei as músicas, Acid! Já perdi a conta de quantas vezes escutei (primeiro a gravação do rádio e depois o CD).


  1. 1 Hadouken-CD-Kritik : Symphonic Shades Trackback em 05/01/2009 às 10:28 am
  2. 2 3sat – Entrevista com Chris Hülsbeck « Hadouken Trackback em 06/01/2009 às 8:51 pm
  3. 3 Symphonic Fantasies será dedicado à Square Enix « Hadouken Trackback em 16/01/2009 às 11:43 pm
  4. 4 “Fanfare Overture” – Symphonic Fantasies « Hadouken Trackback em 09/03/2009 às 1:49 pm
  5. 5 7th Dragon: o ecletismo de Yuzo Koshiro « Hadouken Trackback em 24/06/2009 às 5:37 pm
  6. 6 Sombras dramáticas na Suécia « Hadouken Trackback em 09/08/2009 às 12:38 am
  7. 7 Symphonic Odysseys: 2011: Uma Odisseia do Uematsu « Hadouken Trackback em 22/07/2011 às 4:29 am

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