Adeus, Midgar

Por Claudio Prandoni

Lá pelos idos de 1997 a grande sensação em casa para mim era o Nintendo 64. Presente de aniversário conjunto para eu e meu irmão naquele ano, hospedou horas ininterruptas de Super Mario 64, Mario Kart 64, Star Fox 64 e outros tantos ótimos games com a dezena mágica múltipla de 4 da Nintendo.

Contudo, caí numas de começar a ler uma tal de revista Gamers. O Fabão conhece bem, pergunte a ele. Por meio da publicação permeada por um apaixonante espírito hardcore gamer acabei conhecendo a série Final Fantasy, mais especificamente o iminente sétimo episódio.

Lembro vagamente de detalhes do preview, como a afirmação de que só na abertura de FF VII cabiam centenas (milhares?) de FF VI e, principalmente, o protagonista Cloud (“olha, o nome dele parece com o meu”, pensou o pequeno Claudio à época) e o vilão da história, Sephiroth (“olha, ele usa a Masamune que nem o Frog do Chrono Trigger”, pensou também o Claudinho).

Pronto, começou aí a perdição. Pouco tempo depois adquiri um PSone com FF VII, terminei a bagaça e daí em diante passei a alimentar vorazmente o apreço por RPGs – semeado por Super Mario RPG, Chrono Trigger, Zelda: A Link to the Past e Phantasy Star nas gerações passadas.

Fazendo jus a uma tradição mais ou menos estabelecida entre os Toperas, FF VII permanece meu favorito, muito provavelmente por ter sido o primeiro que joguei. Ou seja, pra mim foi uma verdadeira euforia o projeto Compilation of FF VII que nos assombra desde 2005 colocando no mercado todo tipo de produto multimídia que faça alusão à saga de Cloud Strife.

Na verdade, a maioria das obras é bem mais ou menos, tirando o filme Advent Children que é fantástico – ainda mais pra quem jogou e entendeu o game. Contudo, a magnus opus da Square Enix nesta iniciativa é Crisis Core, game exclusivo para PSP. O ato derradeiro da peça engendrada por tantos mestres ligados à Square Enix.

Todo fã de FF VII que se preze sabe (e se você está lendo este review é porque é fã e provavelmente sabe mesmo): Crisis Core precede todas as histórias do universo do capítulo, tendo início sete anos antes da aventura principal.

O herói principal é Zack Fair e aqui está todo o motivo que você precisa para se convencer a jogar Crisis Core – ou até mesmo comprar um PSP, como aconteceu comigo. Em FF VII o cara é uma figura misteriosa realmente importante, mas que ninguém nunca explica direito – e o pior é que vale o mesmo para todos os outros produtos da Compilation.

Aqui não: somos apresentados em detalhes à cativante pessoa que é Zack Fair. Um guri determinado, dotado de vontade e habilidades em combate imbatíveis. Um personagem fácil de simpatizar.

O roteiro é fanástico, extremamente bem elaborado pelo genial Kazushige Nojima. Estabelece conexões com todas as outras histórias de FF VII, preenche lacunas, elucida mistérios, joga luz onde pairava escuridão. Simultaneamente, expõe os fatos cruciais para a formação da personalidade de Zack – traços que mais tarde recairão sobre Cloud – explica o bastante sobre o passado do rapaz e ainda desenvolve uma história totalmente inédita e interessante. Fácil de pegar para quem mal sabe o poder de estrago de uma materia vermelha, cativante e suculenta para os veteranos, por conta das inúmeras referências e a maneira genial como expande o já rico universo.

Elementos antes aparentemente vazios ganham significados profundos e tocantes, como a Buster Sword (aquela espada gigante do Cloud) e até mesmo o penteado de Zack – afinal, Tetsuya Nomura capricha tanto neste departamento que não podia passar de mero fetiche estético.

A progressão se dá de maneira pouco usual para os padrões da série. Em vez de um mundo aberto a explorar somos introduzidos aqui a um sistema bem linear, divido em capítulos, com missões a serem cumpridas e uma tonelada de outras paralelas selecionáveis por meio de menus.

A princípio pode parecer estranho, mas o esquema se adapta perfeitamente à plataforma portátil, proporcionando sessões de jogo nunca longas demais. Os save points também são abundantes, então dificilmente você perderá muito do seu progresso, mesmo que tenha de desligar o videogame abruptamente.

O esquema de batalhas é diverso também do padrão. De fato, transparece aqui o dedo de Tetsuya Nomura como supervisor do game, já que remete diretamente a Kingdom Hearts. Ação em tempo real, comandos selecionados por menus, certa dose de aleatoriedade e mecanismos inusitados. Fácil de dominar, um tanto quanto repetitivo, mas difícil de cansar por conta da rapidez com que ocorrem.

Explicado assim, parece que o combate carece de certa profundidade, elemento patente do sistema por turnos ou ATB. Todavia, entram em cena aqui as materias, as esferas mágicas do universo de FF VII, suprindo os embates com a dose que necessitam de planejamento e estratégia. Nada tão complexo como no RPG original, não dá pra montar combos monstruosos e matadores, mas o leque de táticas a adotar aumenta consideravelmente.

Obviamente, Summons e Limit Breaks estão presentes, atrelados aqui a um sistema de roleta – a tal aleatoriedade que citei acima – que também substitui os pontos experiência e se encarrega de aumentar o nível de Zack e das magias. O jogo finge que é aleatório o tempo todo, mas fica muito claro que ele sempre procura equilibrar o nível de herói segundo vosso progresso na aventura.

Logo abaixo, uma luta de exemplo:

Felizmente, aqui é deixada de lado a herança dispensável das lutas aleatórias. Boa parte das vezes você consegue ver os inimigos na tela e evitá-los, em outros momentos certas áreas são marcadas por possuírem combates. Ou seja, não se vê os adversários, mas cruzar aquele pedaço é quase certeza de batalha.

Teoricamente, as imagens aqui por perto dirão mais que meus caracteres, então serei sucinto, porém contundente, sobre os gráficos: Crisis Core é o jogo mais bonito do PSP. Enquanto certos títulos parecem de PSone e outros versões pioradas de PS2, CC suplanta diversos games do tijolão preto, provando mais uma vez porque a Square Enix é um dos principais estúdios AAA do mundo. As CGs? Deixam Advent Children no chinelo. Ok, não é pra tanto – o hype pesou um pouco aqui. Mas as fantásticas seqüências aqui são de um brilho e fulgor impressionantes, de fato parecendo superiores a AC, ainda mais no luxo de tela que é a do PSP.

A trilha sonora transcende a função que lhe cabe. Normalmente, um título deste tipo, uma prequel, um tapa-buracos, apresentaria somente novos arranjos de clássicos, um medley com essas composições talvez. Takeharu Ishimoto faz isso de maneira competente, mas vai além, muito mais além.

Criou um tocante tema, simplismente intitulado “Theme of CRISIS CORE”, que se repete em versões diversas no decorrer do entrecho – mais ou menos como acontece com o tema de Super Smash Bros. Brawl no game. A variedade é imensa, transitando por feições acústicas, clássicas e até rock. Complementando de maneira magistral, há também outro tema, “Why”, cantado pela artista de J-Pop chamada Ayaka e o fabuloso medley “Fullfiled Desire”, com arranjos de faixas de FF VII composto pelo músico Kazuhiko Toyama – que cuidou também de “The World’s Enemy”, arranjo Crisis Core da famosa “One-Winged Angel”.

A jornada não é lá muito extensa. Em pouco mais de 15 horas dá pra arrematar numa boa, sem grandes complicações. O lado replay vem das dezenas de pequenas missões paralelas que proporcionam facilmente mais umas duas dezenas de horas de partida bem recompensadoras já que nestas fases extras é que se consegue os melhores itens e equipamentos de Crisis Core.

Para os fãs de Final Fantasy VII, este RPG para PSP é um verdadeiro sonho. A oportunidade final e definitiva de conviver mais uma vez com Cloud, Aerith, o fantástico vilão Sephiroth (melhor que Kefka?) e ainda conhecer a fundo Zack e outras figuras igualmente cativantes. O enredo é salpicado de surpresas marcantes que colocam Crisis Core em par de igualdade com muitos outros RPGs originais, se bobear até alguns dos FF de outrora. Ouso dizer que é um pacote perfeito para quem é aficionado por FF VII.

Quem não teve a oportunidade de viajar por Midgar, Nibelhein, Costa del Sol, Gold Saucer e outras tantas locações, ou não se cativou por elas (existe realmente alguém assim??), encontrará um roteiro sólido com um sistema de jogo bacana e envolvente que peca um bocado pela repetição, mas não deve ser o bastante a ponto de afastar jogadores causando-lhes nojo e asco.

Na boa, todo spin-off deveria ser tão bom assim.

16 Responses to “Adeus, Midgar”


  1. 1 ryunoken 26/04/2008 às 9:45 pm

    FF7 não foi meu primeiro RPG, mas foi o primeiro que terminei e onde comecei a levar o estilo à sério… Meu PSP está preparado pra começar esse, só falta arrumar um tempinho. Quanto a Sephirot ser melhor que Kefka, se alguem quiser minha humilde opinião: Absolutamente, não.

  2. 2 Adney Luís 26/04/2008 às 10:55 pm

    Cara, juro que os meus olhos chegaram a lacrimejar um pouco lendo essa matéria. Infelizmente não tenho um PSP (Segui a minha linha Nintendista mesmo), mas quem sabe eu não compro o outro portátil só por causa desse jogo.

    Só falta agora a Square resolver fazer um spin-off (ou um novo jogo, não custa nada sonhar) de “Chrono Trigger”. Aí com certeza terei um enfarto de tanta emoção, hehehe…

  3. 3 geraldofigueras 27/04/2008 às 2:26 pm

    Como já comentei em outro post, FFVII foi o único da série que não joguei (não pergutem por que). A minha dúvida é a seguinte: CC tem spoilers de FFVII, ou posso jogar tranquilo?

  4. 4 Claudio Prandoni 27/04/2008 às 6:49 pm

    Vixe, Geraldo.

    Crisis Core é um poço de mega spoilers do FF VII. Mesmo porque ele elucida melhor alguns mistérios do capítulo original e tal.

    Obviamente, não que torne FF VII dispensável já que ambos se complementam, mas tiraria muito do brilho de ambos jogar o Crisis Core antes do game que o originou.

    Se realmente estiver pensando em encarar o CC, eu recomendo pegar o FF VII antes para aproveitar ambos da maneira como foram premeditados

  5. 5 geraldofigueras 28/04/2008 às 8:48 am

    Vou seguir vossa recomendação, já estou atrás do VII original.

  6. 6 Pablo Raphael 28/04/2008 às 4:53 pm

    Taí o primeiro grande RPG do PSP.

    Será que aquele sonhado remake de FFVII saira pra ele?

  7. 7 Alexei Barros 28/04/2008 às 10:22 pm

    “Fazendo jus a uma tradição mais ou menos estabelecida entre os Toperas, FF VII permanece meu favorito…“

    OBJECTION! Não sei quanto ao Sira, mas todos somos cientes de que Hitzman morre de amores pelo FFVIII e o meu preferido é o FFVI. A não ser que a tradição que você se refere seja a média de 6 e 8…

    Não obstante, o FFVII é o meu segundo favorito da série e o Crisis Core já está marcado na minha lista de pendências para terminar após ter lido os seus rasgados elogios.

  8. 8 Claudio Prandoni 28/04/2008 às 10:34 pm

    Não seja tendencioso, mestre. Talvez eu tenha me explicado mal. Leia o restante da frase…

    “…muito provavelmente por ter sido o primeiro que joguei.”

    A tradição que me refiro é de que o primeiro FF jogado por cada um acabou se convertendo no favorito – ao menos para mim e o Hitz, confesso não recordar com precisão de vossa senhoria.

  9. 9 geraldofigueras 28/04/2008 às 11:40 pm

    É o meu caso também, o primeiro jogado continua sendo o meu favorito. O Dirge of Cerberus.

  10. 10 geraldofigueras 28/04/2008 às 11:40 pm

    Brincadeira :D

    Na verdade é o X, mas gostei demais do VI e do IX, diria que pau a pau.

  11. 11 Claudio Prandoni 29/04/2008 às 12:56 am

    Poxa, Geraldo, não nos assuste assim.

    Quase rasguei aqui em casa sua carteirinha imaginária de honorável conde chiuaua do Hadouken.

    O FF X ainda é uma de minhas grandes fraudes, um dia eu acabo com isso. O FF IX acho bem bacaninha, mas a temática um tanto quanto ingênua demais me obriga a discordar de você sobre ser pau a pau com FF VI.

    O vanguardismo do roteiro do FF VI é sensacional. Como meros sprites conseguem transmitir tamanha emoção? Como os pixels e músicas midi sintetizadas cativam tanto na frívola, porém épica, seqüência da ópera?

    Talvez eu seja retrô demais às vezes…

  12. 12 Alexei Barros 29/04/2008 às 1:51 am

    @ Claudio XIII

    Ow, ow, ow! Tem razão. Minha incapacidade de interpretar textos veio à baila. Perdão pela ocorrência.

    Tem razão de novo. Se eu não estiver enganado, o FFVI foi o primeiro que eu joguei, mas o primeiro que terminei foi o FFVIII. Estranho isso.

    @ Geraldo e Claudio Barrett

    Como bem disse o Fabão no review do FFVI Advance na EGM, qualquer discussão sobre qual o melhor episódio da série será sempre infrutífera. Porém, ouso discordar de você, Geraldo, mesmo porque já ouvi elogios (na minha opinião, deveras exagerados) em outro post ao FFX. Resumidamente, o sistema de combate é o supremo de toda a saga. Confere. As CGs são fabulosas. Confere. Eu gostei muito do esquema da Sphere Grid também.

    Não posso relevar, entretanto, a absurda linearidade que perdura no jogo. Em vez de bifurcações, corredores sem quaisquer desvios (isso que ainda tem um mapa!). Além disso, numa ponderação altamente subjetiva, acho os personagens, todos eles, de Tidus à Yuna, de Wakka à Lulu, de Auron à Kihmari, todos mesmo, sem carisma. E a trilha sonora, ah, sempre a trilha sonora…Tem a “Zanarkand” que é uma obra-prima, uma ou outra ótima, mas ficou aquém de outros episódios – pessoalmente tenho o ciclo do SNES como o ápice do Nobuo Uematsu e o FFVI como o apogeu do apogeu de sua inspiração. Em suma, para mim, o FFX está, respectivamente, atrás de FFVI, FFVII, FFIV e FFV na minha lista, lembrando que ainda não finalizei FFIII DS, FFIX e FFXII.

  13. 13 geraldofigueras 29/04/2008 às 10:24 am

    É por isso que, nessas conversas, eu sempre uso os termos “achei” e “gostei”, e nunca afirmações.

    Ambas as críticas – temática do IX e linearidade do X – são reais. Mas vejam só, eu, que sou um cara ingênuo e adoro os meus jogos bem lineares, só posso adorar esses games :D

    Sobre a trilha do X, é aquele esquema que já comentei antes: o uso de compositores demais para um só trabalho arrisca a qualidade final da obra. É esse o caso: faixas inesquecíveis (To Zanarkand, Hurry!, People of the North Pole, Yuna’s Theme), experiências bizarras (Prelude, Otherworld), músicas bem compostas para o tema (Besaid Island, Auron’s Theme, Sprouting, Enemy Attack), e lixos (Normal Battle, Blitz Off, Decisive Battle).

  14. 14 Eric 29/04/2008 às 1:42 pm

    “Por meio da publicação permeada por um apaixonante espírito hardcore gamer”. E bota apaixonante nisso, Gamers foi a melhor publicação brasileira da história.


  1. 1 FF VII Frenzy « Hadouken Trackback em 21/08/2008 às 12:55 am
  2. 2 Press Start 2008: a nostalgia de Final Fantasy IX « Hadouken Trackback em 08/09/2008 às 3:46 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s




RSS

Procura-se

Categorias

Arquivos

Parceiros

bannerlateral_sfwebsite bannerlateral_gamehall bannerlateral_cej

%d blogueiros gostam disto: