Obrigado, professor, obrigado!

Por Gustavo Hitzschky

Poderia voltar uns dez anos no passado para mostrar como um jogo que terminei há alguns dias me fez recordar os passatempos do antigo ginásio. À época, costumava comprar aquelas revistas de palavras cruzadas da Coquetel, que hoje valem mais do que três reais – um absurdo, se comparado ao preço módico de outrora. Levava as publicações para o colégio e consegui influenciar alguns amigos para que também se entretivessem e aprendessem daquela maneira lúdica, e ainda hoje estão claros na memória os exercícios de lógica que surgiam intermitentes nas páginas sujas parecidas com jornal.

Não faz um mês, mestre Pranda me falou sobre um lançamento de DS que, de acordo com ele, estava fadado a cair nas minhas graças. Em seguida ele me passou o site de Professor Layton and the Curious Village, em que é possível experimentar um dos mais de cem puzzles presentes na versão final. Espertamente, a galera da Level-5 colocou um deveras divertido, em que precisamos passar para o outro lado do rio três lobos e três pintinhos respeitando determinadas regras. Exercício de combinação e lógica puro, e de repente as palavras cruzadas e os demais passatempos se converteram em treinamento cerebral eletrônico. Impulsivo que sou, na mesma tarde encomendei o jogo.

Claro, era uma constatação óbvia e sem qualquer motivo para dúvidas: Gustavo Hitzschky iria pagar um pau tremendo para PLatCV. Este assunto já foi abordado por mim e por maestro Barros, e reitero que não há nada mais satisfatório do que a emoção que se tem quando conseguimos resolver um puzzle. Pelo menos para mim, nem se compara a aniquilar quinhentos inimigos simultâneos na tela com o apertar acéfalo e frenético de botões, mas é claro que há de se respeitar quem prefere os títulos com essa vertente. Resident Evil 4, por exemplo, se tornaria bem mais atrativo se tivesse uns quebra-cabeças esporádicos – desculpem, mas eu tinha que cutucar de novo.

Após o longo introito, falemos um tanto do Professor. O pequeno vilarejo de St. Mystere, que na realidade se mostra maior do que aparenta, serve de palco para uma história munida de personagens carismáticos e apaixonados por puzzles, e todos eles, em algum momento, vão pedir a sua ajuda para solucionar os quebra-cabeças. O arqueólogo, mestre dos mistérios, músico, matemático, físico, inventor, e cambista de ingressos do Old Trafford, professor Layton, é acompanhado pelo inquieto Luke até a vila após receber uma carta de Lady Dahlia, viúva do barão Augustus Reinhold. A epístola fala sobre um curioso objeto chamado Golden Apple, que contém pistas sobre a fortuna do falecido. A trama vai ficando cada vez mais complexa quando um assassinato acontece em St. Mystere, e a morte de Simon adiciona doses cavalares de suspense agregada a presença do inspetor Chelmey e da ausência de Flora, filha única do barão que não se encontra nas redondezas da mansão onde habita.

Antes mesmo de chegar ao vilarejo, dentro do Laytonmobile, nos deparamos com um puzzle. A partir daí, serão 120 até o final, sem contar aqueles secretos que podem ser visualizados depois de cumprir certas exigências durante a aventura. Há raríssimas ocasiões em que temos que encontrar itens e usá-los em dados lugares – creio que isso só acontece duas vezes, mas prefiro não comentá-las para evitar spoilers. A fim de avançar nas investigações, é necessário falar com todos os cidadãos e clicar com a stylus em cada fresta, uma vez que há diversos quebra-cabeças ocultos. Evidentemente, não é preciso solucionar todos, mas quem é que resiste?

O professor e Luke mereciam um post somente para eles. Que força de caráter, que personalidade, que carisma – inesquecíveis desde o primeiro minuto da aventura. Impossível também não compará-los a Sherlock Holmes e Watson, dada a origem inglesa e sotaque inconfundível. A dupla se completa, cabendo ao professor a sensatez e cavalheirismo ímpares – é realmente impressionante a classe do figura, que jamais abdica de sua cartola e das boas maneiras – e a Luke o temperamento intempestivo, sendo capaz de afrontar quem trata o professor com desdém. É como se o primeiro fosse a razão e o segundo o coração, pesados em uma balança de equilíbrio perfeito necessária para que a investigação tenha êxito. Tal qual Sherlock, o professor há muito tempo sabe o que acontece em St. Mystere, como bem observou o Pranda quando conversava com ele por telefone. Os inúmeros mistérios vão sendo triturados por Layton, causando furor e perplexidade a todos os que acompanham a exibição de talento e raciocínio. Fantásticos. O restante do elenco também merece destaque, composto por uma série de personagens bizarros e divertidos como o mordomo Matthew, a dona do hotel Beatrice, o comilão Prosciutto, o irritadiço Pauly, a tarada e amante de cartas Martha ou o bigodudo francês Zappone.

O visual de Professor Layton não deixa dúvidas de que se trata de um título da Level-5, não apenas pela ambientação cartunesca, mas principalmente pelo primor e bom acabamento. Apesar de estáticos, de maneira nenhuma os ambientes caem no marasmo de serem desinteressantes, e mesmo passando incontáveis vezes por um determinado local, não nos cansamos de ir e vir. É uma pena que as seqüências animadas sejam curtas e escassas, pois são um dos pontos altos de PLatCV.

Os enigmas em si são de naturezas distintas, compreendendo desde questões matemáticas ao uso do bom senso, lógica e paciência – você irá se descabelar ao descobrir que a última letra do alfabeto não é z, perderá vários minutos tentando tirar um carro do estacionamento com o menor número de movimentos possíveis, e escrevendo palavras e encontrando novas formas com palitos de fósforo. Não sei se quem jogou compartilha desta mesma sensação, porém muitas vezes me senti um completo jumento por não conseguir encontrar as respostas certas. Em Professor, a maioria dos puzzles é simples, entretanto não deixam de exigir atenção ao que o enunciado pede ao jogador. Quando vislumbramos um exercício que aparenta requerer extensos conhecimentos matemáticos, nos surpreendemos quando a resposta estava exatamente debaixo do nariz – daí aquele sentimento de imbecilismo crônico. A fim de amenizar a dificuldade, você vai achar moedas espalhadas por parques, ruas, mansões e similares para comprar dicas, que se não chegam a responder em seu lugar, são fundamentais para iluminar a ervilha escura que alguns têm no espaço que deveria ser ocupado pelo cérebro – e eu sou um desses.

A Level-5 não poupou esforços para proporcionar os puzzles mais cavernosos e instigantes do mercado. Os quebra-cabeças foram retirados da série de livros Head Gymnastics, escritos pelo professor emérito da Universidade de Chiba, Akira Tago. O bom senhor faz pesquisas na área de psicologia e suas publicações já atingiram mais de 12 milhões de unidades vendidas no Japão. Além disso, ele criou cerca de trinta puzzles exclusivos que aproveitam a tela de toque do DS. Estamos falando da nata dos mistérios, e não daquelas bobagens tipo Resident Evil 4 de pegar a chave aqui e usar logo ali – me desculpem novamente.

A diversão em Professor não acaba quando termina. Depois de finda a aventura principal, você ainda tem acesso a uma área de bônus em que poderá ver o perfil de todos os quarenta personagens. Além disso, é possível assistir a todas as seqüências animadas, escutar as músicas, observar quadros com cenas do jogo e ouvir algumas gravações com as vozes de Luke e do professor. Não fosse isso suficiente, ainda há o índice de puzzles resolvidos, que podem ser solucionados novamente, e os Layton’s Challenges para aqueles que acharam os demais quebra-cabeças muito simples. Uma boa opção é baixar novos enigmas via WI-Fi, que são disponibilizados semanalmente. Por fim, temos a porta secreta, que só poderá ser aberta com uma senha que virá na segunda incursão.

Professor Layton and the Curious Village é desses jogos que viciam quase que instantaneamente. É a prova de que exercitar o cérebro pode ser um dos passatempos mais divertidos desde que inventaram as palavras cruzadas. Com certeza, aqui está mais uma série que acompanharei com afinco, e não obstante dizerem que se trata de uma trilogia, rogo aos deuses que saíam mais versões.

8 Responses to “Obrigado, professor, obrigado!”


  1. 1 Lucas Patricio 16/03/2008 às 11:24 pm

    Olha, esse jogo é FANTÁSTICO. Me peguei completamente viciado em jogar Professor Layton nas minhas viajens para a faculdade. É fantástico.

    Só parei de jogar pq tive que começar a debulhar os Ace Attorney’s da vida XD

    Ah, e o nome do aprendiz dele é bacana! XD

  2. 2 Igor 17/03/2008 às 12:49 am

    Definitivamente esse é o próximo jogo que vou comprar. O foda é arranjar tempo pra jogar… =/

  3. 3 Igor 17/03/2008 às 2:17 am

    A propósito, excelente review! :)

  4. 4 Claudio Prandoni 17/03/2008 às 3:55 am

    Tenha a bondade, mestre!

    Belíssimo review. Aliás, excelentes piadas também. Só faltou uma de Professor Lingüiça. Ou uma de barriga, Sr. Puzzle.

    Bem lembrada também a analogia entre o Professor Layton + Luke e Sherlock Holmes + Watson. Ouso dizer que é uma inspiração direta, vista a quantidade de semelhanças contundentes.

    Compartilho também o sentimento de jumentice e quero dar espaço aqui também pra trilha sonora que acompanha os puzzles. Apesar de simples, nunca enjoa e de certa maneira cria a ambientação perfeita para resolver um quebra-cabeça.

    Confesso que o Professor quase roubou o posto de adventure favorito para DS na minha opinião, mas assim com o bom truta Patrício acabei voltando às causas judiciais da série Ace Attorney.

    Mas foi por pouco.


  1. 1 Henshin! A volta do cavaleiro branco que não se foi. « Hadouken Trackback em 03/09/2008 às 5:54 pm
  2. 2 Press Start 2008: a classe de Professor Layton « Hadouken Trackback em 04/12/2008 às 12:29 am
  3. 3 Haja puzzle: Professor Layton retorna ao ensino fundamental em nova trilogia « Hadouken Trackback em 11/03/2009 às 9:18 pm
  4. 4 Blogs x mídia impressa: em quem confiar? « Hadouken Trackback em 18/07/2009 às 3:34 am

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