Lost é um videogame

Por André Sirangelo

Lostisagame

“Dois jogadores. Dois lados. Um é a luz, o outro a escuridão”. – Locke

Não, não é um post sobre Lost: Via Domus.

É o seguinte: no final de Lost, vamos descobrir que tudo não passa de um videogame em 6 fases sendo jogado por duas pessoas diferentes – nenhuma delas sendo personagem da série. O objetivo do jogo é ganhar pontos manipulando as pessoas na ilha para realizar ações boas ou ruins, dependendo se o jogador está do lado da “luz” ou da “escuridão”. Os 6 níveis são equivalentes a 108 dias na ilha. Quando um dos jogadores vencer, a história finalmente termina.

Pode parecer absurdo, mas essa teoria é coisa séria para um internauta que se diz um “executivo de marketing de 50 anos de idade viciado em Lost”, conhecido apenas como “all_games”. Ele criou um site e compilou um imenso banco de dados sobre os episódios para expor sua tese de que Lost é na verdade um jogo cheio de regras complexas, onde cada personagem desempenha um papel específico e tem várias missões a cumprir.

O mais estranho é que ele está certo. Pelo menos em parte.

“Ótimo, eu sou um criminoso. Você é um terrorista. Todos nós desempenhamos um papel. Quem você quer ser?” – Sawyer

A enorme teoria do all_games pode ser furada, mas uma análise mais atenciosa de Lost do ponto de vista da narrativa mostra que provavelmente é o programa de TV mais parecido com um videogame que já apareceu por aí. Essencialmente, cada episódio ou arco de episódios funciona como uma versão selvagem de Grand Theft Auto, com missões específicas que precisam ser realizadas pelos personagens sucessivamente para que eles cumpram seu objetivo de sobreviver e sair da ilha.

Não pegou? O site Lostpedia traduziu um artigo bem interessante que esclarece a técnica dos roteiristas. A enciclopédia chama de “Missões A” os objetivos do grupo central de personagens (geralmente Jack, Kate, Sawyer, Locke e Sayid). Cada virada principal na história acontece como consequência da conclusão de uma Missão A (depois de trilhas e mais trilhas no meio do mato) e acaba provocando o início uma outra expedição ainda mais arriscada que a última. Exemplos de Missões A: encontrar a cabine do avião, abrir a escotilha, procurar o balão do Henry Gale, derrotar os Outros, contatar o barco que vai resgatar todo mundo…

Em alguns momentos a missão principal tem objetivos secundários atrelados. Exemplo: no final da 3ª temporada, a embarcação da Naomi só poderia ser contatada caso Jack & cia. conseguissem desligar a transmissão deixada em loop por Danielle Rousseau 16 anos antes (objetivo 1). Fora isso, Charlie precisava desativar o bloqueador de sinal instalado na estação submarina “The Looking Glass” (objetivo 2). Por fim, cabia a Sayid, Jin e Bernard aniquilar os Outros prestes a invadir o acampamento na praia, garantindo a segurança do restante dos sobreviventes e a chegada de seus supostos salvadores (objetivo 3). Tudo como num jogo clássico de aventura como Myst ou até mesmo Zelda.

Em entrevista ao site da Time, o co-criador Damon Lindelof assumiu a inspiração nos games. O roteirista disse que ele e muitos dos escritores da equipe são gamers. Para eles, Lost é um mundo aberto como em GTA, mais focado na exploração do território do que num conflito isolado, diferente de programas como Grey’s Anatomy, no qual o objetivo dos personagens não foge muito de ajudar os pacientes que chegam ao hospital. “Em Lost, os personagens ficariam sentados na praia se não criássemos histórias para eles”, disse Lindelof.

Esse padrão não é exclusivo de Lost. A transposição da estrutura dos videogames para outras mídias já é um fenômeno bastante disseminado, principalmente em produções dos EUA e do Japão. A série 24 Horas abusa de recursos inspirados em games – como num episódio em que Jack Bauer teve que invadir a embaixada da China em Washington guiado por um sistema de radar idêntico ao de Metal Gear Solid.

Cada episódio do anime Evangelion normalmente segue a mesma estrutura gamística de inimigo superpoderoso – estratégia de defesa – objetivo quase impossível – vitória por um triz.

O divertido Cloverfield é um exemplo que leva a fórmula para o cinema. O roteiro do filme pode facilmente ser quebrado em missões que acabam dando errado e engatilhando outras missões de risco crescente, até o confronto final com o monstrengo que invade Nova York.

O que é a pós-modernidade, não é mesmo, minha gente?

8 Responses to “Lost é um videogame”


  1. 1 Sardo 12/03/2008 às 10:36 am

    Verdade. Nunca tinha feito essa analogia.

  2. 2 Alvaro Cavalcanti 12/03/2008 às 4:10 pm

    Excelente teoria. Acho que vale estudá-la mais a fundo. :-)

  3. 3 Lucas Patricio 12/03/2008 às 6:40 pm

    OMG que matéria foda, André! Sério, parabens mesmo, ficou ótima.

    Essa teoria faz muito sentido, vou dar uma bizolhada no site do cara para ver algumas teorias mais :)

    Abraços!

  4. 4 Rodrigo Budrush 12/03/2008 às 8:42 pm

    Post realmente muito bom. :)

  5. 5 Fabio Bracht 13/03/2008 às 12:06 am

    A pergunta que fica é: por que o Sira não ganhou um Pulitzer ainda?

  6. 7 Romulo De Lazzari 20/03/2008 às 3:16 am

    Muito legal o texto, parabéns!

    Eu ouvi falar de uma outra teoria para Lost que “dizem” (assisti apenas a primeira temporada) que faz muito sentido. Uma teoria de viagem no tempo (não lembro onde eu vi!)


  1. 1 O jogo do Lost é muito chato « Hadouken Trackback em 22/03/2008 às 5:01 pm

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