Gritos, sussurros e um pouco sobre Anna

Por Gustavo Hitzschky

Fico incomodado ao ver que hoje há uma escassez lamentável de jogos que nos fazem pensar. E com “pensar” não me refiro a simplesmente criar uma estratégia eficaz para derrotar um determinado inimigo ou desenvolver um plano de ação para tomar uma fortaleza, por exemplo. Falo sobretudo dos quebra-cabeças engenhosos, daqueles que nos exigem meia hora para enfim atingir a solução e dos games que não apresentam hordas adversárias que precisam ser exterminadas.

Deparei-me há alguns dias com um post bem bacana do IndieGames.com que trata da relevância dos indies para o gênero Survival Horror. Já no segundo parágrafo, o blog cita uma entrevista do Gamasutra com o produtor de Resident Evil Revelations, Masachika Kawata, que teceu comentários justamente sobre a alteração do foco da franquia (outrora) de terror.

“Especialmente no mercado norte-americano, acho que a série precisa tomar essa direção [baseada na ação]. [Os jogos principais da série Resident Evil] precisam ser uma extensão das mudanças feitas em Resident Evil 4 e 5. [...] Temos que nos manter nessa direção e levá-la um passo adiante”.

Isso me entristece sinceramente. Não é segredo que sou uma das viúvas dos RE clássicos para PS one e que gostaria que a franquia enveredasse por essa via. Não fiz pesquisa de mercado, portanto pode ser que eu esteja errado, mas será mesmo que não há mais um público amplo e pronto para consumir títulos com uma narrativa mais lenta, cadenciada, e acima de tudo, inteligente?

Acabo de terminar um jogo assim. Anna, desenvolvido pelo estúdio italiano Dreampainters, não possui inimigos, o que fica claro logo nos primeiros minutos e no fato de que não é possível obter armas – a não ser facas, pedaços de metal e outros apetrechos que devem ser usados somente na resolução dos puzzles. Aliás, de início é difícil acreditar que se trata de um game de terror: você está diante de uma casa com um moinho em um cenário absolutamente inofensivo e bucólico, onde predomina o verde e o som tranquilizante de um riacho. Até que se entre na casa…

A história de Anna não é simples e seria necessário jogar mais uma ou duas vezes para entendê-la plenamente. Você controla um homem aparentemente assombrado por seu passado e que agora se depara com a casa que o persegue em seus pesadelos. Ao adentrar, tudo indica que um espírito vai se esforçar sobremaneira para mantê-lo afastado dali. No final, vê-se que isso foi para benefício do próprio protagonista. Ou não.

De qualquer forma, ecoo aquilo que li no artigo do indiegames.com: Anna me cativou pela sensação de desespero que causa. Como afirmei, em determinado momento você se dá conta de que dificilmente algum inimigo vai aparecer ali. Mas não acredito que isso em nenhum momento seja uma certeza. Será que ninguém vem mesmo? Sim, alguém vem. Ou talvez “algo” seria mais apropriado. E não há armas, a única forma de se defender é sair correndo. Junte-se a isso o fato de que o cenário escuro é permeado por risos macabros, sussurros, passos e silvos cuja fonte é desconhecida e tem-se uma ambientação pouco acolhedora em um contraste macabro com a área inicial.

Os ambientes visitados em Anna não são abundantes. Há somente o primeiro andar da casa, que pode ser dividido em três cômodos maiores, e o sótão. Ainda assim, existe variedade porque muitos quebra-cabeças solucionados fazem com que os locais se modifiquem e assim surgem novos elementos. Os puzzles são complicados e muitos deles, nada evidentes. Não seria exagero declarar que possivelmente, tal qual aconteceu comigo, você ficará trinta minutos ou mais na tentativa de avançar para, em seguida, empacar de novo. Frustrante? Às vezes, confesso, mas, e antes de continuar eu gostaria de deixar claro que isso se trata de uma opinião e não um dogma, satisfaz muito mais, para mim, sobrepujar um puzzle dificílimo do que matar um inimigo ultrapoderoso. Não estou com a razão porque isso é relativo e subjetivo.

“Ao jogar Resident Evil 5, você só tem que pensar em como matar os inimigos – você não os teme. Pelo menos não mais do que temeria um soldado genérico de Call of Duty”, palavras de Simone Tagliaferri, o responsável por Anna, na mesma nota do indiegames.com. Não fui até o final de Resident Evil 5 para opinar, mas fica aqui registrada a impressão de Tagliaferri.

De minha parte, concluo afirmando que acredito haver espaço e mercado para todos os tipos de jogos, absolutamente todos. Porém, não há como negar que existe uma predominância, a meu ver, prejudicial, de jogos de ação. E se o terror agoniza no mainstream, que os indies continuem agraciando os jogadores com produtos do calibre de Anna.

About these ads

3 Responses to “Gritos, sussurros e um pouco sobre Anna”


  1. 1 Dario Coutinho 26/07/2012 às 6:16 pm

    Muito gente não vai gostar do que vou escrever aqui, mas os jogos atuais (consoles) não são para pessoas inteligentes. Digo, você não precisa refletir, você recebe um disco de 60 doletas e deve se preocupar só em conquistas, troféus e etc.

    Pra que mais “no brain” do que o shooters atuais, onde ao morrer voltasse a 15 segundos atrás.

    Não estou dizendo que não é divertido, longe disso, o que quero dizer é que o filão maior do mercado não quer jogar um game “emocionante” que seja instigador e inspirador. A maioria quer só atirar e olhar os gráficos.

    Ps. já ta na hora de denominarem melhor Survival Horror como “Adventure Horror”

  2. 2 cristopher 21/02/2013 às 11:44 am

    na verdade os jogos predominantes são de ação porque foram feitos para adolescentes,o mercado é voltado para eles
    só agora estão correndo atras do prejuizo,fazendo jogos que não são tão violentos como Anna

    e jogar algum jogo não tem nada haver com o grau de inteligencia como diz o Dario ,eu sei que aqui é para comentar sobre o jogo mas eu fiquei meio irritado com o comentario dele…

    ate foi feito uma pesquisa mostrando que pessoas que jogam muitos jogos eletronicos,aqueles “viciados”,são mais inteligentes do que as pessoas “normais”.
    mesmo os de violencia precisa fazer uma estretegias para mata o inimigo,tem que pensa rapido,precisa reflexo,pensa como fazer sua munição ser suficiente se tive pouca,melhora a visão,melhora e é só da uma pesquisada no google que vc vera

    e mais

    nenhum jogo é voltado só para o grafico,um bom jogo tem que ter uma historia legal para prende o jogador e ñ fica enjoativo,boa jogabilidade é o mais inportante,e o grafico ajuda muito mas ñ é o melhor.
    as melhores enpresas de jogos eletronicos sabem disso , ou elas ñ estariam vendendo muitos jogos.. GTA4,eu só joguei por causa do personagen principal,gostei dele.mas prefiro o gta san andreas que da pra faze mais coisas e tem o grafico meio ruim

    os jogos estão cada vez com os melhores graficos porque os computadores estão cada vez melhorescomputadores estão ficando melhor

    mulheres ñ gosta de violencia como os homens eu ACHO que muitas mulheres jogam esse tipo de jogo só por causa da historia,e dos personagens

    memso assim,deveriam criar mais jogos como Anna msm,eu gostei da historia mas ñ tire paciencia para jogar,
    os jogos eletronicos deveria e provavelmente vai agrada a todo tipo de pessoas,muitas gostam de jogos sem muita violencia,e as grandes empresas vão tenta vende jogos chega a esses consumidores tambem


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




RSS

Twitter

Procura-se

Categorias

Arquivos

Parceiros

bannerlateral_sfwebsite bannerlateral_gamehall bannerlateral_cej bannerlateral_girlsofwar bannerlateral_gamerbr bannerlateral_consolesonoro bannerlateral_zeebobrasil bannerlateral_snk-neofighters brawlalliance_banner_copy
hadoukeninenglish hadoukenenespanol hadoukenenfrancais hadoukeninitaliano hadoukenindeutscher hadoukenjapones

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.545 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: