Symphonic Fantasies Tokyo: as já conhecidas fantasias sinfônicas em interpretações mais que perfeitas na Terra do Sol Nascente


Por Alexei Barros

Por mais tempo que um indivíduo se dedique a uma determinada obra, sempre há espaço para melhorias. Quem é perfeccionista e vê o que foi feito anos depois, fica com vontade de mexer aqui, retocar ali e até, por que não, começar do zero. Isso em qualquer atividade. Nos videogames, esse aperfeiçoamento vem na forma das atualizações online. Na música e, especialmente, nas músicas orquestrais, o trabalho de aprimoramento é muito maior. Já imaginou ter que imprimir todas as partituras dos instrumentistas de novo? Pelo tempo e dinheiro que se gasta com isso, os polimentos são raros nos concertos de games.

Mas, quando o Symphonic Fantasies, originalmente executado em 2009 na Colônia, Alemanha, é frequentemente exaltado – “absoluto” e “impoluto” foram adjetivos frequentes quando me referi ao concerto e depois ao álbum publicado em 2010 –, logo você vai imaginar que a produção do espetáculo se acostumará com os elogios, repousando na confortável zona de conforto das reprises idênticas à primeira apresentação. Porém, nada disso aconteceu quando o Symphonic Fantasies foi mostrado em Tóquio em janeiro de 2012, récita esta registrada no álbum Symphonic Fantasies Tokyo, lançado em 11 de junho deste ano.

O impacto causado pelo Symphonic Fantasies foi muito grande há três anos. De uma só vez, o concerto revolucionou nas suítes gigantes (de cerca de 18 minutos), na transmissão em vídeo ao vivo para todo o mundo e na qualidade impecável da performance. Dessa forma, foram feitos convites para apresentações em outros países, e o próprio Nobuo Uematsu sugeriu levar o Symphonic Fantasies ao Japão. Mas, para chegar nesse nível, foram necessários 14 dias cheios de ensaios. Ter todo esse tempo livre nas agendas de orquestras pelo mundo não é comum.

Enquanto isso, graças ao êxito do Symphonic Fantasies, aconteceram mais dois concertos-tributo em Colônia: o Symphonic Legends, em homenagem à Nintendo, em 2010, e o Symphonic Odysseys, em reverência ao Nobuo Uematsu, em 2011. Ainda no ano passado aconteceu o LEGENDS, uma revisão do Symphonic Legends na Suécia que serviu para o produtor Thomas Boecker tirar a conclusão de que seria possível ter a mesma qualidade apresentada na Alemanha com apenas dois dias de ensaio. “A experiência em Estocolmo com LEGENDS me mostrou que, se as partituras forem bem-feitas e os músicos estiverem motivados e forem bons, vai funcionar”, disse antes da realização do Symphonic Fantasies em Tóquio. Além disso, os arranjos foram ajustados para otimizar a performance. “Quanto mais conhecimento o arranjador tiver, ele pode encontrar soluções para fazer soar bem sem ser MUITO difícil de tocar. Então é isso que vamos fazer. O tempo que vamos ganhar dessa forma será gasto para fazer soar ainda mais emocionante, mais bonito.”

Com isso, Boecker decidiu investir em 2012 no Symphonic Fantasies em Tóquio, no décimo ano consecutivo em que ele produz concertos de games, chegando ao país onde tudo começou. O primeiro dessa dezena, o First Symphonic Game Music Concert, em 2003, foi também primeiro espetáculo de game music fora do Japão. Para tanto, ele contratou a Tokyo Philharmonic Orchestra, a mais antiga orquestra de música erudita nipônica (formada em 1901), e o Tokyo Philharmonic Chorus, ambos recorrentes em álbuns e récitas de jogos eletrônicos. Benyamin Nuss no piano e Rony Barrak na darbuka voltaram ao palco e, no lugar do norte-americano Arnie Roth, o alemão Eckehard Stier assumiu a regência. Foram realizadas apresentações nos dias 7 e 8 de janeiro no Tokyo Bunka Kaikan, o mesmo local do Dairantou Smash Brothers DX Orchestra Concert. No primeiro dia, estiveram presentes Hiroki Kikuta (Secret of Mana) e Yasunori Mitsuda (Chrono Trigger e Cross) e, no outro, além dos dois, a mestra Yoko Shimomura (Kingdom Hearts). Para completar o quarteto de compositores da Square que haviam comparecido ao espetáculo em Colônia, só ficou faltando mesmo o Nobuo Uematsu.

Como o Symphonic Fantasies original já tinha sido lançado em CD na Europa e no Japão, não seria de esperar que a versão mostrada em Tóquio também fosse. Eis que inesperadamente em maio de 2012 o álbum Symphonic Fantasies Tokyo foi anunciado e em junho foi lançado – por enquanto, somente com publicação no continente europeu.

A principal diferença é que, enquanto o álbum do Symphonic Fantasies original condensava todo o concerto em um CD e deixava o segmento do bis para lançamento digital, o álbum do Symphonic Fantasies Tokyo cobre o espetáculo na íntegra, forçando a divisão do programa em dois discos. O primeiro, com a abertura e as suítes de Kingdom Hearts e Secret of Mana; o outro com as suítes de Chrono e Final Fantasy e o novo bis.

O encarte, com 20 páginas repletas de fotos das apresentações e perfis dos envolvidos, possui agora um prefácio assinado pelo Masashi Hamauzu, que não teve músicas executadas no concerto, mas vem se tornando cada vez mais frequente nas produções do Thomas Boecker. Aliás, só de ver o nome dele, já me deu vontade de que fosse feita uma suíte da série SaGa – obscura no ocidente, mas popular no Japão –, com os seus trabalhos no SaGa Frontier II e especialmente no Unlimited Saga. Mas essa vontade fica para uma próxima. Outra decisão que achei acertada foi a adoção do inglês no texto, dada a universalidade do idioma, visto que, no álbum gravado na Alemanha, a edição japonesa estava escrita na língua local e, na europeia, em alemão. O único ponto um pouco chato disso é a dificuldade de retirar o encarte da caixa do álbum, porque ficou bastante justo, no limite. Se você conseguiu tirar uma vez, é provável que não vai querer fazer isso de novo com medo de estragar o papel.

Uma grande vantagem do Symphonic Fantasies Tokyo em relação ao Symphonic Fantasies é justamente o fato de o concerto ter sido gravado no Japão. Como dito aqui tantas vezes, o público nipônico é extremamente acanhado e, verdade seja dita, educado. Uma plateia inteligente, que respeita a performance e quer apreciá-la, quer fazer valer o ingresso. Durante os dois CDs não há um pio sequer da plateia e nem mesmo aplausos ao final da execução de cada número, o que dá ao Symphonic Fantasies Tokyo a impressão de ter sido gravado em estúdio tamanho o silêncio. No CD do Symphonic Fantasies dá para ouvir, durante a execução do tema dos Chocobos, um “woow” proferido por um fã tresloucado. Hoje, esse cara deve estar muito por feliz por ter o grito eternizado e arranhado a perfeição da performance. Aqui não há nada disso, muito felizmente. Por isso… viva os japoneses!

Já adianto que, excetuando o Encore, todo o resto da seleção de músicas arranjadas é similar ao primeiro Symphonic Fantasies. Mesmo que continue achando que algumas faixas poderiam entrar (nada vai me tirar da cabeça que fez muita falta a “Danger” no Secret of Mana e talvez mais alguma música animada do jogo), não vou repetir tudo o que já falei. É tudo uma questão de comparações. Se na ocasião do concerto eu confrontei os arranjos orquestrais com as originais e no review do álbum coloquei frente a frente os arranjos da mixagem do CD com a versão transmitida, o cotejo agora será entre os dois álbuns. As novidades do Symphonic Fantasies Tokyo estão nas entrelinhas, nas interpretações, nas sutilezas, portanto vamos revisitar aos poucos, com calma, as histórias contadas pelas suítes no palco do concerto realizado na Terra do Sol Nascente.

01 – “Fanfare Overture”

Composição, arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Vale rememorar: a fim de não iniciar o concerto abruptamente para a parte de game music, Jonne Valtonen compôs especialmente para o Symphonic Fantasies a fanfarra que difere de todo o restante melódico do programa. As mudanças do primeiro álbum para cá são mínimas: o início nas madeiras está com andamento mais devagar, criando uma entrada mais atmosférica; a mixagem reforça os metais e a percussão; e novos trechos de trompa enriquecem a composição que já era formidável três anos atrás. Mesmo que a abertura tenha sido superada pela “Opening Fanfare” do Symphonic Odysseys (uma composição conjunta do Valtonen com o Nobuo Uematsu), a peça vai ficar marcada por abrir uma das apresentações mais memoráveis de game music.

02 – “Fantasy I: Kingdom Hearts”

Originais: “Dearly Beloved” (Kingdom Hearts) ~ “Sora” (Kingdom Hearts II) ~ “Hand in Hand” (Kingdom Hearts) ~ “Sora” (Kingdom Hearts II) ~ “Hand in Hand” (Kingdom Hearts) ~ “Kairi” ~ “Sora” (Kingdom Hearts II) ~ “The Other Promise” ~ “Happy Holidays!” (Kingdom Hearts II Final Mix +) ~ “Dearly Beloved” (Kingdom Hearts) ~ “Sora” ~ “A Fight to the Death” ~ “Sora” ~ “A Fight to the Death” ~ “Sora” (Kingdom Hearts II) ~ “Hand in Hand – Reprise -” (Kingdom Hearts)

Composição: Yoko Shimomura
Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen e Roger Wanamo

Em 2009, a suíte de Kingdom Hearts marcava a estreia de Benyamin Nuss nos concertos em Colônia, enquanto Roger Wanamo teve apenas um papel secundário: o de dar suporte ao Jonne Valtonen nas suítes de Chrono e no Encore. Mas Wanamo também se revelou um excelente arranjador, com os segmentos do Mario clássico, Super Mario Galaxy e Encore no Symphonic Legends, F-Zero no LEGENDS e ainda as suítes de Final Fantasy e Final Fantasy VII no Symphonic Odysseys. Com o acúmulo de conhecimento e, mais importante, a experiência como arranjador de peças de piano, Wanamo revisou o trabalho preparado pelo Valtonen, acrescentando novos elementos que você saberá a seguir.

Lembro que, à época do Symphonic Fantasies, havia uma expectativa em torno do virtuosismo de Nuss, que iria ao encontro das magistrais composições da Yoko Shimomura para o Kingdom Hearts com ênfase no piano. Porém, a suíte do Valtonen buscou a suavidade em primeiro lugar e podia ficar no ar até uma sensação de que o Nuss não havia sido plenamente explorado (como seria de fato nas lépidas passagens de piano na suíte de Final Fantasy no Symphonic Odysseys). Na nova versão, a peça atende àquela expectativa inicial, não nas seleções de faixas (como disse no começo, as músicas foram mantidas aqui), mas em partes mais difíceis de serem tocadas.

O começo, porém, não muda muito: da rápida lembrança da “Dearly Beloved” somos levados até a “Sora”, em que o pianista começa a intervir mais rapidamente, oferecendo uma prévia do espetáculo que está por vir. A “Hand in Hand” teve uma enriquecida nas cordas, com a parte do Nuss que já era um pouco mais agitada. “Sora”“Hand in Hand” reaparecem tocada pela orquestra, culminando na “Kairi”, no qual temos um solo enternecedor do jovem instrumentista. A trompa resgata a “Sora” para emendar na “The Other Promise” e fazer prevalecer a faceta sombria de Kingdom Hearts. Até aqui, nenhuma novidade capaz de abalar corações.

Mas aí quando entra a “Happy Holidays!”… há uma melhora incrível na parte do piano, e Benyamin Nuss simplesmente estraçalha nesse excerto. E quando entra a orquestra então? Enfim posso dizer que o arranjo superou a versão da “Twinkle Twinkle Holidays” no álbum drammatica. Para acalmar as coisas, a icônica “Dearly Beloved” regressa no trecho mais reconhecível, transmitindo a melancolia inigualável da Shimomura. Um solo de violoncelo ajuda a entristecer ainda mais.

Flauta e clarinete tentam animar com a “Sora” e o piano fica mais virtuosístico. Temos então a “A Fight to the Death”. Pelo que me recordo, o trecho correspondente à faixa foi um pouco criticado pela descaracterização da magnífica composição original, parecendo algo como uma marcha. A nova versão não tira essa sensação por completo, mas acrescenta uma dose um pouco maior de virtuosismo na interpolação com a “Sora”. Fechando a suíte, temos a excelente “Hand in Hand – Reprise -”.

Se as mudanças não foram tão drásticas assim, ao menos os toques do Wanamo conferiram uma sofisticação maior à peça. Gostaria muito de ver outros trabalhos dele em parceria com o Valtonen, porque sempre sai coisa boa – na maioria das vezes, cada um fez o seu arranjo, apesar de sempre haver pitacos de um para o outro.

03 – “Fantasy II: Secret of Mana”

Originais: “Angel’s Fear” ~ “Into the Thick of It” ~ “Eternal Recurrence” ~ “Angel’s Fear” ~ “Prophecy” ~ “Angel’s Fear” ~ “The Oracle” ~ “Phantom and a Rose” ~ “Angel’s Fear”

Composição: Hiroki Kikuta
Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Muito provável que a maior parte do público que saiu do Cologne Philharmonic Hall e viu o espetáculo pela internet elegeu a suíte de Secret of Mana como favorita pela participação imponente do coral – uma decisão que, se bem me lembro, achei inusitada. Em Tóquio, o impacto foi ainda maior porque o coral entrou no palco apenas na hora que ia cantar – no caso no Secret of Mana, para depois sair e voltar no Final Fantasy e encore. Se uma pessoa não soubesse nada a respeito do concerto, certamente se embasbacaria com o tamanho do Tokyo Philharmonic Chorus, que mostrou ter a mesma magnitude do WDR Radio Choir Cologne.

Apesar disso e de ter gostado bastante do resultado, eu senti fortemente a ausência de temas mais animados, porque essa era a minha lembrança quando terminei o Secret of Mana (não na época do lançamento original, só em 2005). Um jogo que termina de forma melancólica, mas equilibra isso com a energia das indefectíveis linhas de baixo e melodias alucinantes do Hiroki Kikuta. Penso ser possível fazer outra suíte baseada no Secret of Mana com uma seleção de músicas completamente distinta tamanha a quantidade de boas composições. Todavia, mesmo com todos os elogios, o arranjador Jonne Valtonen ainda encontrou espaço para melhorias e leves alterações, mas nenhuma, como já me cansei de dizer, que incorporasse essa dose de alegria do jogo.

Aquele som de baleia do início da “Angel’s Fear”… é incrível como Valtonen conseguiu orquestrar isso, e agora os gritos do mamífero aquático ficaram ainda mais realçados, deixando a intenção muito mais evidente (na hora do concerto me recordo não ter entendido direito do que se tratava). O violino sola com a melodia do mencionado tema de abertura, daí vem o caos, a tempestade, o pânico… e entra o coral avassalador nessa hora. Quando as coisas começam a se acalmar, nota-se uma riqueza maior nas cordas, que domina a música até permitir o retorno do coro. Como na Alemanha, os versos em latim dão uma pompa especial que não imaginei que fosse combinar tanto com o jogo.

A transição para a  “Into the Thick of It” foi aprimorada, parecendo simular a introdução dos personagens na área de exploração. Uma pintura, desta vez enobrecida por um pizzicato aqui e ali. A flauta e depois as cordas introduzem a “Eternal Recurrence”, que fica assombrosa com a entrada do coral. Coral que já faz questão de recuperar a “Angel’s Fear”, aparecendo numa contundente rendição.

A parte da percussão que imita o Flammie Drum é tocada muito mais rápida, e a “Prophecy” ganhou um rebusque maior da orquestra nesse que é provavelmente o meu excerto favorito da peça que cresce, cresce e cresce mais ainda para atingir o pico da “Angel’s Fear”. A tempestade parece ter passado, mas há uma parte nova das madeiras. Chega então a bizarrice da “The Oracle”, agora num andamento muito mais veloz do que no Symphonic Fantasies de 2009, uma decisão que considero apropriada. Vem a tristeza profunda da “Phantom and a Rose”, com o coral, o solo de flauta, e alternâncias entre cordas e coral – e umas pitadas breves dos metais. Apaziguando aos poucos, “Angel’s Fear” fecha a suíte, com aquele mesmo efeito de pingos de chuva. Temos a versão definitiva desta obra-prima que, a despeito de tudo, não faz mudar minha opinião a respeito da falta de músicas animadas como disse anteriormente.

Pausa para a troca de CD…

04 – “Fantasy III: Chrono Trigger/Chrono Cross”

Originais: “A Premonition” (Chrono Trigger) ~ “Scars of Time” (Chrono Cross) ~ “Chrono Trigger” ~ “Battle with Magus” (Chrono Trigger) ~ “Scars of Time” (Chrono Cross) ~ “Peaceful Days” ~ “The Royal Trial” (Chrono Trigger)  ~ “Gale” ~ “The Brink of Death” ~ “Gale” (Chrono Cross) ~ “Battle with Magus” (Chrono Trigger) ~ “Prisoners of Fate” (Chrono Cross)  ~ “To Far Away Times” “A Premonition” (Chrono Trigger)  ~ “Scars of Time” (Chrono Cross) ~ “Battle with Magus” ~ “Frog’s Theme” (Chrono Trigger)  ~ “Scars of Time” (Chrono Cross)/“Chrono Trigger” (Chrono Trigger)

Composição: Yasunori Mitsuda
Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen e Roger Wanamo

Chegamos naquela que, para mim, é a melhor suíte do programa, unindo temas animados e reflexivos ao sintetizar em 16 minutos o que faz a música do Yasunori Mitsuda tão especial na série Chrono. As alterações são ainda mais sutis, mas não é esforço nenhum voltarmos no tempo mais uma vez para revisitarmos essa peça tão bem elaborada.

No piano, a “A Premonition” chega só para enganar, porque vem para arrebentar a famosa “Scars of Time”, com flauta e flautim na parte calma e o solo de violino depois na virada da música, já com a darbuka do Rony Barrak. Parece que vai dar uma acalmada, quando chega o tema principal “Chrono Trigger”, com os metais em destaque.

E vai parando com a “Battle with Magus” e a “Scars of Time”. “Bom dia, Crono”. Essa é a mensagem que a alegre “Peaceful Days” quer passar. O perigo surge do nada com a “The Royal Trial”, trazendo as lembranças daquele julgamento e a orquestra para tudo, colocando toda a atenção para o solo de violino na “Gale”. Imbatível! O ritmo ficou um pouco mais rápido do que no Symphonic Fantasies na Alemanha, com a darbuka pontuando toda a tensão do tema de combate. Em alternância, tem a “The Brink of Death”. Imbatível mais uma vez. Os gritos são feitos pelos próprios percussionistas e até integrantes da orquestra. Que saudades do Chrono Cross…

Rápida referência à “Battle with Magus”, e o solo de violino de cortar o coração anuncia o advento de, quem diria, outra música de batalha: a memorável “Prisoners of Fate”, com toda a riqueza das cordas. Como se tamanha comoção não fosse suficiente, a garganta começa a apertar quando essa faixa bate de frente com a “To Far Away Times”, outra que aparece com andamento mais rápido. Se acabasse aí já podíamos ir para casa. Mas ainda tem mais.

Na sequência de emendas, “A Premonition” e “Scars of Time” aterrissam na “Battle with Magus”, o caótico tema que ficou um estouro com os metais e a percussão. Numa transição perfeita, vem a música que é uma das preferidas dos fãs, a “Frog’s Theme”, em uma interpretação que explora muito bem a dinâmica das cordas. Ficou melhor do que antes. Como saberíamos depois ser uma característica dos arranjos do Roger Wanamo, “Scars of Time”“Chrono Trigger” são fundidas em uma só performance de maneira genial.

Pela descrição, não é difícil de perceber a pouca quantidade de mudanças. São mínimas. Mas nem precisava alterar muito. Já era sublime e conseguiram melhorar.

05 – “Fantasy IV: Final Fantasy”

Originais: “Prelude” (Final Fantasy) ~ “Those Who Fight” ~ “One-Winged Angel” (Final Fantasy VII) ~ “Chocobo!” (Final Fantasy II) ~ “The Mystic Forest” (Final Fantasy VI) ~ “Clash on the Big Bridge” (Final Fantasy V) ~ “Final Fantasy” (Final Fantasy) ~ “Chocobo!” (Final Fantasy II) ~ “Bombing Mission” (Final Fantasy VII) ~ “Final Fantasy” (Final Fantasy)

Composição: Nobuo Uematsu
Arranjo e orquestração: Jonne Valtonen

Pela maneira com que a suíte de Final Fantasy de I a VI no Symphonic Odysseys foi dividida em três partes (ou seja, com pausas entre elas), eu até achei que o segmento da série do Symphonic Fantasies sofreria várias alterações. De acordo com o que se comentou na época do concerto de 2009, a suíte estava mais para medley, pelo fato de algumas músicas não terem relação entre si. Não foi o caso, curiosamente. Somente foram feitos alguns polimentos.

“Prelude” ganhou uma nova camada de beleza, com a harpa destilando o clima etéreo, enquanto os outros instrumentos preparam o terreno para o coral. Até mesmo a parte do coro foi um pouco enriquecida, antes da avassaladora e inesperada entrada da “Those Who Fight”, que, assim como outros temas de combate, ganhou um andamento mais rápido. Isso, aposto, é uma marca do maestro Eckehard Stier, que prefere dar maior aceleração a esse tipo de música do que o Arnie Roth. A mesma piada da falsa entrada da “One-Winged Angel” é repetida, com a diferença de que os japoneses não caíram nessa emboscada e não riram. A transição para a “Chocobo!”, mesmo que propositalmente mais abrupta para conferir um efeito cômico, foi aperfeiçoada. Tema dos chocobos que também ficou mais rápido inclusive. A “The Mystic Forest” entra de leve com o coral e os violinos em uma bela dinâmica. Prevalece o clima sombrio e misterioso. Essa parte com a faixa do FFVI foi estendida, permitindo maior apreciação dessa atmosfera. Descansou?

Porque se há um tema de combate que precisa ser rápido na execução este é o “Clash on the Big Bridge”, uma música que deve ser tocada a uns 200 km/h. Em uma interpretação muito melhor do que em 2009, a faixa ficou ainda mais empolgante. Parece que vai acabar com a “Final Fantasy”, mas é uma nova piada para o retorno da “Chocobo!”, uma repetição que muitos julgavam desnecessária na primeira ocasião, e eu acho que continua sendo, mesmo que a escolha se deva para criar uma lógica entre os temas na suíte. A transição ficou mais elaborada e até mesmo o trecho das pitorescas aves de transporte está mais rico. A “Bombing Mission”, igualmente mais rápida como todo o restante da peça, ganhou uma nova dose de impacto. A nova alusão à “Chocobo!” aparece com maior evidência, com uma pegada mais cômica dos metais. Para terminar, a passagem para a “Final Fantasy” está mais elaborada, e a participação das cordas no início do tema da série bem mais majestosa. Com o som da caixa da percussão, o coral encaminha até o desfecho, que ganhou novas doses de requinte.

A nova versão aperfeiçoou tudo o que a suíte mostrada na Alemanha já tinha de bom, mas, considerando o que foi feito no Symphonic Odysseys com a série Final Fantasy, voltar para escutar esse segmento já não traz a mesma satisfação como em 2009.

05 – “Encore: Final Boss Suite”

Originais: “Destati” (Kingdom Hearts) ~ “Meridian Dance” (Secret of Mana) ~ “World Revolution” (Chrono Trigger) ~ “One-Winged Angel” (Final Fantasy VII)/“Kefka” (Final Fantasy VI) ~ “Dancing Mad” (Final Fantasy VI)/ “One-Winged Angel” (Final Fantasy VII) ~ “One-Winged Angel” (Final Fantasy VII)/“Kefka” (Final Fantasy VI)

Composição: Yoko Shimomura, Hiroki Kikuta, Yasunori Mitsuda e Nobuo Uematsu
Arranjo e orquestração: Roger Wanamo

Enfim chegamos ao segmento que sofreu a maior quantidade de alterações e, por isso, é o que despertará o maior interesse de quem já ouviu e reouviu o Symphonic Fantasies na Alemanha. Não obstante, essa peça com os temas dos chefões finais continua seguindo a mudança convencional de entrar uma música de uma série e seguir para outra série, a não ser pelo final, em que as faixas de Final Fantasy interagem. Vamos ver uma por uma das mudanças em relação à “Encore (Final Boss Suite)” de 2009.

Seguindo a ordem de jogos do programa, “Destati” do Kingdom Hearts chega com o coral em latim, mas, apesar de explodir na chegada, as vozes se aquietam, sussurrando de mansinho, bem devagar, para que a peça cresça paulatinamente. Na versão anterior, o coral basicamente seguia a imponência em toda a sua extensão. Outra diferença: aqui Rony Barrak não toca na parte de Kingdom Hearts como no arranjo do Jonne Valtonen.

Barrak entra já no trecho correspondente ao Secret of Mana, desta vez acompanhado pelo Benyamin Nuss, que não participou do encore no Symphonic Fantasies na Alemanha. Eis que, como antes, surge a “Meridian Dance”. Por mais que eu entenda que determinados cortes precisam ser feitos em segmentos com várias músicas, me causa espécie muitas vezes como certas partes do que considero a nata da composição acabam ficando de fora. Era o caso da “Meridian Dance” na versão do Jonne Valtonen, que excluía a espetacular progressão harmônica que pode ser definida como “isso é Hiroki Kikuta”. Felizmente, na releitura do Wanamo, ele aproveitou o excerto, colocando o Nuss para tocá-la alucinadamente no piano com as batucadas certeiras do Barrak (e mal posso imaginar o que eles fariam com a “Danger”; desculpe a insistência). A parte das cordas também ficou uma beleza que só.

Caminhando para o Chrono Trigger, temos uma troca de faixa extremamente bem-vinda: a “Lavos’ Theme” dá lugar para a espetacular “World Revolution”, com o retorno do coral e tudo, apenas interrompido pelo essencial solo de trompete. Como o órgão do Tokyo Bunka Kaikan não era de tubo como no Cologne Philharmonic Hall, o trecho foi reescrito de forma a tirar esse instrumento do protagonismo e colocá-lo apenas como suporte.

Para terminar, o que Roger Wanamo fez é coisa de gênio, porque ele embaralhou a “One-Winged Angel”, “Kefka”“Dancing Mad”, associando trechos parecidos de dois trabalhos diferentes (FFVI e VII) e de duas etapas distintas da carreira do Nobuo Uematsu (no SNES e PlayStation). A marcha da “One-Winged Angel” começa – que alegria não ouvir nenhuma manifestação da plateia nessa hora –, e do nada, encaixando com perfeição, entra o tema do “Kefka”, voltando normalmente para a entrada de coral na “One-Winged Angel”. Enquanto isso, os violinos tocam a “Kefka” e os metais intervêm também insistindo no mesmo tema. No momento de perigo da música, entra a “Dancing Mad” para completar, intercalando com a “One-Winged Angel” a ponto de nos enganar de que é uma música só. A “One-Winged Angel” volta o duelo com a “Kefka” até o encerramento. Na batalha entre os vilões Sephiroth e Kefka, quem saiu vencedor foi Roger Wanamo por ter preparado semelhante obra-prima.

As versão definitiva da perfeição

Todas as mudanças do Symphonic Fantasies Tokyo foram para melhor se compararmos com o Symphonic Fantasies de 2009: temas de combate mais rápidos, trechos mais rebuscados, passagens aprimoradas. Tudo isso, com a mesma primazia técnica da mixagem e um segmento inédito excepcional. Apesar disso, se você já possui o CD do concerto de Colônia, não recomendo comprar o novo álbum gravado em Tóquio. Eu sugeriria se houvesse, além do novo encore, algo mais ousado, a exemplo de uma suíte 100% inédita de séries como SaGa ou Front Mission, o que seria plenamente possível de tocar no Japão sem receio algum de alienar as pessoas pela popularidade das franquias. Isso, desconsiderando, claro, o fato de que o concerto tem um limite de tempo para manter o espectador interessado. Para cobrir tudo da Square (e por extensão as franquias da Enix), seriam necessários alguns dias de apresentação.

Porém, se você ainda não comprou o álbum do primeiro concerto, mais do que nunca é uma obrigação adquirir o registro material do Symphonic Fantasies Tokyo, a versão atualizada do espetáculo preparado por uma equipe perfeccionista como raramente se vê nas apresentações de game music. O Symphonic Fantasies parecia não ter mais para onde melhorar, mas o Symphonic Fantasies Tokyo vai um passo além, com arranjos e performance irrepreensíveis.

Agradecido ao Thomas Boecker pelo suporte e paciência.

Disponível em: Maz Sound

[Imagens do post via Dengeki e 4Gamer.net]

0 Responses to “Symphonic Fantasies Tokyo: as já conhecidas fantasias sinfônicas em interpretações mais que perfeitas na Terra do Sol Nascente”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




RSS

Twitter

Procura-se

Categorias

Arquivos

Parceiros

bannerlateral_sfwebsite bannerlateral_gamehall bannerlateral_cej bannerlateral_girlsofwar bannerlateral_gamerbr bannerlateral_consolesonoro bannerlateral_zeebobrasil bannerlateral_snk-neofighters brawlalliance_banner_copy
hadoukeninenglish hadoukenenespanol hadoukenenfrancais hadoukeninitaliano hadoukenindeutscher hadoukenjapones

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.545 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: