Vossa eminência, que amadorismo


Por Alexei Barros

Pela enésima vez, sabe se lá o motivo, o site da Eminence Symphony Orchestra saiu do ar e voltou, não sei por que, se o design é praticamente o mesmo. Mais organizada e com maior quantidade de informações do que uns anos atrás, a página traz o  histórico da orquestra australiana que já participou da gravação de trilhas de jogos como Soulcalibur IV, Valkyria Chronicles, Opoona e animes idem, a exemplo de Romeo x Juliet e The Vanishment of Haruhi Suzumiya. Já falei umas mil vezes, são feitos respeitáveis. Logo no começo do texto na seção do perfil está escrito: “Fundada em 2003 por Hiroaki Yura, a Eminence Symphony Orchestra é um grupo de profissionais, dedicados músicos com uma visão distinta”.

Profissional, ao menos para mim, é o termo usado para designar algo relativo à profissão, aqui no caso de instrumentistas. Instrumentistas autossuficientes, ou seja, que sobrevivem da música por ter talento e uma técnica superior de um amador porque estudaram anos e anos para atingir o nível de alguém bancar para o que você toca. De fato, pelo que se ouve nos vídeos e gravações,  as performances são profissionais, ainda que nem sempre perfeitas. O problema não é a qualidade.

Não é a primeira vez que me revolto com esse tipo de coisa, haja vista o que disse no Hadoukast #06, só não foi tão escancarado como agora. Tem coisas que precisam ser ditas uma hora. É o que você lê na abertura do post: “Garanta o futuro da Eminence fazendo hoje uma doação online”.

Não quero dar uma lição de moral. Cada um doa dinheiro como bem entende, seja para auxiliar os desabrigados por consequência do terremoto no Haiti, das tempestades do Rio de Janeiro ou então para uma causa mais “nobre”: ajudar a manter uma orquestra sinfônica profissional especializada em jogos e animes. E do primeiro mundo! Antes a orquestra fosse de um país subdesenvolvido, resultado de um projeto social que visasse a ajudar pessoas carentes. Seria um imperativo nesse caso.

Mas não. É uma orquestra que, mais uma vez, repito, tem contato direto com diversos compositores, entre eles nomes como Kow Otani, Go Shiina, Inon Zur, Yasunori Mitsuda, Hitoshi Sakimoto, para não esquecer de todos os arranjadores do estúdio Imagine, como Shiro Hamaguchi, Hayato Matsuo e Akifumi Tada. Que se gaba de ter a apresentação da “One-Winged Angel” mais vista no YouTube. Que se orgulha de dizer que foi a única orquestra com o primeiro concerto presenciado pelo Nobuo Uematsu. Que se vangloria de ser a mais longa série de concertos de games e animes.

É o cúmulo do amadorismo, é a falta do senso de ridículo. Se a Eminence não consegue se sustentar com as gravações de trilhas sonoras e concertos na proposta de levar a música erudita para o público jovem por meio dos jogos e animações japonesas, não deveria nem existir, paciência, quem sabe outra área seja mais lucrativa. Pedir doação quebra a lógica do profissionalismo, em que se paga para ter alguma coisa em troca. Veja você, até mesmo quando um violinista de entrada de metrô indiretamente pede dinheiro com o estojo do instrumento aberto, na verdade você não doa, mas retribui em dinheiro, se quiser, por ouvir a música que ele está tocando.

A única vez em que soube de caso semelhante de pedido de doação em apresentações de game music foi com o Symphony Final Fantasy Tactics, com a diferença de que era uma iniciativa amadora com entrada gratuita. Tudo isso já estava entalado na garganta há tempos, mas não foi possível segurar ao ver o pedido tão escancarado, somados aos elogios exacerbados de  fanboys que acham tudo o que eles fazem o máximo e das autopropagandas exageradas.

Então, só eu acho inconcebível que uma orquestra profissional peça doações?

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8 Responses to “Vossa eminência, que amadorismo”


  1. 1 Lia 30/04/2010 às 8:44 pm

    Hmm, poderia ser que os poucos lançamentos deles ainda não confiram ainda o que se entende por sustento, caso no qual teria que se considerar o quanto (ou se) eles ganham por concerto pra ser uma “desculpa” plausível.
    Mas mesmo nesse cenário não se escaparia do uso desproporcional do termo “profissional”, especialmente num ramo rígido como música clássica.
    É, pegou mal pra eles.

  2. 2 Alexei Barros 30/04/2010 às 11:08 pm

    Ufa, enfim alguém que concordou comigo, e acho que vai ser bem raro se repetir, porque eu duvido que mais alguém vá comentar isso.

    Exatamente, eu acho que até eu engoliria se fizesse pouco tempo e fosse um grupo novo, mas, puxa, já vai fazer sete anos.

    Uma coisa que vem me irritando é que em vez de adotar uma postura humilde e realista, como “somos um grupo independente que vem conquistado o seu espaço”, eles se colocam em um pedestal com essas autopropagandas ridículas e hype exagerado, como, por exemplo, a promessa que o coral do A Night in Fantasia 2009 seria tão grande que não daria para contar os integrantes e no fim das contas teve 20 pessoas ou então essa pérola publicada no Twitter:

    “Something big is coming. Something so big that it’ll shake the very foundation of orchestral concerts and the very meaning of performance.”

    Além disso, me ocorreu duas coisas que ainda não mencionei no post:
    - Se os concertos, gravações e álbuns não são suficientes para bancar os instrumentistas, então pense em outras formas de ganhar dinheiro. Quem sabe fazendo mais concertos na Austrália, mesmo que seja com um monte de números repetidos – ué, não é isso que o VGL faz? Para tanto, não precisa se prender à game music e aos animes. Por que não realizam apresentações de música erudita ou então de trilhas de filmes? Lembro que no começo eles até chegaram a fazer uma récita de músicas do John Williams.

    - Pedindo doações, indiretamente você desestimula qualquer orquestra que tente fazer o mesmo, porque viver da música de games e animes não vale a pena.Seria mais digno que eles fechassem às portas a pedir dinheiro de boa vontade dos fãs, que não são poucos, e são muito apaixonados.

    • 3 Lia 03/05/2010 às 5:07 pm

      Haha, nossa, é esquisito pensar que uma orquestra tenha fanboys, disso pelo menos eles podem se gabar.

      Muito interessante esse lance do recital. Aliás, intercalar apresentações de VGM e anime com compositores populares de pompa seria não só uma boa saída para arrecadação de fundos como para dar o renome que eles presumem ter, atraindo não só fãs de VGM para música erudita como vice-versa.

      Gente, de onde saiu esse ego? o0

  3. 4 Alexei Barros 03/05/2010 às 7:48 pm

    Não havia parado para pensar o quanto é curioso que uma orquestra tenha fanboys. O mais engraçado é que isso é motivado pelos próprios, como mostra o subfórum Fan Club no site. Menos, vai.

    Falando nesse fórum, mais especificamente na parte Recruitment, encontro outro exemplo típico que mostra o amadorismo da produção.

    “Aliás, intercalar apresentações de VGM e anime com compositores populares de pompa seria não só uma boa saída para arrecadação de fundos como para dar o renome que eles presumem ter, atraindo não só fãs de VGM para música erudita como vice-versa.”

    Falou tudo. O que falta é o vice-versa. Eles estão muito bitolados nos fãs de games e animes e parecem não se preocupar em atrair um novo público – o VGL faz tanto sucesso porque conseguiu fazer isso. E sei que os concertos da WDR Radio Orchestra na Alemanha não são feitos somente para fãs hardcore de game music.

  4. 5 Leon Santiago 04/02/2011 às 8:20 am

    Bom, ia comentar pra discordar, mas pelos comentários parece que já discordaram antes e não quero ser repetitivo ;D

    Só meus 2 cents, não me aguento.

    Profissionalismo tem relação com técnica e com sustento, como você disse. Mas a fonte do dinheiro não precisa necessariamente ser a tradicional capitalista (não sou desses pseudo-comunas, pelo contrário). É uma visão quadrada e, espero não ofender, pouco criativa, limitada.
    Muitos profissionais, em muitas áreas, estão apostando em outras formas de lucro, que os destaquem e façam atingir o público com mais efeito.

    Games é um exemplo. Existe um movimento de pré-financiamento de grupos de game-designers. Eles te mostram um sample, você financia os caras, eles te apresentam um game completo tempos depois. Você quer o game pronto, o game deles, porque confia que são profissionais talentosos, e recebe pelo que pagou. Todos ganham.
    Bandas e autores literários têm recorrido a montes de modelos diferentes, graças à pirataria. Grupos de teatro profissionais recebem auxílio do governo (auxílio que estamos pagando, normalmente) desde sempre. Empresas de comunicação lucram via publicidade (você paga, sei lá, 10 reais numa SuperInteressante, valor que não cobre metade dos custos da produção). Grandes empresas vendem ações (por definição, investimento numa aposta futura).

    São outros modelos de negócio, só isso.

    Eles seriam amadores se, por acaso, o maestro fosse um carpinteiro de segunda à sexta ou coisa assim. Mas eles todos trabalham financiados pelos seus clientes, como todo bom profissional.

    • 6 Alexei Barros 04/02/2011 às 11:34 am

      De maneira alguma, Leon. Você não tem obrigação de concordar com tudo. Aliás, discordâncias são sempre bem-vindas porque fomentam boas discussões.

      Seus comentários me fizeram refletir sobre a questão toda, e a verdade é que não parei para pensar nas formas lucrativas que não a tradicional capitalista.

      De fato, todas as maneiras que você destacou (bandas, escritores, grupos de teatro e empresas) de ganhar dinheiro são legítimas, mas não apelam para as doações. Se for preciso, por que a Eminence não procura financiamento do governo? Por que não procura alguém que os patrocine? Alguém que compre as ações?

      Falando especificamente de games, no caso que você mencionou a pessoa que bancou ao menos sabe que o investimento dela vai ter algum retorno.

      O grande problema da Eminence é que eles pediram (e ainda pedem) doações, sem que exista uma recompensa, por menor que seja, aos investidores. Ou pelo menos não fica claro. Você doa, e nem sequer sabe como o dinheiro será usado. Para mim, tem que ter algo em troca de quem paga.


  1. 1 VGL 2010 confirmado em SP e RJ: zzzzzzzzzzzz… « Hadouken Trackback em 20/07/2010 às 11:11 pm
  2. 2 Twilight Symphony: a trilha de Twilight Princess como todo mundo sempre quis « Hadouken Trackback em 03/02/2011 às 11:06 pm

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