MGS3: SE Frenzy

Por Claudio Prandoni

Geralmente eu fico no frenesi apenas logo após terminar um game (aconteceu com o Twin Snakes, Crisis Core e Justice for All). Todavia, MGS3 era um game que exigia certo tempo de reflexão antes de ser comentado.

Como diz maestro Barros, é um game “denso”. Cheio de referências aos episódios anteriores (ou seriam posteriores?), entremeando-se à História real e refinando de maneira primorosa a fórmula stealth consagrada da série adicionando ainda elementos de sobrevivência.

Tendo em vista que no momento me encontro em ambiente litorâneo e assim desprovido da grotesca lápide, ainda me abstenho de comentar MGS4 – mesmo porque seu eu quisesse não conseguiria, uma vez que o cabeludo Toperão, vulgo Hitz, surrupiou de maneira larápia o jogo do reduto.

Ainda que MGS3 já tenha certa idade nas costas, evitarei aqui spoilers. Assim, prefiro destacar um video absolutamente hilário produzido pela Kojima Productions e mostrado numa conferência (não lembro exatamente qual) que acabou sendo incluído como vídeo secreto no Metal Gear Solid 3: Subsistence.

Em Snake Eraser nosso amigo andrógino Raiden tenta garimpar de volta o posto de personagem principal de MGS eliminando Big Boss Naked Snake durante as operações Virtuous Mission e Snake Eater. Obviamente, ele fracassa miseravelmente, mas quem sabe no MGS5, né? Ah, e o segmento final é absolutamente fantástico para a galera nostálgica retrô (aka. Alexei).

Mas não acaba por aí: depois do salto dimensional discorro acerca de uma teoria minha sobre MGS3. Mas cuidado já que aqui não terei pudor em revelar spoilers.

Ainda que Metal Gear Solid 3: Snake Eater seja ambientado no passado, fico com a impressão de que mesmo assim acompanhamos a aventura sob a ótica dos tempos atuais. Seria bem típico do Kojima – duvido que ele fosse deixar de lado a possibilidade de permear a narrativa com as peculiaridades pós-modernas dele.

Tento ser mais claro: é como se a narrativa de jogo, a própria experiência até, tivesse consciência de que a história antecede cronologicamente MGS e MGS2: Sons of Liberty, mas só está sendo contada depois deles. Desta forma, vários aspectos do game são contemplados levando em conta conceitos já estabelecidos pelos outros MGS, usando-os para dar um toque ainda mais retrô (ou enfartante…) a determinados elementos ou então tirando um sarro deles. Às vezes, o simples exagero patente de alguns trechos e fatos denotam essa perspectiva nostálgica que afirmo.

Ou seja, é a saga de Naked Snake se tornando Big Boss como vista pelo olhar de quem já presenciou todas as outras aventuras até então de Solid Snake.

Enumero e explico.

- Ocelot
Sério. Um dos personagens mais importantes de toda a trama, vilão master de MGS4, é apenas um jovem guri pirralho esnobe nas terras de Groznyj Grad e Tselinoyarsk.

Até aí tudo bem, o lance que encano são os trejeitos do rapaz. Malabares exacerbadíssimos com pistolas e revólveres (alguns dele mega adornados), poses de malandrão ao ficar apontando o dedo (OBJECTION?) para Naked Snake TODA vez que o encontra e coisas do tipo. Ah, e claro: por que raios ele mia??

- EVA
Tudo bem que Hideo Kojima queria fazer de MGS3 o filme de James Bond que ele sempre quis dirigir. Tudo bem que toda película do espião britânico tem ao menos uma Bond Girl de lascívia e exuberância extremas. Tudo bem que EVA faz esse papel – mas precisava exagerar tanto?

Não há uma cena sequer com a espiã (dupla? tripla?) em que o generoso decote seja destaque. Ou que o fascínio pelo charme bruto de Snake a tente de alguma forma. É bacana até, uma faceta não muito explorada da série até então, mas que pende para o exagero cômico em certos momentos – como a cena na caverna após a batalha contra The Sorrow.

- Volgin
Eu até engulo ninjas cibernéticos exoesqueléticos, xamãs (da redação?) que controlam corvos, aberrações com poderes psíquicos paranormais, supostos vampiros com tiros na cuca, moças com campos magnéticos defletores e coisas do gênero. Porém, no meu conceito as habilidades elétricas transpassam tudo supracitado e o próprio limite imposto – subliminarmente – pela série. De fato, não há sequer uma explicação clara aos motivos dele ter esses poderes – ele tem e pronto. Ponto final.

- Raiden / Raikov
A máscara no começo (se você seleciona “I Like MGS2″ antes de iniciar uma nova partida) até vai, é engraçado e tal, mas a presença do Major Raikov já corrobora minha tese.

Não estou criticando, pelo contrário, acho genial. Kojima usa as próprias críticas a ele em MGS2 para transformar em elemento de jogabilidade e ao mesmo tempo fazer piada disso.

- Modelos na sala de Granin
Prestou atenção quando invadiu a sala de Granin, vulgo criador do Metal Gear? Isso, o russo bêbado que fala para Snake como chegar à base que aloja o Shagohod. Pois bem, se você pressionou R1 nos momentos propícios com certeza percebeu que no lugar havia modelos miniatura dos Metal Gear REX e RAY, assim como um do Jehuty, da série futurista Zone of the Enders. Tudo isso muitas décadas antes de qualquer um deles existir de fato. Seria Granin um designer militar visionário e subestimado?

- Sapos Kerotan
Volta e meia aparecem coisas estranhas nos ambientes explorados em Metal Gear Solid, como câmeras fotográficas, revistas pornográficas e bonecos do Mario e Luigi em bases militares. Mas volto ao argumento de que Kojima sempre dá uma explicação relativamente lógica e aceitável para isso tudo estar lá. Mas o que dizer dos 64 sapinhos Kerotan espalhados pelos lugares mais exóticos de MGS3?

 

 - Batalhas contra chefes
Os embates contra os mestres de qualquer MGS são momentos absolutamente memoráveis (talvez não o tosco do Fatman em MGS2…) e Snake Eater possui alguns dos mais marcantes. Na mesma medida, envolve os mais bizarros, estranhos e assustadores.

As abelhas domadas de The Pain (!?); os trejeitos aracnídeos e a língua nojenta de The Fear (!!??); a idade centenária, os olhos esbugalhados e o irritante poder de fotossíntese de The End (!!!???) a estupidez em forma de ser humano piromaníaco de The Fury (esse eu não vejo a menor graça, que nem o Alexei com o Wakka de FFX) e o impactante e enigmático confronto contra The Sorrow.

Todos apresentam traços absurdamente sobrenaturais que, novamente, carecem de explicações tragáveis. São porque são e é isso aí.

- Fantasmas
Fato: episódios anteriores de MGS já tinha aparições de entidades ectoplásmicas – vulgo fantasmas. Todavia, exigiam que se tirasse fotos com a máquina fotográfica em lugares específicos ou algo similar. Em MGS3 eles aparecem de maneira mais proeminente, pipocando em cutscenes ou momentos decisivos da trama – sem contar a própria batalha contra o The Sorrow.

- O sonho cancelado de Snake
Manja quando Naked Snake é escorraçado, encaolhado e totalmente zoado por Volgin, Ocelot e The Boss? Então, depois disso você é colocado numa jaula. Salve o jogo e reinicie a partida. Quando carregar o arquivo de save, você contemplará um sonho de Snake no qual se controla um caçador de zumbis munido de uma espada que combate hordas de mortos-vivos.

Um devaneio surreal que dizem ser o que sobrou de Guy Savage, game cancelado da Konami que era dirigido por Shuyo Murata, co-diretor de MGS4.

- Música tema
Encerro minha Cross Examination tese com aquela que considero a prova mais cabal de que essa ótica fantasiosa de Kojima foi feita conscientemente: a música tema Snake Eater. Como diz a última frase da letra da emotiva canção: “I’m still in a dream, Snake Eater!”. Em tradução livre, “Ainda estou em um sonho, Snake Eater!”.

 Basicamente, é isso. Confesso que não sinto que consegui elaborar o tanto quanto eu gostaria ou ache que o assunto mereça, mas ao menos consegui externar essa impressão que tive durante quase todas as minhas 17 horas e meia de partida em Metal Gear Solid 3 – sensação essa que não se repetiu até agora no pouco tempo que tive em MGS Portable Ops.

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13 Responses to “MGS3: SE Frenzy”


  1. 1 idiosyncratic idiot 23/06/2008 às 8:16 am

    Excelente post, Mestre Pranda!

    Não tenho muita autoridade pra comentar sobre a série. O único Metal Gear que joguei foi o do PSOne (o 2 e o 3 só vi meio de relance um amigo jogando). Agora quanto à questão de vermos a narrativa através das lentes de quem já vivenciou todo o resto da serie – acho que não seja algo proposital e consciente, mas sim um reflexo inevitável do fato do Sr. Kojima – assim como o jogador – já terem todo esse background, que fica meio difícil de deixar de lado, por assim dizer.

    Agora, saindo um pouco do foco cronológico-narrativo do seu argumento. Teve uma parte do post que me chamou a atenção:


    Eu até engulo ninjas cibernéticos exoesqueléticos, xamãs (da redação?) que controlam corvos, aberrações com poderes psíquicos paranormais, supostos vampiros com tiros na cuca, moças com campos magnéticos defletores e coisas do gênero…

    Pois é… acho que eu não engulo. É justamente esse tipo de coisa que me impede de abraçar MGS como fã; essa característica da série de colocar uma trama bem concebida, séria, com comentário político, temas atuais e juntar com momentos de pura WTF?!icidade, esse caldeirão de excentricidades e idiossincrasias que vc descreveu. Me lembro que isso me afetou mesmo lá atrás, quando jogava MGS1. No momento que eu estava enfrentando Psycho Mantis pensei “não era isso que eu tinha em mente quando o jogo começou”.

    Não estou criticando a série, longe disso; só estou dizendo o que não me atrai nela. Pra mim não há dúvida quanto ao valor artístico de MGS, talvez eu é que não tenha a sensibilidade artística para apreciá-la completamente.

  2. 2 Gustavo Oliveira 23/06/2008 às 8:49 am

    Cara…

    Você tá na praia sem o PS3?
    Osso…

    Mas pelo menos o PSP tem que levar…

    Não joguei MGS3 inteiro.
    Nunca joguei o 2…

    :(

  3. 3 Platy 23/06/2008 às 9:23 am

    Sei la …. isso pareceu querer explicar coisas q não deveriam ser explicadas..meio q nem mario, sabe ?

    É pq é videogame =P
    Pq é entretenimento, pq easter eggs são legais, pq japoneses são mais tarados que o maior parte do resto do mundo … esse tipo de coisa

  4. 4 Claudio Prandoni 23/06/2008 às 9:29 am

    @Platy
    Então, não foi bem que eu quis explicar. Concordo plenamente que o fato de ser videogame legitima tudo até certo ponto e realmente é divertido e engraçado ter tudo isso.

    Na verdade, o que me motivou a destacar esses argumentos é justamente o fato de que os MGS anteriores transpareciam mais sobriedade em relação às bizarrices. Tudo tinha uma explicação, um motivo para estar li por mais que soasse ridículo. Já no MGS3 o Kojima fez porque queria fazer e é isso aí.

    Para mim foi algo que valorizou ainda mais o MGS3. É mais ou menos como rola com o MGS2: não apenas o enredo em si é uma atração, mas também a maneira como ele é contado.

  5. 5 Pablo Raphael 23/06/2008 às 10:41 am

    Mestre Pranda, eu estou em frenesi gamístico por causa de MGS3 já tem uns 03 anos. Para mim, é o episódio mais f.. de todos até agora. Depois que eu jogar Guns of the Patriots talvez mude de idéia.

    Sobre o ponto de vista… eu acho que a história toda é uma lembrança de Big Boss, Eva e Ocelot.

    Sobre os poderes do Volguin, será ele um dos primeiros experimentos dos Philosophers?

    E bem.. os Cobra são um grupo de mercenários paranormais… e a paranormalidade estava muito em voga nos anos 60 e 70, época em que o jogo é ambientado.

    E o controle sobre as abelhas (apicinése?) é um poder e tanto. Se não me engano, em Bioshock também temos algo assim.

  6. 6 Pablo Raphael 23/06/2008 às 10:42 am

    E só para constar: o final de MGS3 é obrigatório para quem escreve sobre games.

  7. 7 Alexei Barros 23/06/2008 às 10:54 am

    @ Pablo Raphael

    “E só para constar: o final de MGS3 é obrigatório para quem escreve sobre games.”

    Assino embaixo.

    @ Prandoni Boss e idiosyncratic idiot

    De fato o MGS3: Snake Eater demora para ser absorvido. Mas ao que tudo indica – espero poder comprovar até o final do ano -, o MGS4 deve ser ainda mais visceral.

    Estou de pleno acordo dos seus comentários e o idiosyncratic idiot acerca do Volgin. Para falar a verdade, é um personagem meio tolo, que destoa do elenco de primeira grandeza formado por Naked Snake, The Boss, EVA etc. Não gostei dele não…

    Agora esse sapo Kerotan… Se não me engano já vi um perdido na mesa do Fabão na redação da Futuro na companhia do Solid Hitzman… Pelo jeito, ainda acreditando estar em 1964, o Gustavo deve tê-lo matado. Talvez seja a única resposta para o sumiço do batráquio na formação atual da mesa do Fabão na Europa… :D

  8. 8 Igor 23/06/2008 às 2:48 pm

    São essas coisas que fazem de Metal Gear Metal Gear, e não Splinter Cell.

    E todas elas são muito bem pensadas para ter algum sentido. Não se enganem: tudo é colocado com cuidado e com um propósito.

    E também porque uma das características da série é a metalinguagem: o jogo falando dele próprio. E isso deixa tudo mais FODA ainda.

  9. 9 Pablo Raphael 23/06/2008 às 9:22 pm

    E Metal Gear por mais cinematográfico que seja é uma criação de um oriental que deve ter lido muito mangá e assistido sua cota de animes… e bem, é um videogame, né.

    Um dos que definem o gênero.

    Daí os chefões terem superpoderes e coisas do tipo.

  10. 10 Igor 23/06/2008 às 9:26 pm

    Não acho que ser videogame implique nesse “surrealismo”. Tem muito “realismo” ai que prova o contrário…

  11. 11 R.A.S [Rapid Assalt Snake] 28/10/2009 às 2:14 pm

    Ta ta.. tem muito exagero.. mas é uma serie maravilhosa e cheia de otimos pontos..

    Ha.. o Ocelot “mia” porque seu nome é uma tradução da nossa Jaguatirica, ou uma outra especie de felino mais especifica.. por isso o “miado” .. pego mal ne.. acho que dava pra pegar um bixo mais maneiro… mas tmbm podia ser pior.. ja pensou se fosse algo como uma borboleta, ou sei la o q!

    rsrssrs.. flws

  12. 12 Victor 14/07/2010 às 2:28 pm

    Sim.o minigame do pesadelo é o jogo guy savage.Aparece nos créditos finais,nightmare game ‘guy savage’.parabens por ter escrito sobre essa obra mestra dos jogos.
    E sobre outro ponto da história:Granin é o desenhista dos protótipos do metal gear,porem Volgin preferiu o tanque de Sokolov (Shagohod) e deixou o metal gear de Granin de lado.No final do jogo após os créditos Ocelot diz que pegou esses projetos porquê achou interessante logo podemos ver que foi ele quem levou os projetos de Granin para a sua autoridade.


  1. 1 A next Metal Gear is… ah, quem liga… « Hadouken Trackback em 26/05/2009 às 11:23 pm

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