Por Gustavo Hitzschky
Acredito que falo por uma boa parte de quem joga videogame: a gente não deveria dar tanta importância assim para reviews que vemos em revistas e sites especializados. Digo isso por dois motivos – o primeiro é que grande parte das vezes olhamos somente a nota de um jogo e já tiramos as nossas conclusões; o segundo é que, como já mencionado em outros posts, conta muito o fato de que o gostar ou não de um game passa predominantemente por conceitos pessoais variáveis.
Alguns de vocês sabem da minha repulsa por Resident Evil 4 e, onde a maioria viu novidades e melhorias, eu encontrei defeitos. Digamos que mais ou menos o contrário aconteceu com Haunting Ground, título da Capcom lançado em 2005 para o PS2 que me chamou a atenção quando de seu lançamento, mas que não contou com críticas positivas. Isso acarretou uma perda de interesse de minha parte, e pude jogá-lo somente agora, mais de dois anos após o desembarque. Não sei se estou me tornando um ancião chato que discorda de tudo, mas vou defender a opinião de que eles estavam errados: Haunting Ground é muito bom.
Que fique bem claro que não estamos diante de um clássico com o Resident Evil original, só para comparar com um jogo da mesma Capcom e de viés parecido. HG tem vários problemas de pequena escala que o tornam um porre momentaneamente, porém se consagra no quesito medo e desespero para fugir dos inimigos na pele de uma inocente (e muito medrosa) rapariga.
A moça é Fiona Belli e se encontra em um castelo que pertenceu aos seus antepassados. Ela não sabe como chegou lá e por que meios, sua lembrança mais recente é um acidente automobilístico que envolveu os seus pais. Na jornada para descobrir o que se passa na fortaleza e descobrir os propósitos dos parentes, Fiona vai contar com a ajuda de Hewie, um cachorro pastor assaz simpático e útil constantemente.
Fiona não usa armas. Só chuta. Fiona não encontra tacos de beisebol, bastões ou spray de pimenta. Só botas para chutar – inimigos e partes do cenário que cedem aos golpes. Ela é perseguida, no início da aventura, por Debilitas, um ogro papudo desengonçado que a confunde com uma boneca e que quer fazer dela seu mais novo brinquedo. A fim de fugir da aberração, podemos mandar Hewie abocanhá-lo para ganhar tempo e fugir ou ainda esconder-se atrás de portas, dentro de armários e embaixo de camas e sofás. O problema é que nem sempre Hewie vai obedecer aos chamados, e para que o canino se torne mais obediente é necessário agradá-lo com afagos e alimentos. Depois de Debilitas, ainda sofremos a perseguição de Daniella, senhora nada amistosa que caminha com um pedaço de vidro nas mãos, e outros seres não menos espantosos como Riccardo e Lorenzo.
Assim como elogiei a ambientação de Resident Evil 4 no review passado, HG também faz muito bem neste ponto. As locações visitadas incluem o castelo, a mansão, jardins, uma floresta densa, a torre de água e a casa da verdade, basicamente. Não bastassem os gráficos bonitos para um já senil PS2, o desespero e imersão aumentam substancialmente quando os inimigos encontram Fiona, já que a música muda e tem-se uma sensação de pânico como em poucos games do gênero. Aliás, Fiona é uma moça extremamente fraca e suscetível a sustos, e isso faz com que ela se apavore facilmente quando se depara com os adversários. É por isso que se deve usar itens espalhados pelo cenários para recuperar a stamina e diminuir o nível de pavor da protagonista. Uma boa sugestão para despistar os perseguidores é fechar as portas durante a fuga a fim de retardar o oponente e ganhar uns segundos a mais para se esconder. Inteligentemente, a Capcom fez dos esconderijos um abrigo passageiro, na ausência de denominação mais certeira: não adianta se esconder quinze vezes em um dado armário porque ele se torna manjado pelos malvados, é bem possível que Fiona seja encontrada na terceira vez que use o local. Isso exige do jogador destreza para localizar áreas novas e habilidade para, na falta de um lugar seguro, correr até despistar os bandidos nojentos.
Hewie, o cachorro, merece pelo menos um parágrafo só para ele. Não seria possível avançar sem a ajuda do companheiro. Hewie, além de abocanhar os inimigos para você, também o ajuda a entrar em passagens apertadas e assim conseguir itens e na resolução de puzzles. É bem verdade que há ocasiões em que ele não respeita as suas ordens (é possível dar uma bronca nele caso isso aconteça) e pode deixar o jogador na mão em algumas vezes, mas, dada a fragilidade de Fiona e o medo que ela tem da própria sombra, a dependência que temos de Hewie é imensa. Isso é uma das coisas que irritam em HG: estamos correndo de um adversário que está na nossa cola e Hewie se nega a atender a solicitação de socorro. Em vez de atacar, ele está a quilômetros de distância, provavelmente aliviando necessidades fisiológicas e enterrando o ocorrido, enquanto Fiona fica cada vez mais cansada e à mercê das porradas alheias. Outra mancada violenta da Capcom foi o excesso de precisão exigida em alguns puzzles. No final do jogo, no planetário da torre de água, é preciso acionar botões no chão que representam os planetas e astros, e para tanto deve-se usar primeiro a Fiona e depois o Hewie. Caso o cachorro não esteja exatamente em cima da plataforma, o comando é invalidado e você precisa começar o processo tudo de novo. Desnecessário.
Outra coisa muito chata em HG é o processo de forjar itens por meio de alquimia – aliás, a história gira em torno da ciência e demanda bastante atenção para ser entendida integralmente, tanto que alguns pontos permanecem obscuros para mim. A fim de produzir os itens, Fiona precisa recolher medalhões e levá-los a uma máquina especial. Uma vez inseridos, temos que apertar o botão “X” na hora certa e combinar as cores para formar determinado composto. Explicando não parece tão medonho, mas tente realizar a operação repetidas vezes para ver o quão mala todo o processo é.
Haunting Ground possui quatro finais diferentes e dá vontade de terminar o jogo de novo para ver os outros desfechos. Finalizada pela primeira vez, a jornada passa a contar com o modo hard e outras vestimentas disponíveis – meus destaques vão para a roupa de cowgirl e a indumentária pervertida com chicotinho, “proibida em alguns estados” como alerta o game. Puzzles inteligentes, quantidade razoável de inimigos ao contrário do número pornográfico de RE4 (matei 16 monstros contra mais de 500 deste último), ambientação bacana e inovações na jogabilidade por conta do companheiro Hewie, HG peca apenas em certos aspectos, que poderiam muito bem ser reparados em uma improvável seqüência. Prometo que esta é a última vez que pego no pé de Resident Evil 4. Ou não.


























Tiro o chapéu para o senhor Gustavo (que honra este belíssimo nome e se comporta como um genuíno da espécie).
Coisas a ressaltar:
1. Muito boa a crítica do jogo. Muito boa mesmo.
2. Vossa senhoria esqueceu de citar que a moça é MUITO GOSTOSA. (heheheheh)
3. Na crítca, você diz que nem sempre é necessário um review, ou que não devemos dar tanta atenção a isso. Concordo.
Lembrando que um jogo é analisado por uma pessoa como eu ou você ou qualquer outra, e que no review, essa pessoa expressa a opinião DELA. Consequentemente, o review, sai com as impressões pessoais de quem jogou, justamente da forma como você fez com Hunting Ground. Games bons passaram desapercebidos como REZ, Beyond good & evil. Fazer o quê?
É por isso que ainda acredito em um novo tipo de formato de jornalismo de games brasileiro. Afinal o mercado é outro, a cultura é outra e o gosto por games tambem muda.
Então reformulemos nossa maneira de fazer review adaptando á realidade do Brasil. (rimou hehehe)
A crítica do jogo está excelente, ponderando bem os pontos positivos e negativos. O fato de alguém deixar de jogar um jogo ou assistir a um filme porque a crítica deu nota baixa é frustrante. Assista, jogue, depois leia reviews e resenhas. Sei que a maioria das pessoas não faz isso porque poucos se arriscam a ‘experimentar’ uma novidade sem saber a opinião das pessoas que já o fizeram. Haunting Ground foi um jogo descoberto nesses programas sobre games na TV. É um dos melhores jogos a que assiti (sim, raras vezes eu jogo..rs), você tem que ter a paciência adquirida no Metal Gear e resolver muitos puzzles interessantes como alguns do Resident Evil. A delícia do jogo está em descobrir o que cada composto que você forjou na máquina de alquimia faz (alguns são danosos) e em como derrotar ou fugir de um perseguidor.
P.S.: Preste sempre atenção à música (ou a ausência dela), às atitudes do Hewie e, quando estiver escondido e o inimigo for embora, dê mais um tempo até música voltar. Gustavo Hitz, vc só esqueceu de mencionar que Fiona conta com algumas ‘armas’ como a Magnesia (que vc deixa no chão e quando o inimigo passa ele explode) e a Antimonia e suas variações (você joga nos inimigos e ele explode ou dá choques).
Parabéns pelo texto!
Bjosss
Huahuahauhauauh, mestre Oliveira me proporcionou sem dúvida momentos de riso com os comentários tecidos. Sobre os reviews, é isso mesmo que vc falou. Tenho visto notas bem medíocres para o Blue Dragon, mas com certeza compraria o jogo caso tivesse o 360…só de ouvir a música de abertura eu já fico com vontade de jogar. Numa boa, deve ser animal.
Monique, muito bom o seu comentário, obrigado por falar sobre o que eu tinha esquecido. Sugiro a vc que jogue de vez em quando esses games de Survival Horror para ter a total sensação de estar dentro do jogo. Depois vc me fala se teve coragem ou não, hehehehe. Mas jogue acompanhada, eu por exemplo tive companhia durante todo o Haunting Ground – sim, eu tenho medo.
Foi o de survival horror que mais gostei até hoje
Simplesmente adorei. Já o emprestei a muita gente e todos gostaram imenso. É pena que nunca mais tenham feito outro como este.
Fatal frame joguei mas não tem comparação.
Todo o enredo do haunting ground está muito bem bolado, a alquimia é deveras interessante. Adorei, adorei adorei
Ele tem três finais e joguei-os todos.Volta e meia estou a jogá-lo de novo. Que pena nunca mais encontrei outro como este.Se alguém conhecer outro assim do género que me diga
velho…achei tua analize perfeita…e é incrivel q eu concordo em todos os pontos na tua repudia por RE4 -.- eu so estremamente fã da triologia do ps1 e eu realmente odeio o q eles fizeram com o 4 -.- ,se tu quise me add no msn pra nos conversarmos sobre isso chmf_@hotmail.com